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ARMÉNIO GRAÇA DA SILVA

Descendente de autênticos “lobos do mar”, o Arménio Silva seguiu as peugadas de seus avós e seu pai. Seus dedos grossos e mãos calejadas, barba serrada e um proeminente bigode que o tempo esbranquiçou, é ainda e apesar de reformado, um dos poucos pescadores de Fão que se fazem ao mar num pequeno bote, sendo o mais respeitado na sua actividade, pela grande experiência da sua vida entre as ondas, as redes, os anzóis e alguns naufrágios.

Neto do “Tio Zé Suga”, um grande pescador poveiro

NF- A sua família viveu sempre do mar? Quem são os seus ascendentes, de onde vieram e como apareceram em Fão?

Arménio- ”Meu avô José dos Santos Graça, pertencia a uma grande família de pescadores poveiros e veio parar a Fão, quando o seu barco foi desviado por uma tempestade no mar, para a nossa praia. A minha avó Maria Ferreira Belo, que era varina, andava na praia para conseguir peixe para vender e conheceu-o nessa altura. A partir daí, surgiu um relacionamento que acabou em casamento. Depois vieram os seus irmãos Abílio, Maria “Chiquita” e “Tia Messias” e ainda os sobrinhos António “Coão” e a ”Tia Luzia”.
Dos vários filhos de meus avós, nasceu minha mãe Rosa dos Santos Graça, que veio a casar com meu pai Arménio Gonçalves da Silva, que era de Vila do Conde e trabalhava na construção civil.


Por influência do meu avô José acabou por se dedicar também às lides marítimas.
Do banco da escola para o mar

NF
- Como, quando e porque foi pescador?
Arménio- ”Bem, a miséria era muita e nós éramos uma família muito numerosa (10 irmãos- António, Eugénio, Rosa, Arménio, Guilherme, Salvador, Maria, Conceição, Manuel e Fátima) e claro que a pesca era o que a família sabia fazer e já tinha os meios. Por isso, mal acabei a 3ª. classe fui para o mar, tinha então 9 anos e embora o meu pai tivesse barco próprio, como ele andava com os meus irmãos António e o Eugénio eu comecei no barco do Carlos “Remador”. Ainda no tempo de escola, muitas vezes já fugia para o mar e só acabei a 4ª classe já estava casado.
Aos 16 anos fui trabalhar com o meu pai e já “governava” um dos seus 2 barcos, acompanhado pelo Carlos Figueiredo.
Eu mal me apanhei no meio do mar, senti que estava no meu mundo! Nunca tive medo das ondas, nem nunca enjoei, mesmo em pequeno e apesar dos vários naufrágios que sofri.
Naqueles tempos na nossa praia havia 90 ou 100 barcos de Fão e de Apúlia. Partíamos muito cedo de madrugada e chegávamos a passar a noite toda a pescar “à mão”.”


Histórias do mar e da pesca

NF- Tantas horas, tantos dias no mar, com certeza tem inúmeras histórias, quais o marcaram mais? Como era a fauna e o negócio ?.
Arménio- “O mais terrível aconteceu à frente dos meus olhos, quando o barco onde ia o meu primo João Santos Graça “Coão” e o João “Pantomina”, ali bem perto do nosso, se virou levado por uma vaga enorme à entrada no mar. O “Pantomina”, salvou-se, mas o meu primo veio a morrer, estávamos nos princípios de 60.
Virávamos muitas vezes, principalmente na entrada para o mar, mas o pior aconteceu-me quando regressava, vinha com o “Zéquinha Casanova” e ficamos debaixo do barco. Quem nos tirou debaixo foi o Zé “Remador”, com a ajuda de outros. O Zéquinha com o susto nunca mais voltou ao mar. Outra altura com o meu cunhado Augusto, apanhamos um “congro” que devia ter mais de 25 quilos, era um espécime enorme e andei aos trambolhões dentro do barco para o segurar, enquanto ele tentava ferrar-me ou acertar-me com o seu vigoroso rabo e acabou por nos fugir. Para azar, no mesmo dia outro “congro” que apanhamos, também nos fugiu e regressamos com o barco vazio. O meu primo apavorado fugiu para a proa e nada fez, tendo também ele abandonado para sempre o mar.
Dos pescadores do nosso tempo o mais famoso foi o Manuel Belo, que emigrou e já faleceu no Brasil. Chamavam-lhe o “Patuleia” e andava no barco do Alberto “Puxes”. Ele conhecia as marcas todas, parecia que tinha um GPS nos olhos! Conseguia com os olhos descobrir onde estava o “calor” dos peixes. Aquilo era “tiro e queda”.
A vida do mar era muito dura, não tínhamos o equipamento de agora, era tudo à força dos nossos braços, pois os barcos eram todos a remos. Muitas vezes chegávamos a demorar 10 horas para entrar na praia, principalmente quando o vento soprava forte de leste. Chegávamos a terra com bolhas e sangue nas mãos e as nádegas em ferida, de tanto remar e lutar contra a força do mar.
O peixe era à fartura, mas rendia muito pouco, mesmo enchendo um barco com 80 ou 100 kgs de peixe, não dava mais de 70 a 100 escudos. A lagosta apanhávamos às “gigas”, mas não valiam mais de 1$00 cada. Camarão “da costa”, também havia em grande quantidade, mas rendia apenas 2$50 o quilo. Os peixões esses, praticamente extintos agora, quantos anzóis houvesse quantos vinham. A sardinha, essa nem se pescava, só os pobres a comiam e era usada para o isco no “espinhel” e como fertilizante para as terras. A costa era muito rica em robalo, corvina, sargo, pargo, congro, faneca e ainda lavagante, navalheiras e santolas, que também ninguém queria e até eram indesejadas quando vinham nas redes. Como ninguém queria alguns destes peixes, não se vendiam, e agora que são rentáveis não há.”


Na construção civil em França e na pesca do bacalhau na Alemanha

NF- Tantos barcos e tantos pescadores na nossa praia, nos anos 50/60, agora 2 ou 3 e sem pescadores a tempo inteiro, fugiu assim tanto o peixe? Para onde foram tantos pescadores?
Arménio- ”O peixe dava muito pouco e era uma profissão muito dura e arriscada, daí que a maioria de nós tentasse a emigração. Os nossos filhos, esses também não quiseram seguir a nossa vida tão difícil. Depois o peixe valorizou, mas começou a escassear e os arrastões levavam-nos tudo. Por outro lado os materiais também são muito caros e para manter um barco, não chega o pouco peixe que se captura.
Quem vai à pesca como eu é apenas por prazer ou passatempo, para manter o contacto com o mar.
Tirei a minha Carta de Arrais (para poder governar um barco), em Viana em 1960, com apenas 19 anos, naquele tempo o mais novo pescador a consegui-lo. Nesse mesmo ano casei com a Maria Adelaide Neiva P. Campos. Mas a vida era muito complicada e começaram a aparecer os filhos que era preciso sustentar (Álvaro, Filomena, Rosário, Carmen, Leandro e dois Arménios, já que o 1º faleceu pequenino), por isso e já com 4 deles nascidos, emigrei para França. Aí trabalhei durante 4 anos na construção civil, mas depois decidi tentar a sorte na Alemanha em 68, desta vez na pesca do bacalhau. Andei em grandes navios –fábrica, pelo mares da Noruega, Gronelândia, Canadá e América (sardinha). Os barcos eram todos alemães e levavam mais de 100 homens, onde se fazia todo o serviço até o peixe sair congelado.
Eu era 1º marinheiro e trabalhava no convés com as redes e não era nada mal pago (cerca de 1.000 marcos por mês). Neste tipo de pesca chegava-se a estar no mar aos 4 meses, sem vir a terra.”


O regresso à terra e ao mar de Fão

NF
- E então voltou a navegar na nossa costa… Com quem e como era então a pesca no nosso mar?
Arménio- ”Voltei a equipar o meu barco, que havia mantido e comecei a ir para o mar com os meus filhos, primeiro o Arménio e depois o Leandro, este também que veio a tirar a Carta de Arrais.
Nesta altura já só tínhamos em Fão cerca de 15 barcos, mas a pesca ainda era razoável, mas como já disse os arrastões limpavam tudo.
Também voltei a dedicar-me à pesca da lampreia, o que já fazia no tempo do meu pai na estacada do Antonino Borda. Depois que ele faleceu também tomei conta dela, substituindo o meu primo “Tone”(António dos Santos Graça), que tinha um dos 4 grupos a quem ainda ela pertence. O meu, do Artur “Carneiro”, António Miranda “Lírio” e Carlos “Bicho” (de Esposende)”.
Muita lampreia se apanhava, quando a pesca era só para profissionais. Agora, matam-na logo à entrada da barra e a estacada dá muito menos.
Já estou reformado há 7/8 anos e só pelo grande prazer do mar e da pesca é que lá vou mas só de vez em quando na companhia do Manuel Santil Carreira ”Carreirinha” de Fonte Boa. A pesca já não justifica e só em Apúlia ainda existem pescadores a tempo inteiro e aí há 16 / 17 barcos. Cá, para além do meu barco, há o do Mendanha, Artur “Carneiro” e “Tone do Lírio” “.
Actualmente sou o representante na lota pelos pescadores de Fão e de Apúlia, fiscalizando o peixe e controlando o movimento de cada barco."


Vida associativa e algumas dicas pessoais



NF
- Para além da pesca também se envolveu noutras “lides” associativas…Que sente em relação à nossa terra e claro à praia e ao rio, meios que conhece como as próprias mãos?
Arménio- “Pertenci a várias direcções do Clube de Futebol de Fão e olhe que foi em tempos muito complicados, numa altura em que não se pagava nada aos jogadores, para além de uns lanches.
Eu sempre vivi com alguma emoção o futebol e tenho uma história mesmo quando era director…
Jogámos um dia em Tadim e um dos directores agrediu um jogador nosso (Tito), quando este ia para as cabines depois de ter sido expulso, o que para mim foi uma atitude revoltante e cobarde. Chamei a atenção do guarda, mas ele desprezou o acontecido. Jurei que havia de me vingar, quando aquela equipa viesse jogar a Fão na 2ª volta. Apanhei a jeito o tal director e “arreei-lhe” forte e feio. O homem, no final do jogo, para não dar parte de fraco, disse que eu me enganei e “dei” no irmão dele, então eu respondi-lhe que não tinha sido eu mas o meu irmão, claro para lhe responder à letra. O certo é que o homem ainda pagou umas rodadas de cerveja ao pessoal de Fão.
Também fiz parte de várias comissões de festas, quer do Bom Jesus, quer da Senhora da Bonança, nós os pescadores sempre tivemos muita fé e era bem preciso para enfrentar os perigos do mar, daí que esse trabalho para as romarias me desse um certo prazer.
Em relação à nossa vila, sinceramente acho que está um pouco morta e paramos um pouco no tempo. Aqui temos quase tudo e boas condições, é preciso é criar actividades e dinâmica. As obras da ponte não tiveram uma grande influência, mas prejudicou muito o comércio e a vida de muita gente, obrigados a gastos extraordinários. Penso que a conclusão da Marginal até ao Caldeirão, era uma obra muito importante. O rio, está um pouco melhor em termos de água, graças ao fecho das tinturarias, mas precisava de ser desassoreado, para o tornar mais navegável. A praia é um pouco mais complicado com o areal “comido”. Penso que era preciso cortar um pouco ao esporão a norte, que é grande de mais. Repare que a praia a norte desse esporão está muito boa, mas a sul está a desaparecer e junto ao hotel e à praça é uma lástima.

Para os barcos, a coisa está melhor, pois a rebentação é menor e conseguem entrar mais facilmente para o mar.”


Assim falou um homem que é um dos poucos sobreviventes duma grande comunidade piscatória que durante séculos, marcou a vida social de Fão, a sua história e a história marítima portuguesa. O seu depoimento é pois um importante testemunho das tradições e do passado fangueiro, por isso foi já convidado para um conferência realizada pela Cooperativa Cultural, sobre a vida dos nossos marinheiros, da pesca e do mar. Em cada ruga, em cada cabelo branco, uma história vivida entre os seus dois paraísos que é o céu e o mar, que para muitos serviu de túmulo.