D. ISOLINA LOPES FONSECA
Quantos de nós têm bem vivo na memória os tempos na escola Amorim Campos, do Professor Pio, da Prof. D. Ida Eiras e a impagável funcionária e amiga D. Isolina, nossa entrevistada neste número.
Nascida em plena 1ª Guerra Mundial (1915), Isolina Lopes Fonseca, está intrinsecamente ligada à meninice de muitos de nós. De pequena estatura, sempre muito activa e multifacetada, era muito admirada pelo Professor José Pio Rodrigues, que devido à sua inteligência, bela caligrafia e boa leitura, lhe chegou a dizer, que lastimava, que não pudesse ter continuado os estudos, e muitas vezes lhe pedia para preencher vários documentos, editais e outros impressos.
Como aluna, foi das mais expeditas e também a sua professora Maria Vieira, de Esposende, lhe pedia muitas vezes para ler em voz alto para o resto da turma, pela sua boa dicção.
Terminou a 4ª classe em 1927, com a classificação de Bom (dezasseis valores), mas pelas dificuldades da época, teve de ir trabalhar pouco depois e com apenas 12 anos, para servir em casa do Engº Machado Vaz, no Porto, onde esteve até aos 30 anos, para vir cuidar da sua adoentada mãe.
Do seu tempo de escola, recorda a sua companheira de carteira e melhor amiga, durante muitos anos, a Zairinha Pereira “Secura” e das professoras de então que vinham de Esposende, D. Palmira, D. Helena e Maria Vieira. Lembra como ela e outras meninas iam esperar a professora à entrada da ponte, que vinha no carro de cavalos do “Louceiro”, que elas acompanhavam a correr até à escola. Também em menina se recorda de ir levar a comida à D. Zulmira Borda a Esposende, onde dava aulas e das companheiras Antonieta Cardoso e Mimi Glória, que levavam o almoço ao irmão Arlindo e tio Tininho Glória, respectivamente, que trabalhavam também na vila vizinha.
Como ouvíramos falar de um costume muito antigo, o cantar das “Calhandras”, questionámos a nossa entrevistada, que diz lembrar-se que eram habituais na altura da Páscoa e que era protagonizada por pobres, como forma de peditório, numa época de consciencialização religiosa. Na época, era comemorada a Semana Santa e havia nichos, que tinham alguma imagem religiosa ou passagens da Via Sacra, que eram decoradas e eram pontos de referência, por onde passava a Procissão. Como funcionária da escola, recorda as vezes que ia buscar a casa, ou à rua quando fugiam, os alunos mais faltosos, para evitar a chamada das autoridades e que apesar de alguns muito insubordinados, todos a respeitavam e acompanhavam.
Quando voltou do Porto, começou a namoriscar o Belmiro Gonçalves “Careta”, que não era bem aceite pela mãe e restante família, por ser gente pouco afecta à igreja, e “a minha mãezinha era muito devota”, disse. Apesar das contrariedades lá casou com o Belmiro, já trintões, e ao lado do emblemático Chefe de Bombeiros, viveu e alcançou seu filho único (o Eurico), com a bonita idade de 49 anos. “El Miro”, como era conhecido por muitos amigos, pela sua grande paixão pela tauromaquia, tinha ido naquele domingo, 23 de Julho de 1961, à Póvoa com o famoso toureiro Manuel dos Santos, de quem era amigo desde os tempos de militar em Santarém. Por isso, ficava nas “trincheiras” da praça de touro, para viver mais de perto as “lides”. Ora Shegundo Galarza, que era veraneante, alojado em casa do “Minguinhos”, ia assistir a essa Corrida de Touros e como também era amigo do Miro, já sabia do nascimento o filho. No preciso momento que consegue chamar a sua atenção, para lhe dar a boa nova, o touro saltara a trincheira e o Miro de costas, não vê a fera, que o colhe e lhe parte algumas costelas, que o levaram para o Hospital da Póvoa. Deste episódio nasceu a célebre caricatura do dr. Alceu Vinhas.
Do marido, as histórias são muitas e isso, será bom tema para futura reportagem. Apenas nos reportou um Diploma de Honra, que ele recebeu com a respectiva medalha, pelo salvamento de duas jovens, que se afogavam no rio, junto ao Cais. Achava-o capaz de superar qualquer risco.
Apesar de não nos vermos há algumas dezenas de anos, a D. Isolina reconheceu-me perfeitamente. Mostrou, apesar de presa ao leito, um grande apego à vida, à sua religiosidade, muito saudosa da Igreja, onde sempre se sentiu muito bem e teve peloPrior Nogueira, que a casou, uma grande admiração e devoção.
A D.Isolina é uma figura que mexe com o nosso coração e transportou-nos à nossa meninice. Agradecemos-lhe pelo que nos transmitiu e também a seu filho Eurico, que muito ajudou à comunicação e ao reforço de alguns cenários.