MANUEL GOMES GAIFÉM
Homem de uma invejável vitalidade, para os seus 81 anos, o “Manel do “Pau”, como é popularmente conhecido, pedala quilómetros na sua “Mercedes”, como chama à bicicleta, caminha e trabalha ainda nas suas pequenas leiras, como forma de se entreter e não parar .
Pai sapateiro e hábil caçador
Do seu pai Manuel Fernandes Gaifém, ficou o apelido, porque ainda criança sofreu doença que o incapacitou parcialmente de uma perna, pelo que passou a usar um pau para se apoiar, daí ser conhecido por ”Manel do Pau”, que acabou por transitar para si.
Manuel Gaifém- ”O meu pai era um exímio sapateiro, aqui nas Pedreiras, mas gostava muito da caça. Com o pau que tinha quase a sua altura e a ajuda dos cães, era o “terror” dos coelhos bravos.
Ficou famosa uma caçada com o Dr.Sampaio e Castro e o Joaquim Carlos “Frade”, em que ele matou tantos coelhos com o pau como eles com as 2 espingardas. Ele dizia que para um coelho, um coxo bem os podia caçar, pois eles em vez de fugirem, ficam escondidos e era preciso apenas ter alguma calma e astúcia para os apanhar, ao contrários das perdizes, por exemplo, que ainda corriam a direito cerca de 100 metros antes de voar e aí era preciso boas pernas ou um bom cão.
O meu pai era já um apaixonado pelo futebol e ia com a sua pequena carroça ou um carrinho de pedais manuais, ver jogos que os de Fão iam fazer a outras terras.”
Passagem pela escola e algumas lembranças
Pela escola teve uma efémera passagem, pois não tinha grande queda para “aquilo”, fazendo apenas a 2ª. classe “aos empurrões” e tendo sido aluno da D. Ida e do Prof. Pio Rodrigues. Lembra-se ainda da história em que um grupo de rapazes, fez uma espera ao Prof. Laje e na coça que lhe deram, para se vingarem da extrema dureza que ele usava.
Manuel Gaifém- ”Ele arriava no pessoal forte e feio fosse com a cana-da-índia ou com a aquela palmatória de buracos !
Aqui nas Pedreiras havia muito mais movimento que agora e as pessoas conviviam mais e elas próprias é que arranjavam animação. Agora a TV e as telenovelas,
Mete toda a gente em casa. Na loja do “Cantoneiro”, juntava-se muito gente para ouvir a rádio, que era dos pouco que havia em Fão. Principalmente ao meio-dia para ouvir-mos as notícias e às vezes alguns relatos de futebol. Quando veio a primeira televisão para casa do sr. Carvalho, foi uma grande excitação ! Ele, como era muito boa pessoal deixava-nos ir para lá ver numa sala grande que tinha, mas alguns rapazes fizeram para lá algumas sujidades e a festa acabou-se!
Quase todos se dedicavam à lavoura, mas também havia algumas peixeiras. Lembro-me das ”Perpétuas” , que ao domingo vendiam peixe na rua e durante a semana andavam pelas aldeias com as gamelas à cabeça, carregando 30 e 40 quilos, indo até Barcelos e Braga, veja lá 35 quilómetros!...
Aos domingos no largo da Abarrosa faziam-se bailes, feito organizado pela malta daqui e era grande a animação.
Aqui no cais do Caldeirão, havia mais de 15 barcos de pessoas que iam ao sargaço para o adubo e vender aos lavradores de Aguçadoura e Aver-o-Mar, isto claro depois de algum tempo a secar. Ainda me lembro de ver os barcos a chegar carregados até ao limite, com apenas de dois dedos fora de água.
Desse tempo não esqueço jamais quando a minha mãe ia de madrugada, para as bichas, no tempo do racionamento, para trazer 3 ou 4 pães para casa, foram tempos muito complicados e de grande provação!
Uma história que me lembro, foi quando os de Esposende fizeram queixa das sessões de cinema que havia no nosso salão paroquial, tendo-nos sido retirada a licença. Mas, nós tínhamos em Fão o brigadeiro Batistinha”, que era um grande amante da nossa terra e conseguiu “virar o feitiço contra o feiticeiro”, conseguindo que a licença fosse retirada a Esposende, isto numa altura em que as sessões eram feitas, no edifício do actual museu municipal. O brigadeiro, ajudou muita gente de Fão, com a sua influência, tendo sido uma figura marcante, que por cá passou.”
O trabalho aos 11 anos e a paixão pelo futebol
Como grande parte dos jovens naquele tempo, o Manuel Gaifém, foi trabalhar muito jovem, com apenas 11 anos de idade, para a construção civil. Por outro lado teve como sua grande paixão a prática do futebol.
Manuel Gaifém - “Sim, comecei muito novo a trabalhar de trolha, mas isso nunca me meteu medo, o mal é que naquele tempo havia muito poucas obras e durante muito tempo, só estávamos ocupados 2 ou 3 dias por semanas, para além de se ganhar muito pouco.
Bem, o futebol sempre foi uma grande paixão, em pequeno ia ver os outros jogar, ainda no antigo campo do Fontes e mais tarde quando comecei a jogar era na Junqueira. Eu jogava à baliza e até me ajeitava mais ou menos. Nesse tempo ao domingo íamos às 8,30 horas para lá e ficávamos a jogar até às 13 horas. Jogávamos uns com os outros, mas também se ia jogar com outras terras, cá e lá. Havia rapazes com muita habilidade como o Chico Glória, o Quim Chiquita, o Né Glória>, esse “malandro” tinha cá um pontapé, com aquele pé esquerdo até queimava nas nossas mãos. Os de Esposende nessa altura tinham uma grande equipa, mas muitas vezes lhe ganhávamos.
Lembro-me uma vez, isto há mais de 60 anos, eu estava de fora a ver um jogo e o guarda-redes era o Treze” (Isaltino), que foi tocado no seu olho bom e teve de sair, então lá me entusiasmaram
a substitui-lo e não querem ver que eu defendi um penalti? Como ganhámos o jogo, não sei contra quem, à noite foi uma festa no ”Galo d’Oiro”, o Abel Torres, ofereceu-nos um copinho e roscas de pão leve.
Desses tempos, lembro-me ainda de um célebre jogo que fui fazer pelos de Gemeses a Vila Chã, pois não tinham guarda-redes e convidaram-me. Havia muitas mulheres a assistir ao jogo e ameaçavam-nos continuamente, mais ainda quando marcamos o 1º. golo, valeu que depois sofremos o empate e as coisas acalmaram, mas tive algum receio.
Em Angola para onde emigrei nos princípios de 50, também joguei muito à bola, entre equipas de fazenda e grupos que se formavam, pois poucos clubes haviam.”
Emigrante em Angola e França
Como muitos do seu tempo, o nosso entrevistado, também procurou emigrar para melhorar as suas condições de vida, face à precariedade de emprego e pouco trabalho, já que se viviam em Portugal momentos a grande recessão do pós guerra e ainda não tinham despontado as grandes obras na zona de Ofir.
Manuel Gaifém- ”É verdade, por cá era uma miséria, tínhamos apenas dois mestres de obras, mas que não tinham ainda muito trabalho para nos dar, o Cândido Reis e o António Sá Pereira.Por essa altura ganhava-se 40$00 ou 50$00 por semana, mas por vezes só se fazia uma ou 2 semanas num mês. O trabalho era muito violento, pois não havia a tecnologia de agora e tínhamos de nos deslocar a pé para muitas obras longe de Fão.
Eu nunca andei por muito longe, apenas estive cerca de 2 anos numas obras em Guimarães, perto do Castelo, trabalho conseguido por intermédio do Padre Avelino Borda.
Então decidi tentar a sorte em Angola, como muitos outros colegas de então. Eu fui com “carta de chamada”, mas embora se dissesse que “Angola era nossa”, foi preciso uma série de requisitos e papeladas como o registo criminal. Parti por volta de 1951, num barco onde iam outros de Fão, entre eles lembro-me do “Ferroque”. Fui logo para Luanda e o meu patrão tinha muito trabalho, a maioria na capital. Também andamos por outras paragens, como na zona da “Gabela”, que distava 600Km, mas aí era preciso pessoal a guardar os que estavam a trabalhar, pois por vezes os nativos quando apanhavam alguém desprevenido, “limpavam-nos” com as suas catanas. Eles, quando bebiam um pouco, por vezes aquele vinho, que era “baptizado”, pois um litro davam 3 ou 4, com acrescento de água, ou com uma cachaça que eles faziam, “passavam-se” e então era preciso muito cuidado, pois matavam um branco com toda a naturalidade. Até mesmo se
constava que ainda comiam alguns. Os negros sempre viveram livres em África e o branco apareceu para os afrontar, roubar o que era deles e ainda obrigá-los a trabalhar. Coisa que eles pouco faziam, pois tinham várias mulheres para tratar dos afazeres. Praticamente só caçavam e pescavam. Ora eles diziam, que se o peixe que vinha do mar era bom para comer, também o branco que de lá vinha deveria ser bom, daí que o canibalismo era prática corrente nos primeiros tempos.
Por volta de 1960 e quando começaram os primeiros conflitos regressei a Fão e como me falaram que em França o trabalho era mais bem pago, não corria tantos riscos e estava mais perto, lá parti para perto dos Alpes, na zona de Grenoble, onde estive 23 anos. Dei-me muito bem por França e com o frio daquela zona, os meus patrões que eram da zona de Fátima, gostavam muito de mim e quando eu vinha a Portugal por 2 ou 3 meses, sempre me garantiram emprego. Fiz lá muitas amizades, entre elas os corvos, tendo trazido um para Portugal. Falava com eles e pareciam compreender-me e eram uma boa companhia".
O regresso à pátria, à terra e tratando da terra.
Sempre muito saudoso de Fão e da família que havia constituído (tiveram 4 filhos, Alice, Maria José, Graça e Manuel Francisco) regressou definitivamente nos princípios de 80 e dedicou-se um pouco a umas pequenas leiras que tinha, tendo aprendido com a sua esposa, Emília Gonçalves Vasco. Ela, com ele fora, sempre lavrou as suas próprias terras e isso foi uma grande ajuda, pois colhia muitos legumes, frutas e tubérculos, que ajudava a sustentar a casa.
Manuel Gaifém- ”É, realmente ela foi uma grande mulher, de muito trabalho, boa dona de casa e mãe, sabendo gerir a educação e o sustento dos filhos nas minhas prolongadas ausências.
Eu, então lá me fui entretendo entre os campos e o rio, de que também sempre gostei muito e umas pequenas obras cá por casa.
Nunca me meti em nada mais que o futebol, que era a
minha grande paixão. O meu cunhado ”Zeca”, bem me tentou seduzir a ir para os bombeiros onde ele era “clarim”, mas não me conseguiu demover. Ele também tocava concertina por isso era conhecido pelo “Zeca da Concertina” e era dos que animava os bailes que se faziam por aqui. Sempre adorei a minha terra, o rio o mar e todos os nossos cantinhos e sinto-me muito bem por cá, onde houve um grande desenvolvimento, por vezes a afastar um pouco a convivência das pessoas, mas isso é geral em todo o lado.”
O senhor Manuel, é um homem simples, mas muito vivo e dinâmico, na sua “Mercedes”, ou a pé não pára e isso é o segredo da sua vitalidade. Foi o que mais lhe aconselhou o médico, pois embora o coração já não tenha o fulgor de outrora, o exercício é o melhor tónico de vida. No seu quintal o encontrámos com uma enxada a arrancar umas ervas e no seu quintal o deixamos, rodeado pelos seus 3 cães, que parece o venerarem. Sempre gostou de animais e acatou as palavras do seu pai, que uma casa sem animais, não era um lar completo. Na sua tez rugosa, pode-se vislumbrar um homem, que olhou de frente as dificuldades da vida, mantendo uma boa disposição permanente.