BERTA PINTO DE CAMPOS
A Prof.ª Berta, descendente de uma das famílias mais ilustres de Fão, com a sua simpatia e grande humildade falou-nos timidamente, sobre algumas passagens e características da vida de outros tempos .
Descendente de mareantes e nascida no seio da fidalguia.
NF- Que sabe de seus antepassados mais próximos e que se lembra da sua infância?
Prof.ª Berta- ”Meu bisavô e meu avô José Pinto de Campos, eram homens do mar e foram comandantes da marinha, mas meu pai apesar de gostar de barcos, tentou a sorte no Brasil e por sinal com sucesso.
Regressou em 1908, para ver os pais e decidiu construir esta casa no Cortinhal nesse mesmo ano.
Casou pouco depois com Elvira Campos (minha mãe) e tiveram 10 filhos, dos quais 3 morreram em pequeninos e eu fui a última a nascer. O meu pai Joaquim Pinto de Campos, envolveu-se em várias actividades da terra, mas o seu grande empenhamento, para o que contou também com a ajuda de minha mãe e outras senhoras da época, foi a fundação dos Bombeiros em 1925.
De pequena, lembro-me de brincar com as minhas irmãs em casa, pois pouco saíamos, como era apanágio em famílias como a nossa, que felizmente tínhamos boas condições de vida com empregadas para tomar conta de nós, irmãs mais velhas para nos ensinar a ler e escrever e amplo espaço para as nossas brincadeiras de meninas. Quando meu pai faleceu eu era ainda muito pequenina (4 anos), mas lembro-me bem dele e do dia do casamento da minha irmã Noemi com o Dr. Júlio Pimenta, em que eu com apenas 3 anos levei as alianças. Fizeram uma rendinha cor-de-rosa, à volta da salva em que as transportei para não as deixar cair.
Como éramos ensinadas em casa, apenas fui para a escola para fazer o exame do 1.º grau (3ª classe), estava cá a Professora Lodovilde, que entretanto se foi embora. A partir da 4.ª classe fui para o Colégio de Nossa Senhora da Esperança no Porto, na zona de São Lázaro. Depois só vinha a casa na alturas das férias.
.”
Na foto: Pais Joaquim e Elvira e ainda os irmãos Joaquim, Paulino, Raquel, Noemi, Olga e Judite, sendo Berta a mais pequenina.
Os passeios de barco à Barca do Lago
NF- A vida então era muito circunscrita à residência, mas devia haver momentos especiais, não?
Prof.ª Berta- ”Era uma vida muito recatada, eu costumava ir às vezes a casa dos meus padrinhos aqui ao lado, que eram os pais do Dr. Franklim Nunes
Aqui nesta sala,a minha mãe passava as tarde muitas vezes acompanhada pela sua parente Ilídia Mendanha e costuravam ou bordavam durante horas. A Ilídia, mãe da Adelaide Mendanha, uma excelente costureira, era quem fazia as nossas roupas.
No natal a azáfama era grande e as minhas irmãs pegavam nas nossas roupas mais usadas e refaziam-nas, davam-lhes a volta, colocavam-lhe mais um ou outro adereço e tinham “roupas novas” para dar aos mais carenciados. Na nossa casa vivia-se com muita ansiedade essa altura. A minha irmã Olga, fazia parte da Conferência de São Vicente para ajuda aos pobres e todas queríamos ajudar, sendo o nosso cunhado Júlio, dos mais entusiastas. O Doutor era um homem muito bom, para além de não levar dinheiro a grande parte dos doentes, também adorava esmolar.
Outro acontecimento, que nós vivíamos intensamente e com muita antecedência, eram os passeios de barco, em especial a tradicional ida à Barca do Lago. Meu pai tinha um barco de razoáveis dimensões e nele ia toda a família, mesmo os mais pequenos e várias empregadas nos vigiavam e tratavam do farnel. O meu cunhado Júlio Pimenta também tinha o seu barco e às vezes iam os 2 bem carregados, só da família éramos mais de vinte.”
A festa do 1º de Dezembro e as récitas no verão
NF- E outras recordações ?
Prof.ª Berta- “Olha lembro-me bem da inauguração da cantina escolar, que foi um grande acontecimento para a comunidade escolar, que teve durante anos a Festa do 1º de Dezembro, como uma grande referência.
Foi pena ter acabado esta festa, que envolvia e dinamizava toda a gente. Era um dia muito bonito, com as crianças empenhadas nas suas cantigas e felizes com os prémios que destacavam os melhores.
A nossa família era muito chegada à igreja e a minha mãe uma senhora muito devota, por isso muito novos participávamos nas principais actividades religiosas. Frequentávamos a catequese e algumas de nós ensinamos a doutrina aos pequenos, no tempo do Prior Nogueira, que foi um pároco muito preocupado com a educação dos mais novos.
Pelo verão também assistíamos às récitas dos banhistas, que eram uma espécie de teatro de revista, organizado pela senhoras Mouras, que eram umas mulheres fantásticas. Elas dinamizavam e organizavam uma série de actividades muito engraçadas, associando um grande grupo de pessoas que vinham cá passar as suas férias.”.
Ensinar é cada vez mais difícil
NF- Onde começou a dar aulas e que comparações faria entre “ontem e hoje” no ensino
Prof.ª Berta- "Fui dar aulas pela primeira vez em Constance, uma freguesia de Marco de Canavezes. Depois vim para mais perto e andei por Apúlia, Vila Cova e Criaz, onde estive muitos anos. Mais tarde fui colocada em Fão, onde leccionei até à minha reforma.
Ah! Os tempos mudaram muito! Os pequenos eram muito mais humildes e educados. Agora parece que os valores sociais foram postos de lado, os miúdos não levam o ensino a sério e não respeitam ninguém. Penso que a comunicação social tem muita influência nisso, pois entra pelas casas dentro com maus exemplos e violência. Os educadores tem a vida muito dificultada, tal é o desinteresse e falta de respeito.
”.”
Sobre a nossa vila, a Prof. Berta Campos, considerou que sente alguma estagnação, que a seu ver tem muito a ver com a situação económica pouco favorável.
Também ela sente que o nosso centro está algo “envelhecido”, devido a muitas casa abandonadas e em ruínas, mas compreende que é difícil para muitas pessoas conseguirem dinheiro para a manutenção, quanto mais para obras das casas. E, realmente quem tem casas como a sua com tantos anos e aquelas dimensões, mais complicada se torna essa missão. E assim a deixamos, no cimo daquela escadaria de pedra de um das casas mais belas e com mais história de Fão, com aquele seu sorriso simples, o vento afagando suavemente o seu cabelo e o olhar contemplativo como que visualizando outros tempos, outras pessoas e outros momentos, que “forçamos” a Recordar…