CARLOS DOMINGUES DA VENDA MARIZ
Alojado como diz, “na comodidade” do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Fão, o nosso interlocutor é um homem que apesar dos seus 85 anos, continua muito atento a tudo que se passa no mundo e na nossa terra, lendo, estudando, investigando e procurando mais conhecimento, principalmente do que se relaciona com Fão, tendo já um legado como poucos sobre muito da nossa história e do património.
Descendente de mestres de carpintaria, do tempo dos Estaleiros
Carlos Mariz- “Meu avô, Joaquim Domingues da Venda foi
um conceituado profissional de carpintaria nos Estaleiros navais de Fão e Esposende, ainda em finais do século XIX. Meu pai João Domingues da Venda, herdou do seu progenitor a mesma arte, tendo também iniciado a sua carreira nos nossos Estaleiros, onde também foi mestre. Mais tarde, para tentar melhor sorte emigrou para o Brasil, isto logo após a Iª Guerra Mundial, para onde depois chamou a minha mãe Lucinda Domingues Mariz e meus irmãos mais velhos José e Joaquim. Aí nasci eu, em Niteroi, a 25 de Janeiro de 1922 e mais tarde minhas irmãs Aida e Édir. Por esta altura havia muita gente a emigrar para o Brasil e quase todos os barcos levavam gente de Fão. Se no século XVIII a maioria dos fangueiros se foram concentrar na zona de Minas Gerais, na procura do ouro e a norte na Baía e Recife, para as plantações de cana e comércio, as principais comunidades no princípio do século XX estavam em Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará. Onde eu vivia, Ponta d’Areia em Niteroi, chamavam-lhe “Portugal Pequeno”, pelo considerável número de portugueses que lá viviam.
Estudei até à 4ª.classe no Brasil, onde o ensino era um pouco mais avançado que cá. Eu como nasci precocemente tive algum atraso no meu desenvolvimento e só comecei a falar aos 6 anos. A propósito disso, há a história da minha madrinha que me deu uma colher de vinho do Porto aos 3 meses, mas a sua “boa intenção” ia-me matando. Assim, fui mais tarde para a escola, mas recuperei alguns anos, pelas minhas capacidades. Depois de alguma insistência dos meus tios e com algumas reticências da minha mãe, regressamos por volta de 1935, por causa da minha avó Josefa, que necessitava de alguns cuidados. Meus irmãos nunca regressaram, o José, porque faleceu com apenas 18 anos, de tuberculose, que apanhou numa brincadeira de Carnaval devido a umas molhadelas e o Joaquim, porque se recusou, sabendo que a vida em Portugal era muito complicada, numa altura de miséria. Dos meus tios destaco o
Joaquim Mariz, o homem que ofereceu a cantina escolar”.
Do Brasil para os bancos da escola com a D. Ida Eiras
C. Mariz- ”Regressamos num paquete superlotado, onde vinham cerca de 2.000 pessoas e muita mercadoria, por isso tivemos muitas paragens. A viagem foi muito longa e com tempestade pelo meio, mas nós como éramos crianças, nem nos apercebíamos do perigo e do terror que as pessoas viveram.
As principais diferenças que encontrei do Brasil para cá, foi nas casas e paredes, que lá eram todas pintadas a branco e aqui, embora fosse bonito o granito e as lousas dava um ar um pouco mais triste. E claro, o nível de vida, pois cá viviam-se tempos de muita miséria, era o tempo da IIª Guerra Mundial e do racionamento.
Não havia pão nem açúcar, por isso não se vendiam sandes nos cafés e chegava-se a adoçar o café com rebuçados, o que não era nada agradável. Felizmente que nós tínhamos um pouco de terra onde se tiravam muitos alimentos, daí que recebíamos muitas pessoas a pedir esmola, em comida claro. Tive de repetir a 4ª. Classe e fui integrado numa turma de cerca de 80 alunos, todos a cargo da D. Ida Eiras, uma grande trabalhadora ! Dava aulas de manhã à noite e teve de ficar com a 3ª e 4ª classes, com muitos repetentes, pois no ano anterior tinham chumbado todos os alunos que fizeram frente ao prof. Laje, que dizia-se ser muito rude com eles. Dessa turma tão grande lembro-me assim de repente doutros rapazes como o Daniel “Furtado”, Domingos Simões, Paulino e José Branco, Francisco Gaifém, Carlos da “Carlotinha”, Mário Belo, Mário Ramiro, Quenor Ribeiro… “.
Estudos em Esposende e Secretário na JOC
E a sua juventude como foi vivida?
C. Mariz- ” Acabada a escola fui para o Colégio Franco-Lusitano em Esposende, onde fiz o 3º ano e mais tarde o 6º. , com exames feitos em Viana do Castelo. Entretanto entrei para a JOC, onde estive vários anos como secretário. Nessa altura realizamos várias peças de teatro, organizadas pelos rapazes da JOC, com a música de piano tocada pelo Paulino Campos e às vezes com uma ajuda do Padre Manuel Borda. Com o Júlio Fontes à cabeça foi criada a Conferência de S. Vicente masculina, que era uma organização para ajudar os pobres, principalmente em géneros alimentícios. Nunca mais me esqueci quando fomos levar leite a um pobre paralítico que morava no “Alto” e as suas lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. Por esse tempo também nos divertíamos a jogar futebol aos fins-de-semana e nas férias, com outros
estudantes, na sua maioria seminaristas. Acabados os estudos entrei como estagiário na repartição de Finanças de Esposende em 1942”.
Entrada para os CTT, onde construiu uma carreira sempre em ascensão e gratificante
Como começou essa carreira de tanto sucesso?
C. Mariz- ” Estava eu ainda nas Finanças, quando vi um anúncio para os CTT, em 1943. Fui então fazer exame para admissão, que correu bem e entrei pouco depois. Ainda voltei a ser chamado para as Finanças, mas já tinha sido promovido a Operador nos CTT, com boas perspectivas de subir ainda mais e não aceitei sair. Entrei ao serviço em Guimarães, mas não muito tempo depois vim para Fão, no posto que ficava por cima do antigo “Galo d’Oiro”, onde está a drogaria Bom Jesus. Passei ainda por um período de grande mobilidade. Andei por Lisboa, Braga, Trofa, Pernes (Ribatejo) e Fafe. Em 1947, altura em que casei, fiquei como efectivo em Fão, ocupando o lugar deixado vago pela Maria Augusta Teixeira. Após novas promoções vim parar a Esposende como 2º Oficial, em 1959 e mais tarde para Braga, sempre a subir profissionalmente. Depois fui para Lisboa, indo chefiar uma das 6 zonas postais, onde tinha 950 colaboradores. O bom trabalho aí desenvolvido, numa grande reestruturação e organização dos serviços, curiosamente criou-me algumas dificuldades para conseguir voltar a Braga, onde sempre tive a minha casa e família. Consegui-o com algum custo, o que me satisfez bastante, até porque Braga passou a ter outro estatuto e autonomia que não tinha. Fiquei a chefiar uma vasta região postal, que para além de Braga, tinha Mondim de Basto, Ribeira de Pena e Santo Tirso, com mais 1.200 homens a meu cargo. Pelo meio ficou uma carreira de muitas conquistas, a maior parte delas reconhecidas, desde vários projectos e estudos feitos, planos de actividades e formação interna. ”
Uma companhia perfeita
Fale-nos como conseguiu conciliar essa mobilidade com a família
C. Mariz- ” A minha esposa Cesaltina Mendanha Gonçalves, veio muito pequena de Fonte Boa para Fão, para casa do seu tio o Celestino Pires, que para além da Farmácia, no Largo da Praça, na antiga “Casa Solinho”, também abriu mais tarde uma loja de tecidos onde está o Salão de Cabeleireiro do Aníbal, e onde ela trabalhava com a prima Augustinha. Ora eu nessa altura, passava pela farmácia, que era onde se juntavam vários homens em interessantes cavaqueiras. Pela proximidade acabei por a conhecer, surgindo mais tarde o namoro e o casamento. Foi uma grande companheira, como mulher, amiga e mãe, ajudou-me muito a todos os níveis e a sua falta recente afectou-me bastante. Lembro-me de quando a fui apresentar à minha avó como minha noiva e ela talvez pelos tempos difíceis em que se vivia, nos disse:-“Ó menina vai passar muita fome!”. Custaram-me muito aquelas palavras, até porque eu tinha consciência que lhe podia, como pude, proporcionar boas condições de vida. Ela sempre me apoiou muito, apesar de às vezes estarmos distantes. A partir de 1964 fomos viver para Braga, até 1993, já então reformado desde 1988, e claro, sempre que podia, vinha com ela e o nosso filho Carlos Miguel, passar algum tempo a Fão.
Depois de reformado ainda cheguei a ter casa no Porto, para viver perto das minhas netas, filhas do nosso Carlos, que entretanto se tornou médico e cirurgião pediatra, que actualmente também opera aqui em Fão entre outros Hospitais. Foi outra paixão poder acompanhar o crescimento das pequenitas, ir buscá-las à escola, dar-lhes as refeições, enfim aquelas pequenas coisas que satisfazem muito o nosso coração já maduro. Mas ao fim-de-semana lá vínhamos para a nossa casa de Fão.”
Analisando o desenvolvimento de Fão e falando do seu envolvimento com esta terra.
Como viu o desenvolvimento de Fão ao longo dos tempos e como se envolveu na sua vida social e estudo do seu património?
C. Mariz- "Indiscutivelmente que a construção do restaurante e mais tarde do Hotel Ofir, provocou um grande crescimento em Fão, originando como consequência imediata a procura da praia e a construção de casas e vivendas por toda a zona de Ofir. Aumentou o emprego, o comércio cresceu com o maior número de visitantes e surgiram novas oportunidades. Bem, a par disso dá-se a grande onda de emigrantes para a França e Alemanha, o que veio trazer melhor nível de vida para muitas famílias fangueiras.
Eu para além da JOC, também fiz parte das direcções dos Bombeiros e do Clube Fãozense como secretário e fui ainda Juiz da Confraria do Senhor Bom Jesus, um convite formulado pelo Prior Nogueira, tendo como colegas da direcção o Arlindo Cardoso e o José Domingues da Venda. Logo no princípio tivemos de organizar as Festas de Fão, pois a Comissão tinha abandonado funções.
Comecei a escrever no “Cávado” e colaborei também no “Fangueiro” a pedido do António Esteves e mais tarde no “O Novo Fangueiro” do Armando Saraiva, que me incentivou a escrever sobre a história do Bom Jesus e seus benfeitores, pois sabia que eu já tinha feito um apanhado dos valiosos documentos do seu espólio. Foi um trabalho que durou cerca de 4 anos nas páginas do jornal, que ficou com uma pequenina parte por concluir. Mas eu não tinha muito tempo para escrever, apesar de gostar muito, pois a minha actividade profissional ocupava-me muito tempo para além do dia normal de trabalho. Também fiz um trabalho sobre o aparecimento, a história dos CTT no concelho e quem lá trabalhou, com a colaboração do Artur L. Costa, aquando das comemorações dos 100 anos do nosso posto. Por exemplo e para se ver a importância de Fão na época, para justificar a abertura desse posto em 1889, focou-se o facto de em Fão haverem mais de 50 comandantes da marinha e ser a terra mais importante do concelho, quer a nível de comércio, quer na indústria. Fizemos então e na altura (1989), uma pequena publicação para essas comemorações, em que colaborou a nossa Junta. Ainda no ano de 2000, quando a Santa Casa da Misericórdia de Fão comemorou 400 anos, escrevi um livro sobre a sua história e um resumo da história de Fão, desde 800 a.c..”
O Fão dos nossos dias, é uma terra limpa e agradável para se viver e visitar
Como vê a terra no conjunto dos seus equipamentos, património e a preservação do mesmo?
C. Mariz- ” Fão teve obras muito importantes que valorizaram muito a terra, como foi a construção do novo Quartel dos Bombeiros (uma obra muito importante!), não no melhor sítio é certo, mas onde foi possível na altura. O Lar, o crescimento do nosso Hospital e agora o novo Centro de Saúde, foram também obras de monta para a terra. Já o Centro Cultural e o Salão Paroquial, não foram obras tão felizes pois tem algumas lacunas e poderiam ser mais bem aproveitados. Ah…e o Museu, também me parece um pouco acanhado nos seus espaços.
Quanto ao património, de uma forma geral penso ser bem preservado em Fão. O do Bom Jesus é riquíssimo e merecia outro tratamento, pois tem lá um espólio fantástico e valioso a todos os níveis, como a própria imagem que é do século XVI. Pena termos perdido os nossos Órgãos de Tubos, construídos pelo Inácio Turra a pedido do Prior Gonçalo Viana, que tínhamos no Bom Jesus e na Matriz e foram desmantelados e destruídos. Veja por exemplo o de Esposende como foi recuperado e que bonito ele está. Esses órgãos foram comprados através de um peditório público e uma parte considerável dada pela Santa Casa, com o compromisso de ele tocar nas suas cerimónias, entre as quais na Semana Santa, que eram umas festas religiosas de monta noutros tempos.
Temos as nossas igrejas bem conservadas e são monumentos muito bonitos. Por exemplo a Igreja da Misericórdia teve uma recuperação notável. A talha da capela da Lapa, segundo alguns especialistas, é única em toda a Península.
Fão teve um desenvolvimento interessante, pois é ainda uma terra muito atractiva e limpa. Temos um conjunto de Instituições com uma actividade de grande dinamismo e bons trabalhos a nível desportivo, social e cultural. É certo que a televisão e a internet afastaram um pouco as pessoas, mas isso acontece em todo o lado. A nossa Junta de Freguesia, acho que também tem uma boa actividade para a dimensão da vila.”
Assim, tivemos o prazer de conversar com um homem de grandes dotes e conhecimentos, o que há muito ansiávamos fazer e foi inquestionavelmente muito enriquecedor. Um exemplo a seguir principalmente no que se refere à valorização do que é nosso e de quem ainda esperamos alguma colaboração, pois tem várias coisas por divulgar com muito interesse cultural e patrimonial para a terra e para aqueles que se preocupam com a sua história. Homens como este é que nos motivam, pois apesar das limitações do seu tempo, nunca esmoreceram e tentaram trazer para o presente e para o futuro, o que estava adormecido nas brumas do passado, passado esse muitas vezes escrito com páginas de ouro na história de Fão!
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Fotos, de cima para baixo:
1-Avó Joaquina Gonçalves Pequeno
2-Tio Joaquim Mariz, que ofereceu a Cantina Escolar
3-Com alguns colegas da JOC, Armando Gageiro, "Neca Peralta", Paulino Campos, Júlio Fontes, João "das Colitras", Neca Mata, José Araújo Costa ("Zeca Saragoça") e outros...
4-Equipa de futebol do Colégio de Esposende
5-Com a esposa
6-Casal Mariz com o filho Carlos
7-Esposa e um dos primeiros automóveis em Fão, do seu tio Celestino Pires
8-Procissão do Senhor Bom Jesus, uma das maiores da história, ocorida a 6 de Maio de 1956, em que o povo fez promessa pela saúde do Prior Nogueira, que acabou por melhorar, embora falecesse no ano seguinte. Esta procissão calcula-se que teria cerca de 1 quilómetro de extensão.
9-Com o Padre Manuel Palmeira, fangueiro, que faleceu muito novo.
10-Casal Mariz com o sobrinho Sérgio, filho de seu cunhado, o Prof. Mário Ramiro
11-Foto do casamento em 1947.