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MARIA DE LURDES RAMOS FERREIRA

Olha, é a “Lurdinhas do Antero”! Foi assim que o público exclamou, quando viu uma menina, com apenas 5 anos a fazer de Nossa Senhora de Fátima, no palco da antiga fábrica de tintas na Pedra Alta, na que foi a sua estreia no teatro, no ano de 1929 .

Menina e moça entre os brinquedos e o palco…

NF- Como foi essa primeira experiência no teatro e fale-nos de mais algumas lembranças da infância…

Lurdes Ferreira- ”Eu era tinha apenas 5 anos e lembro-me que uma Companhia de Teatro de Lisboa, esteve cá em Fão na casa da “Toneca Turra”, que alugaram e era mesmo ao pé da nossa casa. Vieram para fazer uns espectáculos de Teatro, num salão da antiga fábrica de tintas, na Pedra Alta. Ora, na peça havia uma cena da Senhora de Fátima com os pastorinhos e eles precisavam de uma menina para o papel. Como eram meus vizinhos e me acharam bonitinha, vieram pedir à minha mãe (Maria Ramos) para me deixar entrar na peça. Não foi fácil de convencê-la, mas lá acedeu após alguma insistência e toda a família foi ver o espectáculo. Puseram-me em cima de um monte de pedregulhos com uma árvore ao pé a fazer de azinheira e eu aterrada com medo de cair, estava morta que aquilo acabasse. Quando o pano abriu as pessoas muito admiradas exclamaram bem alto: Olha, é a Lurdinhas do Antero!



Foto:Pais

Do céu caíram oferendas

"Em criança brincava ali perto de casa com as minhas amigas de idade como a ”Lúlú e Quinhas do Américo”, “Zairinha” Torres, Carmen e “Augustinha” Pires, Tina Mariz e Ilídia Mendanha, preferencialmente com umas loucinhas que uma prima de Lisboa havia dado e nem sempre a minha mãe deixava, com medo que as partisse. Um dia, deveria eu ter 7 ou 8 anos, estávamos a brincar no alpendre das traseiras da Pensão Peixoto, onde agora está o Museu, em que cada uma tentava contar uma história. Eu lembro-me que contei a história de dois gagos pobres, que se lastimavam pela fome e miséria, quando foram surpreendidos com comida e outros haveres que caíram do céu. Passado algum tempo, eis que um embrulho cai no meio de nós vindo do céu, olhámos para cima e não vimos ninguém. Abrimos o embrulho e lá dentro tinha um pedaço de marmelada, pouco depois caiu outro com pães e outro com queijo e ainda uns rebuçados. Ficamos espantadas e radiantes, pensando mesmo que aquilo era algo de sobrenatural ou milagre.
Quando contámos à minha mãe ela disse-nos, que aquilo foi Deus, por nos portarmos bem. Mais tarde ela soube que foi o sr.Nunes, casado com a D. Amélia do sr. Nogueira, que estava hospedado na Pensão e ouvindo a minha história, veio a correr do quarto dele, que ficava por cima do alpendre, ao rés-do-chão, pedir à Miquinhas, as coisas que nos atirou da sua janela”.



Na foto: em bébé.

Uma revista adiada…e na “Sem Fios” aos 9 anos.

NF- O Ernestino Sacramento, foi quem a levou para o teatro?
Lurdes Ferreira- “Tinha eu apenas 7 anos, era da mesma idade da filha e minha amiga Eulália (”Laínha”), tal como os nossos pais. Sei que as nossas mães se tratavam por comadres. Ele escreveu uma peça e nós íamos entrar as duas, mas não passou dos ensaios, porque a filha adoeceu subitamente e passados dias acabou por falecer, pelo que a revista foi adiada e ficou no tinteiro. Foi um duro golpe para a família que custou a sarar, mas ele não esmoreceu por completo. Essa peça era composta maioritariamente por crianças em que também entravam alguns rapazes entre os quais me lembro do Abel Torres, meu irmão Manuel e o Tininho, filho do Ernestino e que também lhe causou outra grande dor ao falecer ainda jovem.
Dois anos depois, em 1933, o Ernestino Sacramento, com a colaboração e apoio de homens como o Dr. Pimenta, Penetra, Abel Vinha, Dr.Alceu, Querubim Evangelista e Agonia, que com a revista pensavam angariar dinheiro para comprar um rádio para o Clube Fãozense, uma novidade na altura e que acabou por inspirar o nome ”Sem Fios”.
Na peça não entravam mulheres adultas, éramos todas meninas entre os 9 e os 13 anos e os homens que tinham os principais papéis eram o Agonia, Zé Maia, Guedes, “Neca d’Areia”, “Zé d’Água Doce”. Os “compères” eram o Ernestino e a ”Mei” (Mariazinha do Querubim).
Entrei num número onde se representavam os bairros da Areosa (cantado por mim), do Ramalhão (Cristina Carvalho “do Bom Homem”) e das Pedreiras (Virgínia Carvalho).
O Ernestino chamava-me de “Beatriz Costa”, por eu ser miudinha, cara redonda e usar marrafa. O Dr. Alceu e o irmão Abel é que nos pintavam. No número final as meninas, com uns cestinhos cheios de rebuçados dos Arcos, que tinham embrulhado um papel com o refrão, ofereciam ao público, para que todos o cantassem.
Foi um entusiasmo enorme! A revista foi repetida semanas seguidas com o antigo Salão Paroquial, sempre cheio de fangueiros e gente que vinha da Póvoa, Barcelos, Esposende e das freguesias vizinhas. O povo atirava-nos rebuçados para o palco, manifestando o seu agrado. Os ensaios eram quase todos os dias e era a animação das nossas famílias que nos acompanhavam e viviam cada sessão, no maior silêncio e respeito. Depois ,logo a seguir, veio a revista ”Prá Frente”, que foi outro grande sucesso.
A orquestra era fantástica! Com o Carlos Turra ao piano, o violino do Martins das Pedreiras, o Penetra à viola, entre outros. Naquele tempo havia muito de improviso e até a maior parte das roupas eram feitas por algumas senhoras de Fão, como a esposa e filhas do Querubim, mas também se alugavam roupas no Porto, onde o Ernestino ia com o mesmo Querubim, o Agonia, Penetra e Abel Vinha, assistir a espectáculos para “aprenderem” e tirarem ideias.
Ainda jovem entrei nos teatros do Prior Nogueira, mas depois daquela experiência não lhes achava grande piada.

”.


Foto: Jovem e bela

“Recordar é Viver” e “Toma Lá Mais Esta”

NF- Como foi o reaparecimento em 82 e que acha desta última revista?

Lurdes Ferreira- ”O Recordar é Viver, foi uma coisa inesquecível! Bonito, entusiasmante e comovente. Nós “veteranas”, que até recebemos umas medalhas como forma de homenagem, a cantarmos outra vez juntas…E aquele número final com aquelas 3 meninas, foi mesmo maravilhoso, num espectáculo que acabou perto das 2 horas da manhã, com um público deliciado e carinhoso .
Acerca da nova revista do Armano Barbosa, à qual não podia faltar, acho que foi um belo esforço, face às dificuldades actuais e ao alheamento da nossa juventude. Havia uns números com muita piada e bem escritos. Gostei muito da Célia Lopes, a pequena tem mesmo jeito para aquilo e muito à vontade em palco. Era bom que se reacendesse a “chama”…”


Professora primária e esposa de marinheiro

NF- Fora das cantigas como foi a vida familiar e profissional?

Lurdes Ferreira- “Comecei a namorar aos 18 anos com o professor Pedras, que na altura estava na tropa. Eu era amiga da mulher do Chico Mariz, que andava na tropa com ele e isso aproximou-nos. Nessa altura deram-me a missão ingrata de informar da morte do namorado da Aidinha Reis. Mas a coisa não foi para durar e acabei por casar com um militar de carreira.
Eu, com 24 anos, comecei a dar aulas na Escola Primária de Criaz e fomos convidados para a inauguração da Estação Rádio Naval de Apúlia. Havia muitos convidados entre os quais o Ministro do Mar. O meu futuro marido José Fernandes da Silva Guimarães, deve-me ter visto na festa e mais tarde tentou encontar-me em vão. Um dia perto do Natal, em que as escolas de Apúlia se juntavam, eu ia lá ter de bicicleta e apareceu-me à minha frente um militar fardado de marinheiro que me mandou parar, para alguma surpresa minha. Então lá contou os desencontros e logo se declarou, pedindo-me em namoro.

Casámos a 19 de Março de 1951, dia de S. José e do Pai e passamos a viver na Estação Naval, onde sempre ficou, recusando qualquer deslocação, mesmo com promoção, para ficar perto de mim e de Fão, por quem sempre esteve apaixonado. Minha filha Hercília, foi a primeira criança a nascer na Estação e minha mãe que também viveu connosco morreu lá.
Eu ainda dei aulas em Barqueiros, Rio Tinto, Ribeirão e quando fui colocada em Fonte Boa e mais tarde em São Paio de Antas, viemos morar para Fão, nos anos 60.”



NF- Quais os melhores momentos da sua vida? E como vê o Fão de hoje?
Lurdes Ferreira- ”O melhor que eu tive foi a grande companhia do meu marido, que também foi um bom pai e bom genro. Éramos uma pequena família, mas muito feliz e unida. Fazíamos belos serões, os três a cantar e a ler poesia, que cada um fazia, principalmente ele, que tinha mais jeito para isso e gravava tudo. Tornou-se um grande fangueiro e gostava muito de participar nas festas fangueiras e adorava acompanhar as serenatas.
Momento que me marcou bastante, foi a inauguração da escola de Criaz, com muitas entidades convidadas e em que eu tive de ensaiar aos alunos algumas cantigas.
Mais tarde, foi a licenciatura da milha filha, em que fizemos uma grande e bonita festa na nossa casa. Convidamos o Néné, o Mário, o Marcos e a Maria, que muito animaram a festa.
O sucesso dela, como médica de prestígio internacional, é uma grande satisfação , que me faz sentir muito realizada e feliz, apesar disso nos manter muito tempo afastadas devido aos seus compromissos.
Só tive pena do meu marido já não assistir ao seu doutoramento em França, onde ela e o marido (Jorge Areias) estiveram durante um ano, com o mesmo fim, pois ele também é um médico muito conceituado. Nessa altura fiquei com as minhas netas, o que me deu muito prazer, mas muitas canseiras e preocupações, pois elas ainda andavam na escola e já tinham aulas de ballet no Porto, para onde tinha de as levar e trazer de táxi todos os dias. Mas com estes resultados, tudo é muito compensador e gratificante.
Quanto ao nosso Fão, que eu adoro, gostava mais de antigamente, em que havia mais união e amizade das famílias e dos vizinhos. Agora as pessoas fecham-se em casa, vivem cada vez mais individualmente, quando antes se juntavam, conviviam, brincavam a até trabalhavam com outra alegria. A vida é diferente, é cada vez menos comunitária. O nosso centro está parado no tempo, as lojas a fecharem e as famílias são muito pequenas. Devia todo ele ser renovado, obrigando-se a reconstruir as casas que estão em ruínas.
A Pousada da Juventude foi uma obra interessante, para chamar mais gente. A meu ver a sede da Junta deveria ter ficado no centro e o edifício do museu era uma boa opção. O Salão Paroquial foi uma obra mal feita e muito dispendiosa. Era preferível ter-se recuperado o antigo. Este, para espectáculos, leva menos gente e está mal adaptado. Outros sítios estão bem melhores e as Pedreiras evoluiu bastante com o bairro do Caldeirão."


D.Lurdes, uma senhora de boa memória, que parece não acusar a idade, aparentando uma frescura, alegria, dinamismo e autonomia invejáveis, com quem é um grande prazer conversar, trocar opiniões e recordar com…