ANTÓNIO MARIA MOLEDO VIANA
Aos 67 anos de vida, o “Tone Gaio” tem uma experiência de vida de grande dedicação ao próximo, como bombeiro entusiasta e apaixonado, que confessa o ter ajudado a encarar as grandes contrariedades e doenças que a vida lhe reservou. Mas neste seu recordar, a antiga cordoaria das Rodas foi o epicentro da nossa conversa.
Segundo o nosso interlocutor, a Cordoria das Rodasteria cerca de 200 anos, pois já existia no tempo do seu bisavô David, no século XIX.
António Viana- ”Em menino a Cordoaria do meu avô (António dos Santos Viana “David”), era uma das 3 que existiam em Fão, a par da do Joaquim Carlos “Quim Frade” e do Francisco Brito (pai do Quintino). A do meu avô ficava nas Rodas, a do “Quim Frade” por trás do Hospital e a do Francisco Brito na Tomadia das rodas.”
Com o meu avô trabalharam o meu pai e os meus tios, pois aquilo era um trabalho artesanal. No tempo dele trabalhava lá o “Sipote”, que era o marido da Alexandrina “Pataca” e mais tarde foi para lá o “Zé Lareco”, que ainda ficou no tempo do meu pai, Isaltino Pedrosa Viana, que depois tomou conta da cordoaria. Nós começamos em pequenos a ajudá-lo e eu com 8 anos já lá andava a dar à roda”.
Cordoaria das Rodas com o avô António "David" ao centro e o pai Isaltino à esquerda (anos 50)
Matérias primas, Equipamentos, Utensílios, Tipos de fio e Técnicas
“A cordoaria adquiria sisal, algodão, que vinham do Quintas & Quintas e “Corda do Cairo”, que vinha do Egipto.
As principais peças eram a Roda, toda feita de madeira e que trabalhava num eixo de bronze. Havia 3 rodas, sendo 2 fixas e uma móvel, que usávamos para levar para a zona dos “Varais” (actual rua Amorim Campos), na época das cheias. A roda tinha a altura de um homem. Depois havia o Trabuco, onde encaixavam as manivelas de ferro, que torciam a corda. A Talha, era uma peça onde encaixava o trabuco, que o prendiam, para que este não se soltasse. As Cruzetas ou Alças, era onde pousava o fio e as Muretas por sua vez encaixavam nas cruzetas e ajudavam a torcer o fio. Os Ferretes eram destorcedores onde ficava o seio do fio a torcer. As Estantes, também feitas em madeira, eram a sustentação da roda. Usava-se ainda o Regador, para humedecer e amaciar o fio e o Corno que se usava para olear.
Os principais tipos de fio que fazíamos era a Corda de Sisal, corda de carro, que tinha 20 milímetros e servia para prender as cargas dos carros de bois e carroças; Linhas de Algodão para os pescadores, Fio para fazer “capaços” (um tipo de tapete), que se fornecia para uma fábrica em Viana do Castelo; Corda de Linho Nacional, que era usado para as bambinelas dos correeiros, para as selas dos cavalos; Corda de Piteira (espadaria), que era cozido em potes e espalmados nos sedeiros, para não ficar tão áspera. As cordas mais grossas com cerca de 30mm, eram feitas com a utilização de um banco com umas manivelas uma seta que fazia rodar 4 pontas de fio, para o tornar mais grosso.
Os nossos principais clientes eram os feirantes, Algumas fábricas de Barcelos, Póvoa, Viana, Braga e Famalicão e muito particulares.”
Um trabalho muito duro e mal recompensado...
”O trabalho começava cerca das 7 horas até ao pôr-do-sol, por isso enquanto havia luz do dia. O fio, mesmo passando-se por água e sebo, para amaciar, deixava-nos as mãos em ferida. E nos extremos do Inverno e do alto verão, como era um trabalho ao ar livre, o nosso corpo ficava muito exposto às condições mais adversas. Para alguns fios, trabalhávamos com um pano na mão para o envolver e torná-lo mais liso. Andávamos com o sisal à cintura em marcha atrás durante horas a fio. Para cada quilo de fio era preciso 6 cumprimentos de 60 metros cada, quilo esse que rendia 7$00, isto por volta dos anos 50. Eu ganhava por essa altura cerca de 20$00 por dia, o que era um rendimento muito pequeno, para tanto trabalho. Por isso, eu e os meus irmãos fomos procurando outras actividades. Em 1959, fui com o meu avô pedir emprego no Quintas & Quintas na Póvoa, que também trabalhava com fios. Entrei logo na empresa e comecei logo a ganhar 32$00 por dia. O sistema de trabalho naquela altura era igual, embora fosse uma empresa de maior dimensão, mas pouco depois apareceram as máquinas e eu fui trabalhar com elas. O mais custoso era ter de fazer as viagens diárias de bicicleta, muitas vezes sujeito às intempéries e como trabalhava por turnos, por vezes saía de casa às 5,30 horas da manhã e outras chegava perto da meia-noite e quando chovia, como o dínamo da bicicleta não funcionava, vinha às escuras. Aos fins-de-semana ainda ia ajudar nas Rodas. O meu irmão Raul foi o último a sair da cordoaria, mas depois foi trabalhar para a hotelaria e o meu pai quando adoeceu em 1968, aquilo ficou parado. Após leves melhoras e com o trabalho mais fraco, ele retornou às Rodas até 1975, ano em que recaiu e veio a falecer, acabando com ele a última cordoaria de Fão. Eu ainda pensei em tomar conta dela, mas pensei melhor e sabendo que as máquinas faziam o mesmo trabalho 10 ou 20 vezes mais rápido, cheguei á conclusão que já não dava resultado. ”
Bombeiro por paixão e vocação e com muita dedicação
“No Quintas estive 12 anos e por coicindência, naquele ano de 1959, também entrei para a Corporação dos Bombeiros, algo com que já sonhava há muito e ao qual me dediquei com corpo e alma para o resto da minha vida. O quartel passou a ser a minha verdadeira casa, onde passava a maior parte do tempo, principalmente quando ao fim de 12 anos troquei o Quintas pela Solidal (fábrica de cabos eléctricos)e fiquei mais perto. Tem sido uma vida de grande apego aos Bombeiros, aonde cheguei a 2.º Chefe, fundei a Fanfarra do qual ainda sou o principal responsável, embora ajudado pelo Neu e pelo Pedro e fizeram pertencer ao Quadro de Honra.
A fanfarra teve alguns momentos menos entusiastas, mas Deus deu-me força para não a deixar acabar e tenho muito orgulho nela. Como bombeiro estava sempre na linha da frente, até porque morava perto do quartel, eu o Zé Augusto e mais tarde o Quim éramos sempre os primeiros a chegar e aqueles que participávamos em maior número de missões. Passei momentos complicados, com a própria vida em risco, principalmente em incêndios, mas este trabalho de voluntariado sempre me fez sentir bem comigo mesmo e tem-me ajudado a ultrapassar os meus problemas pessoais, principalmente com a doenças que me apareceram e tem afectado como foi o aparecimento da de “Parkinson”, operação ao coração e problemas de coluna. Deu-me alguma serenidade e coragem para resistir à dor e às limitações físicas e ânimo e força para continuar a lutar."
Recompensado e reconhecido
O senhor António, como pessoalmente sempre o tratei, é um homem muito respeitado e acarinhado em Fão, pela sua humildade, humanidade e exemplo na sua dedicação aos Bombeiros e ao próximo, sentindo-se reconhecido por isso. Foi com grande satisfação que viu ser lembrado nas comemorações dos 80 anos da Corporação e no livro que narra a sua história e foi recentemente editado. Ainda nas últimas Festas de Fão a Comissão organizadora, o homenageou aquando do desfile de fanfarras que abrilhantou as Festas da Vila. Continua muito activo e motivado e confirmou-nos isso, quando falou com grande entusiasmo do próximo desfile em que a “sua” Fanfarra vai participar em Famalicão e no qual pretende estar presente.
Como um menino, entusiasmado e orgulhoso, mostrou-nos um “brinquedo”, feito manualmente por si em madeira, que representa a Cordoaria, seus equipamentos e utensílios, numa escala perfeita e a funcionarem perfeitamente. Algo que um dia mereceria mais que o seu recatado sótão, já que representa um importante legado da cultura, tradições e história de Fão.
PS. Agradecido a mais um fangueiro que me abriu as portas, a alma e o coração para que como diz o nosso historiador Prof. Joaquim Peixoto, “o passado, não passe” e saibamos recolher os ensinamentos dos mais velhos e experimentados.
Desculpas ao nossos leitores que sempre tem mostrado o maior interesse neste tópico, pelo atraso com que foi editado neste número 25, apenas por minha culpa e as contingências de uma vida, que teima em encurtar-nos o tempo para fazer algumas das coisas que mais gostamos, como é Recordar com…