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JOÃO SILVA

O João “Condesso”, como é conhecido por todos em Fão, é um homem simples, humilde e há anos um pouco limitado pela saúde, mas que foi grande como jogador da primeira equipa do CF Fão e como chefe de uma numerosa família, sendo uma figura muito respeitada e acarinhada.

Um apelido que vem de longe…

NF- De que se lembra dos seus progenitores e como apareceu esse apelido "Condesso"…
João Silva- ”Sei que a minha avó já era conhecida por “Maria Condesso”, que vivia na zona da Igreja Matriz. Meu pai, João Silva, também foi sempre conhecido por ”João Condesso”, como eu. Trabalhava na construção civil, mas a sua especialidade era estucador e conhecido pelos trabalhos em gesso, que antigamente faziam principalmente nos tectos. Não lhe faltava trabalho no seu tempo, mas uma trombose aos 38 anos colocou-o na miséria e acabou à esmola, falecendo aos 50 anos, deixando a minha mãe Maria dos Anjos Silva viúva. Ela era Silva pelo pai e por isso eu só tenho um apelido por serem iguais do pai e da mãe (ambos Silva).”


Foto:Pai

Fugas da escola

NF
- E dos tempos da infância algumas recordações?
João Silva- “Eu morava no “Alto da Pínsula” e ali brincávamos jogando à bola, ao peão, à “Viana”, como a maioria dos miúdos daquele tempo, mas não havia maldades nem zangas, apesar das carências éramos felizes à nossa maneira.. .
Na escola andei só até à 3.ª classe, pois fugia constantemente e o meu pai obrigou-me a escolher ou ir à escola ou então trabalhar. A minha professora era a D. Ida Eiras, que era uma boa professora, mas quando se enervava era um terror com as vergastas que trazia lá da quinta da Barca do Lago. Já adulto é que fiz a 4.ª classe, para poder jogar futebol federado. Então preferi ir trabalhar e com 10 anos comecei como empregado do António Sá Pereira, com quem o meu pai sempre trabalhou”.


Na foto: Mãe, Maria dos Anjos.

Futebol, a grande paixão

NF
- Quando jovem procurava algum divertimento?
João Silva- ”Futebol, futebol e futebol…
Eu já em pequeno adorava ver os mais velhos jogarem no antigo “Campo do “Tobias”, nos anos 30. Desse tempo só há um jogador vivo que é o Chico Mariz, que tem 92 anos. Outros que lembro jogarem lá…o Amândio e o Luís “Padeiro” e o ”Flato”, bons jogadores! Dos directores do chamado Fão Football Club lembro-me do Dr. Júlio Pimenta e do Rufino Barreiro.
Eu comecei a jogar nas “Rodas” e na “Junqueira” com 16 anos e não mais parei. Chegava a vir a pé de trabalhar em Vila Seca e ir a correr para jogar. Depois com o Fão Praia, começamos a fazer muitos jogos, nessa altura o António Torres era um dos principais directores e o Eng.º Sousa Martins um grande apoio, ele mandou fazer umas chuteiras com travessas, para mim e para o Quintino Pedrosa. O primeiro treinador foi o Carlos Barra Reis e o contínuo era o pai do Zé Faísca”.

Foto: num jogo na Junqueira em 1956.

Em 1959, quando nos filiamos, era presidente o Joaquim “Miguel”, tivemos de ir ao centro de medicina (quem nos levou foi o Zé Pequeno”) e eu apesar de fraca estatura e pouco peso, passei logo à primeira, enquanto muitos colegas reprovaram por sofrerem de várias mazelas.
Na inauguração do Campo Artur Sobral, há 50 anos, estava lá Fão em peso, mais gente do que do novo estádio, pois naquele tempo não havia tantas diversões como agora, o futebol era um grande acontecimento. Ainda me lembro que nós jogadores tínhamos de encher o depósito de água fria, para depois tomarmos banho.
De resto eu não saía para mais nada e depois comecei a namorar muito novo para a Emília Araújo Oliveira, ela com 14 e eu com 18 anos. ”


Só emigrei quando passei a suplente

NF- E a vida familiar foi afectada pela bola?
João Silva- “De certa maneira sim. Quando as obras diminuíram e enquanto muitos emigravam para melhorar a vida, eu evitei de o fazer por causa do futebol e só o fiz quando passei a ser suplente. Felizmente nunca me magoei seriamente a jogar. Era um jogador que não me agarrava muito á bola, gostava de a passar rapidamente e evitava o choque. Só me lembro de uma vez que o Eng.º Sousa Martins me veio buscar para jogar com o Apúlia, eu por uma cabeçada mal dada fiquei com o sobrolho inchado.
Bem, bem, apareceste mais algumas vezes com mazelas nas pernas, tu é que nem te lembras…”
Retorquiu a esposa Emília ali ao lado, que apesar de gostar de o ver jogar, tinha muitos filhos pequenos e ou ficava com eles ou então ia para as tomadias à lenha ou à faúlha, ficando os mais velhos a tomar conta dos pequenos.
“Olha! Vês esta medalha? Foi quando fizeram um jogo de Velhas Guardas em 2002 e eu ainda joguei, com 75 anos! Mais ninguém conseguiu vestir a camisola do Fão com tanta idade!”
”.

Foto: Na equipa do Fão Praia (primeiro em baixo à esquerda), em 1957

Emigração fracassada, um rancho de filhos… Esquecidos e os bons vizinhos

NF- Sustentar uma família tão numerosa não foi nada fácil, não?

João Silva- ”Quando casamos, em 1949, eu tinha 21 anos e ela 17, trabalhava eu ainda para o Sá Pereira. A miséria era tanta, que no nosso casamento não tínhamos alianças, nem convidados, apenas estiveram presentes o meu sogro e o meu cunhado Manuel e nesse dia 16 de Junho, que era feriado de Corpo de Deus, ainda fui jogar futebol e a esse jogo a minha Emília foi assistir.”
Emília- ”O senhor Prior Nogueira, bem olhava para os nossos dedos, mas ele sabia que não tínhamos dinheiro, até o véu que levei pela cabeça foi emprestado.”
João Silva- “Estávamos casados há 8 dias e fomos trabalhar para Guimarães, onde estivemos vários dias seguidos sem vir a casa, então eu e o Adriano decidimos voltar a Fão a pé. Depois ela não quis que eu fosse mais trabalhar para o António Sá Pereira. Ela ainda trabalhou nas obras do Hotel Ofir, que eram dirigidas pelo Eng.º Pinto de Sá. Andei com ela à lenha, pinhas e faúlha, mas eu não sabia trepar às árvores e numa das primeiras vezes caí, arranhei-me todo e dei cabo das minhas calças. Os 30 escudos que consegui, não chegou para as calças novas que custaram 40.
Então lá decidi ir para França, em 1962, onde estive 9 anos, quando já tínhamos 9 dos 13 filhos. Mas também não fui muito feliz com o patrão que tive e me ficou a dever alguns meses, que naquele tempo era muito dinheiro. Voltei em 1971, com apenas 100 escudos no bolso. Tinha então 44 anos e decidi trabalhar por conta própria na construção. Como não tínhamos casa fomos vivendo alternadamente em casa dos meus pais e meus sogros. Entretanto começara aos poucos a construir a nossa casa, mas quando ela ainda estava só em tijolo, sem portas e sem janelas, puseram-nos fora.
Viemos para a nossa casa, com as crianças sem mobilias e poucas roupas. Valeram-nos uns vizinhos muito bondosos que tiveram pena de nós. Então a Alfíria Gomes Araújo “Fira Boiças”, foi um autêntico anjo! Ela, o pai Feliz “Selemites”, a Antónia “Esconça” e o marido António “Sorriso”, ajudaram-nos muito. Trouxeram-nos lenha para nos aquecer, umas tábuas para tapar as portas e as janelas. Aquela mulher tinha todo o seu tamanho em bondade! (a Emília referindo-se à “Fira” e acrescentando que aquele fora o dia mais feliz da sua vida, pois no meio daquela pobreza viu a família junta na sua própria casa e sentiu o calor da amizade).
A Esconça”, trabalhava num campo em Apúlia e trazia-nos sempre comida. Gente muito boa! Sempre tivemos bons vizinhos e felizmente ainda temos. Por outro lado as instituições nunca se lembraram de nós. Vimos e vemos gente jovem e até com alguns luxos a receber ajudas, enquanto a nossa casa sempre foi esquecida, mesmo nos tempos mais difíceis, em que havia as conferências e outras causas, até ligadas à igreja que davam roupas e alimentos, mas nunca pararam à nossa porta…Agora até vemos pessoas com carro à porta a receberem ajuda da segurança social, e alguns ainda se queixam. É que repare, se no passado era ter tantas crianças para alimentar, depois foi ter ficado praticamente incapacitado, quando me meu uma trombose aos 58 anos, perdi a visão, que só recuperei lenta e parcialmente, que nos tornou sempre necessitados.”



Se o corpo deixasse corria Fão inteiro todos os dias

NF
- Que mais lhe deixa saudades e que mais aprecia no Fão de hoje

João Silva- “O que me dá mais saudade é o tempo em que jogava futebol!
A terra evoluiu, muito principalmente a partir dos anos 50 quando começou a construção em Ofir, os hotéis (lembro-me bem quando o povo foi ver a inauguração da primeira casa, “a Conchinha”, com archotes na mão, pois não havia iluminação) e mais tardes as fábricas de têxteis, que veio dar muito emprego.
Para mim e como não podia deixar de ser, o novo Estádio foi a obra mais importante, é uma coisa magnífica!
Gosto muito de Fão e de todos os seus cantinhos, mas onde passo mais tempo é no Cortinhal, Bom Jesus e também a zona dos Bombeiros, pois a saúde não dá para muito mais, senão correria a vila toda, mas já não consigo andar muito.”

Foto: Cavaquinho do filho Paulo oferecido por um amigo

Os dois sentados, um tanto comovidos pelas recordações que entretanto foram vindo à baila, João (80 anos) e Emília (76) olhavam-se ternamente e entre si comentavam a força que Deus lhes deu para e sempre unidos passarem as várias dificuldades da vida. A meu pedido iam enumerando a longa lista de filhos…João, Joaquim, Paulo, Fátima, Vítor, Emília, Valentim, José, Luísa, Lurdes, Luís, Carlos Alberto, todos vivos à excepção de um que com apenas ano e meio morreu escaldado, com a água a ferver de uma panela que entornou na lareira da casa. Nas paredes algumas recordações, preferencialmente do futebol…e uma viola e um cavaquinho do filho Paulo, agora emigrado que tinha alguma apetência para a música. Um casal que fez da união a força e da força a união de um lar que passou por muitas carências, sofrendo muitas vezes em silêncio, por vezes no limiar da pobreza e alertar para a sociedade e as instituições que não tem olhos e ouvidos para quem não se queixa e não pede. Os pobres e humildes são os mais esquecidos, isso é uma constatação, infelizmente.