MÁRIO FERREIRA BELO (I)
“Foi o grande responsável pela existência deste espaço no nosso jornal, ao entusiasmar-me com a sua memória privilegiada a recordar as pessoas, os costumes, as tradições e a história do passado em Fão. Começamos no “O Novo Fangueiro”- versão em papel do Dr. Armando Saraiva em 2004, com “Testemunhos do Passado”, cujo “feedback”, como que nos obrigou a criar um espaço que lhe desse continuidade, o “Recordar com…”
Filho do “Alberto Bebé” um grande mestre de tornear o ferro
Mário Belo - ”Quando nasci em 1922, já não conheci os meus avôs que morreram muito jovens. Minha mãe Abília dos Santos Graça, era filha da Maria Crisóstomo Pereira (“Maria do Russo”) e de Abílio dos Santos Graça, fangueiro descendente de pescadores poveiros.
O meu pai Alberto Ferreira Belo, também ficou órfão de pai (Manuel Cardoso)em pequeno”. O meu avô paterno, que faleceu aos 25 anos, conhecido por “Manuel Mata”, era barbeiro, no estabelecimento no Largo Manoel Paes, onde mais tarde trabalhou no mesmo ofício o Custódio Cardoso e mais tarde seu filho Alvarino. Minha avó, Maria Gonçalves Novo (“Avó Quitéria”) voltou a casar com o João da Costa Carvalho, o “Parrulho”.
As tias do meu pai (Adelaide e Adélia “Mata”) como que o disputavam e praticamente o raptaram, pois a minha avó mandou-o trabalhar muito pequenino, ele que ficou conhecido por “Alberto Bebé”, por as tias o tratarem por “Bebé” mesmo já crescidinho.
A sua carreira de grande artista a lidar com o ferro, começou como ajudante, na oficina do Francisco Ferreira, que tinha uma grande oficina na Areosa. Mais tarde trabalhou com José Ferreira, um grande mestre de serralharia que montou uma oficina no Porto. Foi aqui que ele mais se desenvolveu como ferreiro. Também trabalhou nos nossos estaleiros navais e numa oficina de coches em Braga.
Chegou a ter a sua própria oficina no Ramalhão e mais tarde nos Varais, actual Rua Professora Zulmira Borda. Trabalhou ainda para o Antonino Borda, fazendo-lhe todas as ferragens nos coches, que ele chegou a fazer por encomenda e ter oficina para concertos, aqui no Cais. Ainda trabalhou numa oficina para os primeiros camiões, em Navais, montada por Alfredo Quesada, um homem que chegou a ser “choffeur” da Rainha D. Amélia e que por isso teve de fugir para a América, antes que estoirasse a anunciada revolução republicana de 1910. Ele já tinha uns conhecimentos de mecânica, pois naquele tempo para se conduzir os primeiros carros, isso era imprescindível, visto terem muitos problemas e estarem constantemente a precisar de ajustamentos e reparos, durante as viagens nas estradas muito irregulares de então.
Nos Estados Unidos estudou mecânica avançada e casou com uma senhora americana. Meu pai foi contratado pelas grandes referências do Albino Torres, que lhe fornecia todas as madeiras, para os primeiros camiões de Aguçadoura e nós fomos todos morar num anexo do seu casarão. Meu pai era o chefe da oficina e vivemos com algum desafogo nessa altura. Mas, com a sua conotação monárquica e o golpe do Estado Novo, fizeram com que tivesse de abandonar novamente o país, desta vez para África, com um contrato para reparar aviões, devido às aptidões conseguidas nos EUA. Nós ainda lá ficamos algum tempo, pois ele cedera um espaço para o meu pai ter a sua oficina. Mas, como depois ele adoeceu com uma pneumonia dupla, tivemos de regressar a Fão e passar por muitas carências de novo.
Depois disto, teve vários trabalhos, com alguma intermitência com a doença, nunca mais teve uma vida desafogada com 6 filhos e ainda um 7.º que adoptou. Isso, foi uma história e um grande exemplo de humanismo, quando adoptou um bébé que ficou órfão à nascença, cuja a mãe morreu no parto e era parente afastada. O Padre Manuel Sá Pereira, que também era Presidente da Câmara, mandou chamar toda a família, mas ninguém quis ficar com a criança. Como encontrou o meu pai por acaso (ou não), que era primo da falecida, seduziu-o a tomar conta do recém nascido, que poderia beneficiar da minha mãe ainda andar a dar de mamar ao meu irmão Alexandre e poder também o amamentar.
Meu pai fez obras de grande qualidade, desde reparações que mais ninguém conseguia, até trabalhos de ferro e muita arte. Trabalhou em 1936 na reparação da ponte. Fez todas as ferragens dos Bombeiros de Fão, do qual foi bombeiro da fundação, os machados, os machadinhos de cinta de todos os elementos, os mosquetões, as ferragens das escadas, as molas, os grampos, o gadanho. Também fez as ferragens para os bombeiros de Esposende, aí deixou vários trabalhos como os portões das vivendas do Américo Vieira e do Adriano Vieira, aquela junto à Senhora da Saúde e que foi do Dias das Almas. Em Fão, deixou a porta do jazigo do Padre Alaio e os portões e cercas da Casa da Cascata, entre muitas outras coisas.
Para além disso e apesar de não saber ler, era um homem com razoável cultura, para quem li muitos livros, um grande contador de histórias, foi um bom actor das primeiras revistas e tocava guitarra, tendo-me feito uma quando eu tinha apenas 10 anos.”
O Ramalhão e as “Pedras da Tia Leonora”
”O meu pai, que viveu muito tempo no Ramalhão, começou a tocar nas Pedras da Ti Leonora, com os João e José Henrique Ferreira “Mexilhões”, nos famosos serões de antigamente e deixou-me essa herança para sempre”.
O Ramalhão, era todo em solão, composto por casinhas térreas de um ou 2 compartimentos, feitas de pedra e cal, eram habitadas maioritariamente por pescadores e alguns agricultores. As portas ficavam meias abertas e as vizinhas entravam e saíam, por vezes a trocarem e repartirem as coisas mais singelas, numa época de muita miséria. Até o próprio lume se levava de uma lareira para acender outra. Apenas duas casas se destacavam na zona, que era a casa do “Tio Machado”, o “Cavaca Velho”, que tinha tomadias nos Lírios, a casa das “Bentas”, também com terrenos nos Lírios, rica em lavoura e pinhal e ainda também na rua dos Veigas a casa grande das senhoras Vila Chãs, que servia de armazém das alfaias e dos cereais e uma grande quinta envolta. Tinha um nicho na parede com uma Santa Bárbara, que acabou por vir a dar o nome a toda aquela zona nova que hoje conhecemos.
Na esquina da rua havia a tasquinha da “Tia Pelica”, uma casa muito típica e famosa. A casa da “tia Leonora” (lá viviam duas senhoras solteiras que ainda conheci já velhinhas), na entrada do Ramalhão, era das maiores e tinha uma grande lareira, onde se juntavam as senhoras, entre elas a minha avó e irmãs, a fiar com os xailes pela cabeça, à volta da fogueira. Elas, as fiandeiras, com a roca à cintura faziam as estopas de linho para os lavradores, que as pagavam em géneros alimentares.
No verão vinham para o pátio exterior fiar e cantando como habitualmente, mas aí juntava-se toda a vizinhança, nesses serões onde se cantava ao desafio, canções e modinhas, acompanhadas pelos tocadores de então.
As mulheres dos muitos pescadores, iam muitas vezes juntas esperar a chegada dos homens do mar e a maior parte eram varinas.
A minha avó materna, que era conhecida por “Maria do Russo” por na família haver muitos que eram louros, algo raro na época, também vivia no Ramalhão, fazia campos arrendados, onde tinha vacas e era uma mulher de “armas” como se costuma dizer. Casou com um homem das Necessidades, Manuel Henrique Ferreira, que era olheiro da Fábrica do “Felgueiras” e de várias propriedades.
Em casa da avó Quitéria
“ Em pequeno, fui para casa da minha avó Maria Gonçalves Novo (“Quitéria”), que se ofereceu para tomar conta de mim, após ter ficado seriamente doente, numa altura de grande miséria. Aí vivi até aos 12 anos, sobre os permanentes e atentos cuidados dela.
A casa era na zona da Areosa, na actual rua António Morais, junto ao Pátio do Antão (ou das Vila Chãs). Ali, no denominado largo “das Reginas”, faziam-se bailes e festejavam-se os santos populares. Em frente a nós vivia o Neca do Lírio, também conhecido por “Pantomina”, pai do Marcelino e casado com a Eufrásia Neto, a Conceição “Fiscala” e os “Pirrões”, que viviam todos do mar e era gente com muitas carências.
A minha avó que vivia sozinha comigo, fazia serões lá em casa com alguns vizinhos onde se contavam histórias onde a grande animadora era precisamente a Eufrásia que apesar de não saber ler, tinha um grande dote para contar as histórias que o pai (“Tio Eduardo”) lhe havia lido. Ele, apesar de muito pobre, casou com D. Ana, uma senhora muito humilde, mas que tinha origem nobre, embora tivesse sido peixeira. Em casa tinha o livro das “Mil e uma Noites” que lera totalmente aos filhos. Ali se juntavam pobres e ricos da vizinhança como os Bermudes, descendentes de um guarda fiscal que viera para Fão e a D. Rita Borda, que vivia na casa na esquina, que foi depois do senhor Morais. A Eufrásia conseguia pôr toda a gente em silêncio não perdendo pitada das suas palavras, mostrando grande eloquência e teatralização. Quem não a conhecesse não poderia adivinhar o sofrimento da miséria em que viviam, dos parcos rendimentos da pesca que lhe levou um irmão. O José Neto, um dia naufragou com o marido dela que escapou, mas ele acabou por falecer e foi mais uma tragédia para esta pobre família.
O petróleo para alumiar os serões era comprado (2 tostões) à vez pelos vizinhos participantes na casa onde vive actualmente o António Catarino, na altura a loja de vinhos do Joaquim Pedrosa “Pidaina”, que também vendia sal e sabão.
A minha avó era uma mulher com muito medo das trovoadas, aliás como eu, e tinha em casa numas redomas 2 imagens de Santa Bárbara e São Jerónimo. Quando trovejava fazia umas rezas e uma ladainha muito antiga, da qual só me lembro parte, mas ainda há pessoas em Fão que a sabem toda. Sei que ela acendia uma vela a cada santo e a cada relâmpago, aumentando a tonalidade da voz, dizia: -São Jerónimo, Santa Bárbara Virgem,
Levai esta Trovoada
Para o mar coalhado
Onde não cante galinha nem galo
E a ninguém faça mal,
Nem a bafinho de menino,
etc…
Depois pedia à vizinha Eufrásia: -Comadre! Traga para aqui as crianças!
Pois dizia-se que os santos onde houvesse crianças desviavam as faíscas. E então numa altura da ladainha dizia: -Onde vais Bárbara Virgem…etc…”
Uma certa vez que ela dizia estas palavras, passava à porta a vizinha Bárbara Bermudes (que já era mãe de uma menina de colo) com a garrafa para trazer o petróleo, que ao ouvir aquilo, respondeu:
- Vou buscar o petróleo senhora Maria, que hoje toca-nos a nós comprá-lo!
- Não é contigo estupor (Deus me perdoe), que tu já nem virgem és!
Retorquiu a minha avó. Escusado será dizer que a gargalhada foi geral e praticamente abafou o som dos trovões. E pelo serão diante foi uma noite de muito humor graças a esta peripécia, que foi lembrada durante muito tempo.
Quando voltei para casa dos meus pais já era quase adolescente e ela mesmo costumava dizer: - entreguei-o aos 12 anos limpinho e seco.”
Na construção da EN 13 e nas obras da ponte
”De regresso a casa dos meus pais, como era o mais velho tive que ajudar ao sustento da família e depois da estada em Navais, andei às pinhas com a minha mãe, cheguei a pedir pelas aldeias e claro, ajudava o meu pai quando ele tinha trabalho.
Andei com os meus pais nas obras do primeiro alcatroamento da estrada Porto-São Gregório, entre 1935 e 1936. Começamos em Fão, contratados pelos capatazes da empresa do Porto que ganhou o concurso, a “Valdemar Mota”. Alguns desses capatazes acabaram por ficar por cá como foi o caso do Geraldo e do Ernesto que casaram em Esposende e fizeram família.
Andamos de terra em terra vivendo em barracas junto à estrada e fomos até Monção, onde chegamos a estar vários meses, à espera que o tempo melhorasse e o pavimento secasse, pois naquele tempo o alcatrão era projectado a quente depois de derretido em caldeiras. O chão de cascalho e saibro era picado, depois o pó era limpo com um aspirador fortíssimo para facilitar a aderência. Depois era projectado o alcatrão com pulverizações e quatro mulheres das Marinhas com grande perícia e pás em riste espalhavam areão grosso. Depois de seco vinha um cilindro mecânico, mas tinha-se de regar para que o alcatrão não se colasse às suas rodas.
Era um trabalho de sol a sol, principalmente no verão em que era preciso aproveitar os dias mais longos. A minha mãe como todas as mulheres, ganhava 2$50 (escudos), o meu pai 4$50 ou 5$00 e eu que andava com a mangueira e a aguçar as picadeiras 1$50 por dia. Foi cerca de ano e meio de grande provação, mas pelo menos tínhamos de comer.
Na ponte, ainda com os passeios internos, ainda em 1936 tinha apenas 14 anos, quando fui trabalhar na sua reparação com meu pai. Eu como ajudante tocava a ventoinha para aquecer os rebites que eram cravados a quente.
Depois disso ainda estive como seu ajudante na forja do Borda, onde o trabalho também era muito duro, pois naquele tempo não se usavam tornear o ferro, era todo trabalhado a quente e moldado à força.
Ainda fui contratado pelo mestre Francisco para os estaleiros navais em Esposende, mas aqui já como encarregado, o mais jovem de todos, numa altura em que os meus dedos já se entretinham e divagavam nas cordas da guitarra, instrumento que passou a fazer parte intrínseca da minha vida, acompanhando-me para todo o lado e esteve ligada até aos dias de hoje a toda a minha vida em perfeita harmonia e entendimento, com muitas coisas bonitas pelo meio…!
E por aqui ficamos, neste primeiro depoimento, resumido diga-se, pois as particularidades e pormenores, mesmo passadas algumas gerações, bem gravadas e definidas na memória com o nosso interlocutor, que íamos teimosamente adiando entrevistar, pelos laços que nos ligam e que às vezes nos dá algum preconceito fazer. Mas injustamente estava a privar os nossos leitores de com eles repartir algumas das histórias, que já foram requisitadas por vários autores daqueles que têm escrito e falado do passado fangueiro.
Por isso, e enquanto pudermos ter o privilégio da sua lucidez, memória e retórica ao nosso dispor, temos de aproveitar para Recordar com… Mário Belo.