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ARMANDO BARBOSA RODRIGUES

Alegria, emoção e saudade…estiveram estampadas nos rostos e olhos, muitos deles humedecidos, dos fangueiros que encheram o Salão Paroquial. Foram belas noites em que a Revista "Toma Lá Mais Esta" esteve em palco recentemente, já por 3 vezes e com pequenos espaços de tempo de intervalo. Armando Barbosa, homenageando Zé Maia, recordando o rico passado do teatro e das canções em Fão, mas também com a sua inspiração, criatividade e humor, presenteou-nos com um belo espectáculo, de sua autoria.

Criado no Ramalhão, uma rua muito animada

NF- Recorda-nos alguns momentos da tua infância…

Barbosa- ”Eu nasci aqui no Ramalhão, nesta casa onde ainda vivo e por cá passei a minha infância. Esta rua (Dos Veigas), de terra batida, era muito animada, com muitas crianças. Aqui brincávamos ao “botão”, “peão”, “à barra”, “à bola” e quando chovia fazíamos barquinhos das cascas das árvores, para brincarmos nas poças. Lembro-me de fazermos capacetes de papel, para imitarmos os bombeiros e até com uns paus de estuque imitávamos o carro de incêndio. Brincadeiras simples com o pouco que havia e alguma criatividade à mistura. Fiz a escola em Fão até à 4.ª classe e depois fui para a escola Comercial e Industrial de Barcelos. Por esses tempos tinha como amigos das brincadeiras os meus vizinhos, Mando Solinho, Casimiro, Zé Cândido, o Cândido da “Micas do Jorge”, António Carreira e o Chico Brandão. Já havia muita rivalidade com a malta do centro (“Os de lá de baixo”), e os nossos jogos à “guerra” e hóquei (jogado com troços das couves), acabavam muitas vezes á pancadaria e com algumas cabeças rachadas. Aqui na rua era como se fossemos todos uma só família, as portas abertas onde se entrava sem bater. Quando se cozia o pão (nós tínhamos forno), distribuía-se muitas vezes pelos vizinhos.”


A J.O.C. uma marca importante na juventude

NF- E alguns episódios da juventude…

Barbosa- ”Em Barcelos a estudar só vinha a casa aos fins-de-semana e férias, ficando em casa da minha irmã Celestina, casada com o Secundino, que tinha uma padaria. Nesse tempo também andavam lá na escola o Fernando “Pieira” e o António Vale e mais tarde o . Lembro-me de aos sábados ir entregar uma “rosca” a casa do Né “Glória”, que vivia em Barcelos, que me dava 5 escudos, uma gorjeta enorme naquele tempo! Estive lá 5 anos e no verão trabalhei no Hotel Ofir no controlo e até cheguei a ir para o Porto com o meu padrinho Luís Morais “Cochinha”, pintar umas casas. Era a forma de conseguirmos ter alguns tostões num tempo de grandes dificuldades e no Ofir a malta ainda se divertia muito, pois era um ambiente de muita juventude e convívio, onde se conheciam muitas pessoas de fora e se faziam novas amizades. Entretanto já tinha entrado para a JOC, a que sempre pertenci e até cheguei a ser presidente da Pré-JOC, quando o Solinho era o presidente dos maiores. Um bom grupo de jovens desse tempo fizemos vários teatrinhos e as “Festas do Cristo-Rei” que aconteciam em Outubro. Aí fizemos o nosso primeiro conjunto, o “Barracada”, no qual participaram além de mim, o Solinho, Luís e Tone “Mona” e o Casimiro.

Foto: com um grupo de jocistas (em baixo com bandeira) e o Padre Manuel Gonçalves.

"Mais tarde então surgiu o “Mar e Rio”, inicialmente com o Solinho, Zé “Catrapila”, Emílio Pedras “Major” e Carlos Belo. Mais tarde saíram e entraram outros como o Américo Carvalho, Carlos Bogo, António e Tina Soares e o Inocêncio. Isto durou até 1971, mas depois com a incorporação do pessoal na tropa, que naquele tempo eram 3/4 anos, o grupo desfez-se para sempre.
Lembro-me de uma pequena peripécia… Quando fomos convidados a tocar na Franqueira, num espectáculo a favor dos Bombeiros de Barcelos, vieram buscar-nos de ambulância e a malta levou aquela viagem na risota, a fazermos de acidentados, gritando e gemendo na brincadeira. Ainda me recordo que nos agradeceram com uma lembrança, representando um bombeiro em barro."


Foto: Conjunto Mar e Rio

”Exilado” em Leiria

NF- O serviço militar e casamento, que influência tiveram?

Barbosa- ”Para a tropa fui em 1974 e casei com a Alexandrina Dias, que trabalhava na fábrica de chocolate “Real”, que havia em Esposende, de onde é natural. Ora como a fábrica depois fechou e o patrão dela abriu outra de géneros alimentícios em Leiria, o pessoal foi transferido para lá e eu fui com ela, depois de já ter trabalhado no Ofirtex. Naquela localidade leiriense chamada Soutocico, senti muitas saudades de Fão e isso deu-me alguma inspiração para escrever vários números para as revistas do Zé Maia, como por exemplo o “Cávado” e “Ruas”, entre outras”. Também foi aí que eu conheci a tradição do ”Enterro do Bacalhau”, que achei piada e trouxe para Fão, onde tenho organizado há muitos anos.
Estivemos naquela terra durante 3 anos e profissionalmente ainda fui trabalhar para a Securitas.



Na foto: Na equipa do CF Fão em 1971.

No futebol com habilidade mas sem “vida” para isso

NF- Foi um guarda-redes que deu nas vistas, mas não passou do Fão, porquê?

Barbosa- “Futebol a sério só comecei a jogar em 1969 com 19 anos, curiosamente como avançado no Marinhas. Em 1970 vim para guarda-redes para o Fão. Quem me influenciou foi o Eduardo de Barcelos que sabia que eu dava um jeito na baliza no tempo em que estudei naquela cidade e defendi na equipa de andebol da escola. Naquela época o guarda-redes titular era o Solinho e o treinador o Geninho” da Póvoa, ao qual sucedeu o “Lino Cantoneiro” e depois o Samuel de Esposende, que foi quem me lançou. Aconteceu num jogo com o Monção e em que estávamos a perder por 0-3 e não correu mal pois ainda conseguimos empatar 3-3. Estreei-me como titular num jogo nas Marinhas, que na altura estava em 1.º lugar na luta pelo título e nós para não descer, mas fomos lá vencer por 2-0. Salvamo-nos na última nos jogos de “passagem” com o Arco de Baúlhe. Realmente parece que chamei a atenção de alguns clubes e cheguei a ser contactado por clubes como o Vianense, Guimarães e Boavista. Cheguei a ir treinar a Viana, para onde foi jogar o Zé Albino e ia com ele no seu “Hilmann” e também ao Bessa, no tempo do José Maria Pedroto que conheci pessoalmente. Mas na verdade eu não tinha “vida” para o futebol, pois não conseguia ter regras e não podia prescindir dos fins-de-semana à noite, pois gostava era das cantigas. Acabei com o futebol em 1982, numa altura que trabalhava de noite, portanto incompatível com o futebol.”
Foto: Na entrega do 1.º prémio das Marchas de 1975, por Costa Duarte director do Hotel Ofir na época

Os conjuntos, o fado e as marchas

NF- Portanto, concentrou-se mais na música e nas canções?

Barbosa- ”Nunca deixei de o fazer e logo em 1978, reorganizamos o “Mar e Rio”, agora com outro tipo de música, mais de “recolha” e com outros elementos, a seguir apareceu o ”Seara Verde”, que chegou a conseguir coisas bonitas e muitos espectáculos, como por exemplo a participação em toda a campanha política do então CDS. Nós fazíamos a 1.ª parte dos concertos dos comícios e a 2.º parte era feita pelos famosos “Táxi”. Mais tarde surgiu o Fanum”, no tempo de grande dinamismo da hotelaria e participávamos 2 vezes por semana para os holandeses no ”Fojo”, que era uma grande casa de animação na altura. Este grupo depois passou a modernizar-se e eu acabei por sair e enveredar pelo fado. Cheguei a cantar em várias casas, mesmo a nível pessoal, com o acompanhamento do Né Glória e do Mário Belo e ainda com o Guilherme Mendes, chegando a ser o fadista residente da “Lareira”.
Nas marchas comecei logo em 1970 e fiz as letras das várias actuações, durante mais de 25 anos. Também encenei muitos anos, bem como uma Marcha Infantil e 2 anos a Marcha das Pedreiras.
Fui o autor da Marcha Geral, que todas cantaram em 1976, nas Festas do ano da Elevação de Fão a Vila…que era assim:

Com arquinhos e lindos festões
Isto é Fão, vai a passar
Com cangostas e ruas estreitas
Isto é Fão, passa a cantar…


Ensaiei ainda a marcha que foi representar a nossa escola na Expo 98, num programa organizado pela DREN e em que a escola de Fão, foi apurada no Pavilhão Rosa Mota, com outras 2 do norte a participar num espectáculo no pavilhão de Portugal na Expo. Levámos 10 músicos, mas muitos outros nos queriam acompanhar e de Fão partiram muitas pessoas em autocarros e viaturas particulares às 4 da manhã, numa etapa muito gratificante para nós e para Fão. Bem , depois sempre gostei de fazer o “ Enterro do Bacalhau” e claro, as Revistas… ”


Foto: Actuação no Pavilhão Rosa Mota em 1998

Nascimento do “GATA” e renascimento do Teatro

NF- O “GATA” e o Teatro de Revista são a tua grande aposta?

Barbosa- “Estive muito envolvido nas revistas principalmente no tempo do Zé Maia, escrevendo letras, como músico e cantando algumas canções. Com a sua morte houve um grande esmorecimento e em 1997/98 a Cooperativa Cultural com a revista Fão Ontem, Fão Sempre”, tentou revitalizar estes espectáculos, mas sem sucesso.
Comecei então a pensar em criar um grupo para tentar reanimar, principalmente o teatro. Eu já tinha as letras escritas para uma nova revista e em 2006 decidi falar com o Presidente da Junta José Artur Marinho, que me recebeu de “braços abertos” e daí partiu uma convocatória para uma reunião com todas as associações da terra. A ideia era tentar envolvê-las e ajudar-nos neste projecto e todos nos deram “luz verde” para avançar. Bem, depois foi divulgar a angariação de associados para o “GATA” (Grupo Associativo de Teatro Amador), que seria o “motor” para fazer renascer o teatro em Fão.
Através da inscrição de futuros sócios (Dezembro de 2006), fui contactando aqueles que poderiam colaborar e participar mais directamente numa peça e marquei uma reunião em 8 de Janeiro de 2007, no Salão Paroquial.
Apareceu muita gente, mas muitos ficaram pela intenção e outros pelo “caminho”, numa altura que já tinha a peça toda pronta. Marcamos o primeiro ensaio nos finais de Fevereiro, inicialmente uma vez por semana e a partir de Abril duas. Como os “compères” previstos desistiram a meio, tive que alterar todo o texto que fazia a ligação dos números em Setembro de 2007."


NF- Porquê o nome “Toma Lá Mais Esta”, quais as principais dificuldades ou apoios encontrados e quais os projectos futuros?

Barbosa- “O nome foi inspirado numa expressão de um amigo aqui do Ramalhão, o Augusto Vieira “Barraca", que costumava dizer a seguir a alguma história ou novidade…”Toma lá mais esta! Ora como o povo de Fão estava “esfomeado” pelas revistas, então também vinha a calhar o nome.
Dificuldade maior foi sem dúvida as obras da ponte, que prejudicou a vinda, principalmente dos músicos e uma ou duas cantoras. Por outro lado tive várias ajudas: das instituições destaco a Junta de Freguesia, o Padre Manuel Rocha e o Museu d’Arte. O grupo muito homogéneo e com senhoras que se suplantaram mesmo com crianças pequenas em casa, para o que muito ajudou a colaboração e compreensão dos seus maridos. Uma atitude louvável! ”

Foto: Em palco em 1975

”Num balanço final, posso dizer que saiu tudo muito melhor do que esperava, pois estava muito receoso, já que havia pessoas que nunca tinham pisado um palco. A “trimideira” era enorme quando começou o primeiro espectáculo, mas com o andamento, a satisfação e o envolvimento do público, foi-nos motivando a acalmando o nervosismo. É muito lindo ver o público a cantar acompanhando as canções! Sinceramente não contava com tanta gente nos 3 espectáculos que realizamos e ainda por cima num espaço de tempo tão curto. O povo estava muito ansioso e ficou muito satisfeito, não se rogando a elogios e a dar-nos incentivo para continuar.
Quanto ao futuro, para já estamos a concluir a legalização do GATA como associação e vamos participar noutros eventos, como aconteceu na Festa do Hospital e vai acontecer nas Festas do Bom Jesus, num espectáculo que vamos organizar no dia do encerramento (segunda) e que se chamará ”Passado, saudade e Fão. Ainda vamos repetir o “Toma Lá Mais Esta”, uma vez em Julho e outra em Agosto, para satisfazer muitos que não puderam ver como aqueles que estão mais longe, como os emigrantes e não só…
Entretanto, já tenho as letras feitas e as músicas escolhidas para uma nova revista, já bem alinhabada, faltando apenas os textos de ligação. Vamos tentar começar os ensaios no final do Verão, para ver se sai em Dezembro.
Vamos também tentar uma reposição de número antigos mais esquecidos no tempo e que possam transmitir aos mais novos como era o Fão Antigo.
Espero com tudo isto, que apareça mais alguém para participar, principalmente jovens, para que Fão “não morra”. Hoje temos meios e apoios e o nosso Salão vai ser melhorado em breve, seja pela boa vontade e dinamismo do nosso Pároco, seja pelo contributo que a Câmara parece estar disposta a dar nas futuras obras. Para que isso aconteça, acho que é preciso incentivar os jovens e pode começar com a ajuda da Associação de Pais para tentar trazer os mais novos até à “GATA”, e claro a “GATA”, também estará disponível para ir até à escola."

Foto:à frente da Marcha do Ramalhão em 1992.

Talvez o Armando Barbosa não seja o último sobrevivente, mas com certeza tem sido aquele que mais tem esgrimido para manter viva esta bela tradição fangueira, que são as canções, o teatro e as revistas. Para já ganhou esta primeira batalha, que muitos não acreditavam e com o “GATA”, que depois das primeiras engatinhadelas, já fez ouvir bem o seu miar, espera e esperamos nós que consiga definitivamente fazer ressurgir as artes cénicas em Fão. Por isso, este fangueiro nascido em 1950, merece todo o nosso apoio e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido e pela alegria que transmite nas suas peças, nunca esquecendo e homenageando os seus predecessores.