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BRANCA GOMES PENETRA

Uma mulher que viveu para servir os outros e praticamente sozinha criou 8 filhos, passando por várias provações e “rasteiras” que o destino lhe reservou, mas a tranquilidade que transparece mostra que sente ter cumprido a sua missão.

Filha de pescador e criada pela avó

NF- Seu pai era conhecido pelo João “Foga”, como surgiu a alcunha e que mais destaca dos seus antecessores?

D. Branca- ”Meu pai João Gomes Penetra, era como muitos na família pescador, e ganhou a alcunha de “Foga”, por a sua casa na rua Azevedo Coutinho, ter incendiado, o que pareceu de origem criminosa.
Minha mãe tinha vindo de Palmeira em pequena para Fão, mas morreu ainda jovem e eu e meus 3 irmãos ficamos órfãos muito novos, por isso fomos criados pela nossa avó paterna Felicidade Fernandes Neiva, que era natural de Esposende e vivia na rua Nova (Dr. Moreira Pinto). Minha avó, de Felicidade só teve o nome, pois o meu avô partiu para o Brasil e nunca mais voltou, para grande desgosto seu.
O meu avô chamou para o Brasil os seus filhos e o meu pai também lá esteve por 2 vezes com ele, para tentar melhorar um pouco a vida. Depois o meu pai regressou definitivamente e manteve-se em Fão algum tempo. Quando já estávamos criados, ele foi para o Seminário de Braga como guarda-nocturno e depois como porteiro, onde conheceu o Padre Coutinho de Belinho e lá ficou até morrer."


Um “boneco” vivo aos 7 anos e o abandono da escola

NF
- A infância, foi muito difícil? E a escola?
D. Branca- ”Pouco tempo estive na escola, a professora da 1ª. classe adoeceu e faltou muito tempo e então eu com apenas 7 anos fui tomar conta do filho bebé do Dr. Pimenta, que também se chamava Júlio e faleceu o ano passado.
Mais tarde passei para empregada de sala, enquanto na cozinha trabalhava a Albina Peixoto, que tinha vindo de Alvarães e fizemo-nos amigas, ao ponto de quando ela saiu de lá eu também saí pelas saudades da sua companhia.
O Dr. Júlio Pimenta, era muito boa pessoa e não levava dinheiro aos pobres, dizia ele que tinha de cobrar um pouco mais aos ricos, para sobreviver. Foi ele que assistiu o meu primeiro parto, de um bebé que acabou por falecer, aliás como aconteceu a outros 2.
Da infância lembro-me de algumas meninas com quem brincava…a Otília, minha irmã Rosa e a Cindinha, filha do major Nogueira, que casou mais tarde por procuração com o Dr.Alceu que estava em África, mas acabou por falecer antes dele regressar.”


A servir ainda jovem, de Esposende ao Porto

NF- Depois do Dr. Pimenta, foi servir para onde?
D. Branca- “Pouco depois fui para casa do Dr. João Barros Lima, que foi médico em Fão e Esposende, onde tinha a sua casa.
Andei ao colo com o filho Henrique, que é o marido da D.Mitó Ramalho. Aí, também fui muito bem tratada, principalmente a senhora D.Etelvina, que era muito amiga minha e de minhas irmãs e dava-nos muitas coisas, como por exemplo roupas. Lembro-me de um drama que aconteceu nesse tempo (anos 30), quando numa caçada que o Dr. João fez com os irmãos José e António Labrista, em que um deles feriu de morte um rapazinho chamado Abílio, que era filho do ferreiro e havia sido convidado para apanhar os coelhos, que apareceu à frente de um alvo e um deles acertou-lhe. Foi um episódio que ensombrou aquela casa durante algum tempo…
Olha, cena idêntica, aconteceu em Fonte Boa, quando a casa do padre estava a ser assaltada e ele armado atirou a matar num rapaz que tinha lá em casa como criado, confundindo-o com os larápios, o Dr. João foi uma das testemunhas desse caso que também consternou a população daquela freguesia.
Eu era jovem e tive uma atitude que mais tarde achei ingrata, pois fugi da casa dos Barros Lima, por um dos filhos me ter dado uma bofetada, quando os estava a servir.
Não estive muito tempo parada e pouco depois fui para casa da D.Albertina Morais e do sr. Branquinho, que era uma família de prestígio e das mais ricas do concelho. Tiveram um dos primeiros automóveis, mas ele não tinha muito jeito para a condução. A esposa tinha de sair do carro para lhe dar instruções e um dia para dar boleia a alguém, atrapalhou-se e teve um acidente. O certo é que não mais quis conduzir e “despachou” o automóvel.
Daí, fui mais tarde para o Porto trabalhar para casa do sr. Américo e D. Guida, um casal que vinha passar férias numa casa em Fão. Tinha um filho único, que era apaixonado pela Lúlú e andava sempre a dizer que havia de a trazer a sua casa, mas ela nunca lá foi. Aí passei vários anos e encontrei lá a sua mãe Aurora, que vivia com uma prima, muito perto da casa onde trabalhava. Lembro-me de uma cena em que ela me confidenciou que gostava de ir passar o natal a casa, com o pai e a irmã, de quem tinha saudades, mas temia que a prima não deixasse. Eu prometi falar com ela e consegui que ela viesse comigo passar o natal a Fão, a senhora sentiu confiança em mim, talvez por conhecer bem os meus patrões”
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Regresso definitivo a Fão, casamento e viuvez

NF- Da juventude, que se lembra? E o casamento como aconteceu?

D. Branca- "Eu na minha juventude ia muito à igreja com as minhas patroas que eram senhoras muito devotas, mas também gostava muito de ir aos bailes. Para o conseguir tinha de dizer à D.Albertina, que íamos (eu e a Maria Igreja, prima da D. Jeny Fernandes) ver as Revistas no salão. E nós rumávamos para o Clube dos Grulhas ou Dos Pacatos (Clube Fãozense), onde havia bailes. Mas depois tinha de me informar bem e dar azo à minha imaginação para contar tudo o que se passara nas revistas. Ela até gostava e dizia que era melhor ouvir-me do que ir aos espectáculos.
Ainda namorei um ou dois rapazes, mas depois apareceu o Manuel da Silva Gonçalves, enteado do “Serrador” da fábrica do Albino, e a coisa “pegou”. Trabalhei algum tempo para o padrasto no “Escondidinho”, na rua de S. João, que ele tomou conta e mais tarde ficou conhecido pela Tasca do Serrador, que era um negócio para ele deixar para o filho que ainda estava a acabar a 4ª. classe.
Casamos em 1943, tendo ficado a morar numa casinha da D. Albertina, que o marido não queria alugar, pois pensava que não podíamos pagar. Mas meu marido pagou logo o ano inteiro de aluguer e calou-o, embora a senhora nem quisesse a renda. Fiquei a trabalhar para ela até falecerem os dois, os meus filhos brincaram lá em casa e ela tratava-os muito bem. Quando morreu deixou-me a casa como prova de amizade e gratidão e o senhor Prior Nogueira foi o seu fiel testamentário. Ele vinha todas as semanas lá a casa e tomava café com a D. Albertina, feito por mim e brincava por eu lhe servir muito café. Bem, bem, dizia ele, a culpa não é tua de servires tanto café, a chávena é que é grande.
”.”

Trabalho em “part-time” e sucessão de desgostos

NF
- Casada e com tantos filhos para criar, era difícil estar a tempo inteiro numa casa…
D. Branca- ”Sim, com a morte da D. Albertina, deixei de ficar fixa numa casa. Meu marido era serrador na fábrica do Albino Torres, tal como o pai, mas naquele tempo ganhavam muito pouco, por isso continuei a trabalhar em casas e a fazer serviços de cozinha, principalmente em banquetes e casamentos. Mas, o maior golpe foi a doença do Manel, que lhe apareceu subitamente quando tinha 44 anos. A arteriosclerose, era uma doença congénita que o atacou de forma galopante e durou apenas 5 anos. 5 anos de muitas dificuldades, pois não havia dinheiro para os medicamentos. No entanto, os médicos pouco podiam fazer, apesar de algumas ajudas como foi do Dr. Ribeiro da Silva, de quem eu tomei conta da casa junto à Piscina do Rio durante 17 anos. Sem a assistência social, pensões ou subsídios, era muito complicado e tive de me desdobrar. Naquela altura já morava na casa actual, pois a outra era muito pequena para uma família tão grande e viemos para este terreno junto na rua de S.José, onde construímos a nossa casa.
Quem me valeu então, foi a Dra. Ró Torres , que um dia me bateu à porta para me ajudar e conseguiu que ainda recebesse uma reforma pelo meu marido. Após o seu falecimento, passei a viver exclusivamente para os meus 8 filhos e para o trabalho, eles foram a minha grande motivação.
Mas, a vida deu-me mais algumas “bordoadas”, como foi o desaparecimento da minha filha Maria do Céu, que foi afectada espiritualmente, como outros jovens por uma má companhia. Durante muitos anos olhei para aquele portão à espera que ela me aparecesse…
Depois foi a minha filha mais velha (Maria Júlia) que faleceu ainda muito nova, ela que me ajudou muito com os mais novos. As raparigas passaram quase todas pelo Teatro de Revista, no tempo do Zé Maia, mas a Maria Júlia era uma das melhores vozes que apareceram em Fão.
Esses 8 filhos deram-me 15 netos e 8 bisnetos e essa família são a minha alegria e faz-me esquecer outros males.
Um problema com outros familiares por causa de uma faixa de terreno que ocuparam de má fé, é a única coisa que me entristece e gostava não os afectasse no futuro, como me tem feito sofrer a mim.”


Os hotéis, a emigração e a devoção pelo Prior Nogueira

NF
- Qual a pessoa que mais admirou, o momento mais feliz da vida e como vê Fão actualmente?
D. Branca- “O Prior António Nogueira, foi um grande padre e um grande homem! Rigoroso e disciplinador, mas muito empreendedor para bem do povo e da terra. Ainda me lembro do Helmut, um rapaz austríaco, que ele acolheu durante a II Grande Guerra. Era uma alma muito caridosa!” Mas houve nessa altura mais famílias com crianças acolhidas. Por exemplo, uma menina, acho que se chamava Ingrid, que esteve em casa da Dra. Ró e um Peter, também austríaco ou alemão acolhido pela família Sottomayor que tinham casa em Fão, onde passavam férias e fins-de-semana. Ele acabou por se apaixonar pela Maria “Mona” (filha) e acabaram por casar , o que foi complicado pois ela tinha casado por procuração com um Joaquim “das Inácias”, que estava em Angola e com quem nunca viveu. E então ela teve de pedir a dissolução do casamento a Roma e eu, a Lúlú e a Palmira Borda, fomos testemunhas desse processo.

Os meus momentos mais felizes, foram quando nasciam os meus filhos e eles e eu escapávamos com vida, pois na altura morriam muitas mães de parto e muitas crianças à nascença, como aliás me aconteceu a 3 delas, já que não havia assistência pré-natal, ecografias ou acompanhamento médico e as infecções eram muitas.

Fão, actualmente é uma vila evoluída com boas condições de vida. No passado foi terra de muita miséria, mas o aparecimento dos hotéis e a emigração veio ajudar e muito ao seu desenvolvimento e melhoria de vida.
Naquele tempo não havia ajudas do estado para nada, o que valia eram alguns benfeitores que iam deixando terras ou bens para o Hospital ou para obras na terra. Agora, não faltam subsídios e ajudas para se criar alguns equipamentos que tornam Fão uma terra onde se tem praticamente tudo. No entanto, as pessoas ainda se queixam mais que noutros tempos.”


São os tempos…dizemos nós. Das reivindicações, da contestação, da intolerância, que nem sempre são as melhores armas para atingir os melhores propósitos. Um contraste bem vincado, para o que se viveu noutras décadas, onde a pobreza, a doença e as privações, tornavam as pessoas mais humildes, mais respeitosas, mas nunca resignadas pelos seus ideais ou pelos seus filhos, como esta corajosa mulher, que esgrimiu com todas as forças contra o destino e as adversidades da vida e de uma época de grandes carências.