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AIDA TEIXEIRA DIAS

"Desde que me conheço, nunca vi um Carnaval em Fão sem a Aida, uma mulher com um espírito folião, que no seu salão de cabeleireira sempre o transmitiu e contagiou às suas e seus clientes. Por outro lado, ela própria nos confessou, não conseguir viver sem o Carnaval, que sempre a motivou e animou durante todo o ano."

Descendente de músicos

NF- Porquê o apelido “Creixomil” nas vossas origens?

Aida- ”Meu pai era de Creixomil, freguesia de Barcelos e daí o nosso apelido. Na sua família havia 10 ou 11 membros de uma banda de música de Barcelos, na qual ele se incluía.
O meu avô José, era produtor e vendedor de vinhos do “Lavrador” e fornecia a loja dos meus tios-avós, situada no Largo Amândio Teixeira, com quem vivia a minha mãe Rosália Teixeira Gomes, que havia ficado órfã.
Ele engraçou com a minha mãe e achou que daria uma boa nora. Assim, qual casamenteiro, trouxe um dia seu filho António Gomes Dias, para lhe apresentar, “encaminhou-os” para o namoro e daí ao casamento foi um passo.
Desse casamento nasci eu, em 1936 e vários irmãos, alguns falecidos em pequeninos, mais o Amândio, Ana, Orlanda, António e Carmen.
Mais tarde, os meus pais tomaram conta da loja, que passou a ostentar a seguinte denominação “Casa Dias, bons vinhos, Petiscos e Bebibas aromáticas”


Foto: Penteando a noiva "Amalinha do Rufino"

Meu pai era um homem muito conservador e quase não nos deixava sair de casa. Só saíamos ao domingo alternadamente e em algumas ocasiões especiais. Por exemplo, eu já com 27 anos vi o 1.º filme e comi o 1.º bife.
Mais tarde ele deixou a loja e foi para encarregado das minas de Volfrâmio em Gandra. Fez parte da Comissão Reguladora, ligada ao Grémio da Lavoura, tendo mais tarde sido promovido e deslocado para Braga e depois para o Porto, integrado no IGA (Intendência Geral de Abastecimentos), portanto com um estatuto de funcionário público. Faleceu com apenas 51 anos, em 1963.
A partir dessa altura comecei a “soltar-me”, quer na minha alegria de viver, quer profissionalmente. Em casa já trabalhava a bordar, costurar e apanhar malhas em meias de vidro. Depois apareceu a oportunidade de trabalhar como “manicure”, embora só no verão, no Salão de Cabeleireiro Soares, no Hotel de Ofir. Aí apreendi a arte de cabeleireira com esse grande profissional que era António Soares, com salões em Braga e Guimarães, onde eu tive a oportunidade de estagiar. ”


Foto: Com o marido e filhos pequenos

De tudo um pouco até ter o próprio Salão

NF- Daí, tornou-se logo cabeleireira?

Aida- ”Não! Ainda fiz de tudo um pouco e em vários locais. Trabalhei em Barcelos na fábrica de confecções “TEBE”, na Lavandaria Reina, da Póvoa de Varzim, na pastelaria “Paris”, em Viana do Castelo, numa fábrica de carpintaria, em Âncora, como empregada de escritório e ainda na alfaiataria “Agonia” em Fão. Finalmente em 1970, abri o meu próprio salão de cabeleireiro, “Salão Aida”, que inicialmente funcionou na casa da família, no largo Amândio Teixeira, mudando mais tarde para junto da Pã-Pã, até me reformar. Não me esqueço da primeira noiva que fui pentear em sua casa, a ”Amalinha do Rufino”. No meu salão, para além do trabalho sempre houve uma alegria muito grande entre nós e as clientes e como é um local ideal para se saber de tudo e “fofocar”, aproveitava para se fazer humor e claro, inspirava-me para alguns poemas que fiz e temas do Carnaval. Uma altura fui inquirida para fazer parte de um livro que foi editado em 1986 e que fez entrevistas a um grande número de pessoas e personalidades de todo o Distrito de Braga, intitulado ”Quem é Quem?”.


Na foto: Tema "guerra do golfo"

A “Tesoura da Aida” e o “Testamento do Judas”

NF- Então como começou a extravasar a sua veia poética?

Aida- “Comecei a fazer algumas poesias satíricas, nos primeiros anos do antigo jornal O Novo Fangueiro, num pequeno recanto chamado ”Tesoura da Aida”. Aí escrevi alguns poemas engraçados, mas as minhas quadras, nem sempre eram bem aceites e as piadas incomodavam este ou aquele e acabei por me deixar disso.
A minha veia poética para a crítica humorística, teve o seu ponto forte no "Testamento do Judas”, que organizávamos no Largo Amândio Teixeira, onde o palanque era o pátio da “Casa das Teixeiras”. Era sempre muito concorrido e com várias peripécias muito engraçadas. Uma delas jamais esquecerei e o quanto hilariante que foi: Naquele ano quem se prontificou a ler o Testamento do Judas foi o Dr. José Emílio, mas quando viu lá um verso recusou-se a fazê-lo. Nele dizia eu…
Esta coisa de ser Judas
Tem dado bem que falar
Eu morrer todos os anos
E ter sempre que deixar

Foto: Tema "Roque Santeiro"

Depois apareceu um homem das Pedreiras para o substituir. Como este gaguejou a determinada altura da leitura, eis que do silêncio da multidão se ouviu a voz sonante do ”Miro Careta”…-Não, não estragou o disco, só arranhou um bocadinho! O homem embaraçado, saltou do pátio e desapareceu. Veio então um terceiro candidato, ainda jovem, mas quando chegou ao dito verso, a sua mãe subiu as escadas e trouxe-o pelas orelhas dizendo…- Meu burro! Ninguém mais quis ler isso…anda já embora! Quem finalmente acabou por ler as poesias foi o Armando Solinho, mas pediu um banco e não quis ir para o pátio e com o jeito, a mímica e piada que todos lhe conhecemos, espalhou o riso pela multidão. Este Testamento do Judas prolongou-se por vários anos e sempre muito concorrido.”

O Carnaval a correr-lhe nas veias

NF- Em casa, nos bailes, na rua, onde tudo começou?

Aida- ”Eu sempre gostei do bailarico, fosse ou não no Carnaval. Lembro-me até de ter entrado como sócia para o Clube dos Amigos de Fão, por intermédio de um cliente banhista, precisamente para poder participar nas festas e bailes que lá se organizavam. No entanto, quando alguns descobriram, que afinal eu era uma simples empregada do sr. Soares, acabaram por me retirar de sócia, um bom sinónimo dos tempos em que se vivia.
O meu primeiro Carnaval a sério com desfile nas ruas, foi organizado em nossa casa, com o meu irmão Amândio, em 1965 ou 66. Como estava prometida há imenso tempo uma ambulância aos nossos bombeiros, nós fizemos uma em madeira, com janelinhas e as rodas eram as pernas dos seus ocupantes, vestidos de enfermeiros. O meu irmão António, fez os machados em madeira para os figurantes de bombeiros, que tinham os capacetes em papel. A ambulância construída em casa, não cabia na porta para sair, por isso, esta teve de ser retirada. No desfile, os figurantes eram quase todos homens, de mulheres só eu, a Ana Maria Peixoto e a Esménia Sá Pereira, que ia de enfermeira com o Luís Peixoto.
Apesar de muito censuradas, noutros tempos havia muita gente a participar nos desfiles, que se faziam nos vários dias do período de Carnaval e mais que uma vez por dia, incluindo à noite e as críticas eram sempre muito “apimentadas”.
Muita gente foi abandonando esta tradição e nalguns anos só saímos à rua as 3 “folionas” do costume, eu, a Helena Solinho e a Fátima Silva. Quem sempre me ajudou muito foi o meu marido Agostinho. Ele, para além de às vezes ir connosco, foi sempre um “moiro” de trabalho na confecção dos adereços, pinturas, desenhos, cartazes, outros componentes e até na concepção de alguns dizeres e críticas.”


Críticas do Carnaval, muitas vezes com efeitos práticos

NF- As vossas sátiras chegaram a ser atendidas e porque esmoreceu esta grande tradição do Carnaval em Fão?

“ Olha, por casualidade ou não, o certo é que em determinadas alturas, várias obras ou correcções foram feitas logo a seguir ao Carnaval, depois de terem sido focadas nas nossas críticas.” Atalhou o Agostinho, ali ao pé falando e exibindo fotografias de vários corsos e figuras, com tanto ou maior entusiasmo que a sua companheira de sempre, na vida e no Carnaval, contando-nos pelo meio, como eram feitas muitas montagens, utilizando-se muitas vezes o espaço no quartel dos bombeiros e a colaboração de vários elementos, como por exemplo o Álvaro Silva, muito empenhados nesse evento, mas que esmoreceram por algum protagonismo ter sido desviado.
Aida- “Fão, não é só nesta iniciativa que está a perder vitalidade, por isso numa das minhas últimas saídas exibi o seguinte verso:
Fão está a morrer
E não sei se terá cura
O comércio a falecer
Só se vêm cães na rua.


Havia alguns que não tinham poder de encaixe e outros não gostavam das críticas. Talvez por isso, tenha surgido alguma divisão entre as instituições e pessoas que organizavam os corsos, por não acatarem as críticas, ficando alguns melindrados e até indignados.
No passado vinha muita gente para a rua ver passar os cortejos, até de fora da terra, que nos visitavam e registavam o momento com filmes e fotos.
Num passado mais recente, ainda se fizeram desfiles com alguma dimensão, em que participavam as Escolas, o ASP, a Santa Casa da Misericórdia, os Bombeiros e o Infantário, que é praticamente o único sobrevivente. A juventude até tinha uma boa aderência, mas quem organizava é que esmoreceu. Foi uma grande tradição que morreu quase por completo.”


”Posso estar a morrer, mas neste dia como que ressuscito”

NF- Como eram criados os temas? Ao longo do ano ou na inspiração do momento?

Aida- “Bem, nós íamos agarrando ideias do que se passava em Fão ou no país durante todo o ano, mas muitas coisas eram feitas em cima da hora, de inspiração momentânea. Nos últimos dias era uma azáfama e fazíamos autênticos serões. Vivíamos o Carnaval e pensávamos no Carnaval durante todo o ano, principalmente nós as três (eu, a Helena e a Fátima), que até nos passámos a chamar de “Entrudo”, umas às outras.
O povo de Fão gostava muito de ver os desfiles e as brincadeiras de Carnaval, mas tornou-se muito comodista e ninguém quer participar. Sabem que isto dá um pouco de trabalho e por isso mesmo se acomodam.
Este ano tenho andado bastante doente, mas agora que se aproxima o Carnaval, parece que já nem sinto ou penso nas mazelas e dê por onde der, hei-de sair à rua.
Ah! Não te contei outra das minhas facetas, foi estar sempre envolvida na organização das “Festa das Mulheres” e olha que muita gente vinha atrás de nós para os bailes de Carnaval e Passagens de Ano,pois à nossa volta sempre houve alegria e animação.”


Rir é bom e não faz mal à saúde, este é o lema que sempre nos transmitiu e reafirmou esta singular mulher, que teve no seu marido um grande parceiro da paródia e do empenho em fazerem que o Carnaval não passe indiferente a Fão.
Já depois da nossa entrevista e antes da sua edição soubemos que a Aida, cumpriu a sua promessa este ano e logo no dia 30 apareceu mascarada a preceito na festa realizada no Pacha de Ofir.
Bem poderíamos dizer que em Fão não se vive o Carnaval sem a Aida e a Aida não vive sem o Carnaval. E que bom foi recordar com…outros bem divertidos.