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CARLOS RODRIGUES PALMA RIO

”Sinto-me ressuscitado para a vida depois de ter chegado a desejar a própria morte, quando a doença mais me afectou. Pelo carinho que as associações e as pessoas de Fão expressaram, estou a todos grato e faz-me sentir recompensado pela minha dedicação às instituições desta terra”.

Música e teatro…sedução desde pequeno

NF- Donde veio e como chegou até Fão ?

Carlos Pama Rio- ”Nasci e vivi até jovem em Lanheses, terra que sempre tive no coração e mantive contacto. Muito pequeno, ía com o meu pai assistir aos concertos das bandas de música e algumas peças de teatro e isso fascinava-me!
Andava eu na escola e já fazia as minhas próprias flautas de cana que tocava amiúde.
Quem me ajudou a tomar novos caminhos foi um amigo vendedor (Augusto Lima), que me falou num lugar para ajudante de farmácia em Guimarães, para onde fui tentar a sorte tinha eu 17 anos.
Aí estive cerca de 5 anos e o “bichinho” do associativismo e do teatro começou a germinar. Fiz parte do “Grupo de Teatro dos Caixeiros de Guimarães” e entrei nas marchas Gualterianas. Também consegui entrar para sócio da Biblioteca, onde podia dar azo ao meu gosto pela leitura e cheguei a ser sócio do Vitória de Guimarães, onde jogava o fangueiro Francisco Costa “Chico Glória”, que eu vi em campo várias vezes. Também cheguei a conhecê-lo fora dos campos. Tinha uma figura, postura e respeitabilidade, completamente diferente daquilo que as pessoas conheciam em Fão, onde se exibia de forma simples, popular e até às vezes desleixado, um folgazão! Na cidade de Guimarães era um grande profissional, muito evoluído e dotado no seu ramo de contabilidade. Era um verdadeiro artista, seus textos e documentos eram enriquecidos com gravuras e uma caligrafia admirável. O curioso disto é que estava longe de adivinhar que este homem que eu já admirava, era o pai da minha futura esposa, que nem sequer conhecia... ”



Foto:Grupo com “Chico Glória” e sua viola, podendo ver-se entre outros António Quintas, Isaltino Viana, Zé Maia, Manuel “Antero” Ferreira, José Manuel Evangelista, Alípio “Chiquita”, Belmiro Gonçalves “Careta”, Manuel Cardoso Reis “Neca Peralta”, António Herdeiro , Joaquim Campos e António "Pieira".

Em Fão para assentar arraiais

NF- Veio então para cá por volta de 1959…

Carlos P. Rio- ”Exactamente! Novamente o Augusto Lima, me falou do interesse da Farmácia de Fão, do sr.Celestino Pires, em contratar alguém. Eu ouvia falar como esta terra era calma, bonita e acolhedora e queria organizar a minha vida num meio menos agitado.
Em Fão depressa me familiarizei com as gentes de cá. A Farmácia naquele tempo situada na loja da antiga “Casa Solinho”, era um local de alguma cavaqueira, situada no centro e onde passava muita gente. À noite ia tomar café ou ver televisão à “Miquinhas” e ao “Café do Maia””. Passados 6 meses e já era convidado a fazer parte da direcção do Clube de Futebol de Fão. Pouco depois foi o Zé Maia que me convidou a participar no teatro de revistas.
No futebol entrei primeiro para a Assembleia Geral, mas depois fui Secretário de várias direcções. Pouco depois filiamos o clube, com inspiração no Belenenses. Claro que naquele tempo foi preciso organizar o clube administrativamente e dediquei-lhe muito, onde também cheguei a fazer de massagista. Ainda me lembro de mandar fazer a caixa de madeira para os primeiros socorros, que foi pintada pelo Quim Polícia”, antes de ir para Lisboa. Por falar nisso, nós também fazíamos de “polícias”, para tentar impedir que os jogadores andassem de noite até altas horas antes dos jogos. Uma vez lembro-me de só termos 8 jogadores para um jogo em Ponte de Lima e tivemos de “repescar” um ou dois que tinham feito a noitada de Senhor de Fão.
O Artur Sobral, que era um grande líder e entusiasta é que me arrastou e segurou alguns anos no futebol, até que saturei um pouco, porque estava a prejudicar a vida familiar. Quando se jogava fora, era ponto de passagem quase obrigatória, a “tasca” do Eduardo, que chegou a ser nosso treinador. Era uma festa, mas por vezes o autocarro ficava um excesso de tempo à espera que aparecessem alguns que se “perdiam”, isto quando ainda tinha de se levar jogadores para outras terras. Essa situação que se repetia, fez-nos tomar a atitude que vínhamos adiando (eu e minha esposa).



Na foto: Em jovem.

Apaixonado pela terra e por uma menina fangueira

NF- No futebol, no teatro… e no amor?

Carlos P. Rio- “Em Fão havia várias jovens interessantes e bonitas, mas eu desde que conheci a Felisbela Reis Costa, logo fiquei embeiçado .Ela era muito novinha, ainda uma menina e eu era uns anos mais velho, mas fiquei fascinado. Ela era filha do ”Chico Glória”, vivia com a madrinha, senhora Norberta e ele só vinha ao fim-de-semana de Guimarães. Ela por outro lado, começou a corresponder e não lhe faltavam pretextos para ir à Farmácia. Começamos a namorar timidamente, pois ela tinha medo do pai e um dia que a equipa de futebol, ainda não era filiada, foi fazer um jogo a Malta (V. Conde) eu convidei-a a ir connosco. O pai quando chegou de Guimarães e não a viu, ficou furioso. Então de castigo levou-a logo na segunda-feira, com ele para Guimarães. Foi terrível ! Eu escrevia-lhe com frequência, mas as cartas não lhe chegavam e eu sofri bastante com isso, pois foi um ano de afastamento. Lembro-me bem como desabafava com o José Gomes “Zé Faísca”, que era o contínuo do futebol. Então um dia…entrei no “Café do Maia” e ele chegou-se para mim e disse: -Já viste quem está ali ao canto? Até arrepiei e quando olhei vendo-a mais bonita e mulher, disse para mim, que jamais a largaria. E assim foi! O pai acabou por aceitar, mas infelizmente não pode assistir ao casamento, pois a doença traiu-o e levou-o muito jovem. Casamos em 1962, ela ainda era menor, por isso foi preciso uma autorização por escrito. A minha dedicação às associações por vezes foi um pouco penoso para ela, que foi sempre uma grande companheira e a minha musa inspiradora.”.


Foto:O casamento, com as pequenas Augusta Morais e Manuela Sacramento

Escrever um prazer que o levou ao jornalismo

NF- Inspiração para escrever e não só para o Teatro…

Carlos P. Rio- ”No teatro revisteiro com o Zé Maia, comecei a escrever para a Revista “Ofir, também é Fão”, nos anos 60 e depois foi mais uma série de espectáculos que se seguiram, depois escrevi algumas marchas e as poesias do “Testamento do Judas”. Mas também e já lá vão muitos anos, cheguei a escrever no jornal “A Voz do Minho”, um convite do proprietário da altura que era o Dr.Vale Lima, a conselho do Antonino Borda. Cheguei a ser director e editor do jornal e isso chegou-me a criar alguns dissabores, por ter sido apanhado numa “guerra” que não era minha e mais tarde tive de pedir a demissão.…
Em 2000, fiz parte da Comissão Promotora das Celebrações das Instituições Fangueiras, ajudando a conceber a edição de uma Colectânea de monografias e textos históricos sobre Fão, intitulada “Monumentos Históricos de Fão”. Escrever em prosa ou poesia, foi uma apetência que sempre esteve comigo desde muito jovem. ”


Trabalho em Esposende e entrada para os Bombeiros

NF- Que o levou a mudar para Esposende e o manteve tanto tempo nos Bombeiros?

Carlos P. Rio- “A minha mudança, após 9 anos a trabalhar em Fão, foi estritamente profissional, já a Farmácia Gomes deu-me melhores condições financeiras, mas a minha relação com os meus patrões de Fão e a sua família, sempre foi e ainda é muito boa. Em Esposende, também fui sempre muito acarinhado e estive lá 25 anos até me reformar, mas lá só ia mesmo trabalhar. Com aquela família, que também chegou a ter com eles anos antes, um irmão meu, tive igualmente uma excelente relação e particularmente com o Dr. João Paulo Gomes, um homem que também teve uma dedicação associativa, a quem Esposende ficou a dever muito e não teve um final como mereceria.
Para os Bombeiros entrei na primeira direcção em 1961, pela mão de Manuel Pinheiro Borda e com alguns interregnos participei em várias direcções sempre na função de Secretário, tendo passado nos últimos tempos para Vice-Presidente da Assembleia Geral. Deu-me algum gozo dar continuidade nos últimos anos ao bom trabalho do Prof.Joaquim Novais . É uma associação regida por grandes valores de ordem humana e isso sempre me motivou, passei naquela casa bons momentos, como quando conseguíamos novos carros e equipamentos e ainda as festas de aniversário e os desfiles… Mas também passámos momentos complicados, destacando o dia em que aconteceu o impensável incêndio no nosso Salão Nobre. Nunca me esquecerei eu e o Zé Artur abraçados, com as lágrimas a correr-nos pelo rosto, olhando para aquela tragédia. ”



Muita fé e amor pelo próximo associou-o à Igreja e aos dadores de Sangue

NF- Mas o associativismo não ficou por aí…

Carlos P. Rio- ”É verdade! Estive na Santa Casa da Misericódia, com o Padre Avelino Borda, tendo sido Vice-Provedor, continuei sempre como irmão e actualmente sou o Presidente da Assembleia Geral. Eu sempre me senti bem na igreja, pois como disse antes, sempre fui um homem de fé, embora nunca me considerasse um “beato”. Na minha família havia 4 padres e em pequeno vivia-se com a religião com algum fanatismo e ainda esteve nas minhas cogitações a ida para o seminário.
Com o Padre Manuel Gonçalves fiz parte da Comissão de Angariação de fundos para as obras da igreja. Mais tarde, entrei para o Grupo Coral, com o Padre Manuel Faria Borda, de que fui fazendo parte durante muitos anos. Fiz parte do grupo de sócios fundadores da 1.ª Associação de Pais do Ciclo Preparatório e mais recentemente da delegação de Esposende da Associação dos Dadores de Sangue, sendo Secretário das direcções. A Primeira Dádiva aconteceu através dos Rotários e a dinâmica tem sido muito boa, estabelecemos várias parcerias, geminações e nossa Associação tem conseguido uma número considerável de recolhas, que se organiza todos os meses nas diversas freguesias."


NF- E na política? Como foi “arrastado”? E tem alguma história especial?

Carlos P. Rio- ”Logo após a revolução fui “pescado” pelo Dr.Albino Campos, que me filiou no PPD em Maio de 1974.
Fui escolhido para encabeçar a lista para a Junta de Freguesia, que venceu as eleições em 1976. Assim estive como Presidente da Junta até 1978. Fiz parte da Comissão Concelhia, membro da ANAFRE e participei em alguns congressos nacionais, participei em todas as campanhas eleitorais e fiz parte das mesas de votos em várias eleições.
A nossa lista começou a desfazer-se em 1978 e cheguei a ficar com 2 elementos da oposição na Junta, mas digo-te, foi uma experiência muito boa e de perfeito entendimento.
Lembro-me de uma de uma história…quando o Silva de Rio Tinto me trouxe um areeiro para falar comigo. O homem queria tirar areias da zona junto às dunas do lado do rio e pensava que me conseguia “levar”, mas foi de “mãos a abanar” e ficaram muito zangados comigo."


As pessoas em Fão repetem-se muito

NF- Como vê a evolução da terra e suas instituições? E a nova Revista da GATA?

A nossa terra logicamente que progrediu, mas em relação a outras freguesias foi ultrapassada em dinâmica. Apesar do que foi feito nesta terra seria exigível muito mais, por exemplo o nosso turismo está sub aproveitado e mereceria outros “olhares” das entidades competentes. Depois a nossa proximidade com a sede, em nada nos favorece e tira-nos alguma capacidade reivindicativa e assim equipamentos como um posto de GNR e Escola Secundária, continuam a ser sonhos adiados.
Quanto às instituições, sinceramente acho que tiveram uma grande progressão e houve uma notável evolução intelectual. Mas as pessoas repetem-se muito nas instituições e isso se por um lado é um sinal de grande dedicação de alguns, também revela que cada vez são menos os que se voluntarizam a trabalhar pela terra. Muitas trabalham fora e tem pouca disponibilidade e outros fecham-se na sua vida pessoal.
Em relação à GATA e a nova Revista “Toma Lá Mais Esta”, a que assisti às duas sessões, foi um espectáculo que me emocionou, principalmente pelo saudosismo e homenagem feita. Fiquei muito satisfeito por este projecto ter sido levado avante, pois estava consciente das dificuldades e só tive pena não ter podido ajudar, devido á minha doença. Acho que a peça teve uma boa sequência e foi interessante de seguir. Penso que a GATA poderá ter algum sucesso, embora cada vez é mais difícil de se conseguir elenco e há poucos que se queiram envolver. Gostam de ver, mas não de participar activamente. Era preciso que as tradições não se perdessem, pois isso faz parte da nossa história e liga as gerações.”

Carlos Palma Rio, é o exemplo de um homem que tomou esta terra por adoptiva e é inquestionavelmente um dos seus filhos mais fiéis e nobres, com um trabalho despretensioso, leal e dedicado à frente das suas principais instituições, fazendo parte intrínseca da sua história. Por isso, não foi de admirar a grande onda de solidariedade de todos os fangueiros, que acompanharam, sofreram e rezaram pela sua cura, que parece ter sido outra grande vitória, muito graças à sua coragem, à sua fé e quem sabe uma recompensa divina...