QUINTINO PEDROSA VIANA
Nascido em 1925, no seio de numerosa família, da Cordoaria de seu pai nas Rodas, partiu para o Brasil há mais de 50 anos, onde “assentou arraiais” e depois da viuvez foi regressando com alguma periodicidade à terra natal e quis o destino que aqui ficasse para sempre, falecendo surpreendentemente poucos dias depois da nossa conversa.
De menino a dar à roda com o pai
NF- Como foram os seus tempos de infância?
Quintino Viana- ”Comecei muito pequeno a “dar à roda”, na cordoaria do meu pai António Santos Viana “David” e na escola andei até à 3ª. classe, com outros colegas com quem também brincava, lembro-me pelo menos do Armando Gajeiro e do ”Tino Pujerica”.
No tempo de escola alternava dia sim, dia não, nas rodas com o meu irmão Inácio. Na cordoaria com meu pai trabalhavamos de sol-a-sol e por exemplo, no verão só regressávamos a casa quando passava a camioneta de Viana para o Porto, às 9 horas da noite.
Apesar de sermos muitos lá em casa, 11 irmãos (António, Maria, Ana, Joaquim, Orlando, Rosa, Inácio, Isaltino, Quintino, Albino e Jesus) e os meus pais, nunca passamos fome, pois havia muito trabalho. “
Entre as cordas e o futebol
NF- Fale-nos da Cordoaria e da sua juventude
Quintino- ”As cordas era um trabalho duro e a rentabilidade pequena, mas dava para sustentar a família. O meu pai fornecia corda para várias cidades e ia entregar as encomendas de 15 em 15 dias. Ia no tejadilho do autocarro de passageiros do Aurélio das Marinhas, que mais tarde vendeu à Linhares da Póvoa. Eu trabalhei nas rodas, desde a infância até aos 25 anos, embora também lá trabalhassem outros. Um que me lembro bem foi o Fernando Reis “Paralta”.
Em jovem fui praticamente apaixonado pelo futebol, tendo jogado no Clube dos Grulhas, num tempo em que fazíamos os nossos jogos na Junqueira, nas Rodas e no “Campo dos Solas”. No Clube dos Grulhas, cujo presidente era o Dr.Alceu Vinha, também se organizavam os bailes, tal como nos Bombeiros, que era um ponto de encontro e diversão dos jovens.
Comigo na época jogavam outros como o Chico e Né Glória, Zeca Barqueira, Quim Chiquita, Berto Furtado, entre outros…ah! E o meu irmão Orlando, que era um grande jogador e foi atleta do Esposende, actuando como médio.
O Engº. Sousa Martins, com quem tive uma excelente relação de amizade, foi quem nos ofereceu as balizas para o campo da Junqueira. Também foi ele que me mandou fazer umas chuteiras no ”Miro Careta”.
O “Tino Glória”, que também era da nossa direcção e chefe de finanças em Barcelos, pela influência que tinha com os directores do Gil Vicente, levou alguns de nós a ir lá treinar. Eu não fiquei, mas o “Zeca Barqueira” e o ”Quim Chiquita” ainda jogaram lá bastante tempo.
Dos jogos desse tempo, lembro-me de uma deslocação às Neves, onde o Esposende havia jogado uma semana antes e acabou em grande pancadaria. Claro, que alguns de nós estávamos cheios de medo, mas o jogo correu lindamente e fomos muito bem recebidos e no final fomos contemplado com um lanche num alegre convívio em casa do Alferes Pinto Ribeiro. ”
Casamento e partida para o Brasil
NF- Que mais se lembra de Fão antes da partida para o Brasil?
Quintino-“Lembro-me bem da construção do Restaurante de Ofir, pois dava-me muito bem com o Engº Sousa Martins e ele vinha-me buscar muitas vezes para ver as obras e ir com ele de carro, nas suas diligências. Foi um grande homem e muito importante para o crescimento de Fão.
Bem, depois conheci a Carolina Sousa Didier, prima da ”Zairinha” e começamos a namorar. Como que a justificar as palavras do meu pai (“Pedrosa é como a mosca, onde pára fica”), acabei por casar com ela em 1946. Ainda em Fão tivemos nossas 3 filhas (Rosário, Manuela e Rosete), que nos deram 6 netos.
Parti sozinho em 1950, embora mais 3 irmãos também tenham emigrado para aquele país. Comecei como carpinteiro sem qualquer experiência e estive nesse emprego durante um ano.”.
Sogra ainda viva com 104 anos de idade
NF- Quando foi a família e como foi a vida no Brasil?
Quintino- ”Eu queria muito a minha família perto, mas tinha que criar as melhores condições para os receber e apesar de sofrer muito de saudades, aguentei 8 anos sozinho.
Mais tarde fui trabalhar para a Companhia de Transporte e Abastecimento de Água, onde meu irmão Joaquim, já era chefe, dirigindo as embarcações na baía de Guanabara, onde abastecia as ilhas e os navios de passagem. Depois fiz o exame de Arrais na marinha de guerra, para poder também dirigir as embarcações e como tinha homens sob o meu comando tive de me naturalizar brasileiro.
Nesses 8 anos vivia sozinho e encontrava-me com os meus irmãos e outros familiares ao fim-de-semana, mas muitas vezes aproveitava para fazer horas extraordinárias. Como gostava de futebol cheguei a ir algumas vezes ao Maracaña, ver jogos do Vasco da Gama, de quem eu era adepto, aliás como a maioria dos portugueses no Rio, onde sempre vivi. Aí encontrei alguns fangueiros como o Francisco , o Armando Gajeiro e o Neca “Pejirica”, de quem ainda sou vizinho.
Em 1958, mandei finalmente vir minha mulher, filhas e sogra para a minha beira. Minha sogra D. Rosário Vila Chã, já era viúva do António Tróia, portanto cunhada da Miquinhas Turra e tal como ela atingiu uma idade invejável. Tem actualmente 104 anos de idade e lembra-se de muitas histórias e memórias de Fão. Tem muitas saudades da terra, mas agora já não tem condições de saúde para a viagem.
Trabalhei na “CUATA” até me reformar, onde entrei como vigilante e acabado como Chefe Geral de Distribuição, por isso consegui uma boa estabilidade financeira e nada faltasse aos meus.
”.”
As viagens de regresso
NF- Quando começaram as viagens de regresso e como vê Fão após tantos anos volvidos
Quintino- ”Só comecei a vir depois de enviuvar, portanto há 18 anos, mas já o fiz por 5 vezes, sempre com uma das minhas filhas.
Ah…eu encontrei Fão muito mudado! Tem muitas coisas novas. A terra cresceu muito para os lados do Ramalhão e do Pinhal.
Meus lugares preferidos para passear são a Praia, a Marginal, que é um espaço muito bonito e a minha primeira visita quando saio de casa.
O que mais me entristeceu foi não ver as “minhas Rodas” quando cheguei, ,mas compreendo que isso tinha de acontecer para haver melhoramentos na terra. Também não gosto muito daqueles esporões na praia, embora tenha sido um mal necessário, tirou muita beleza á nossa praia.”
Apesar dos seus 82 anos, o senhor Quintino mostrou muita vitalidade e aproveitava o tempo para poder dar uns passeios em Fão e por outras terras e algumas romarias. Vimo-lo e registamos a sua presença na Festa da Cerveja e do Marisco com sua filha e sobrinhas, um ou dois dias antes da sua ida à Senhora da Agonia, onde o destino quis terminar antecipada e tragicamente a sua estadia. Foi um final de etapa de um simpático, humilde e bom fangueiro, que cruzou o Atlântico pela derradeira vez, terminando a viagem da vida onde começara…em Fão.
Descanse em paz e…obrigado pelo prazer que tivemos em o conhecer e pelos testemunhos transmitidos.