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HELENA DOMINGUES REIS NEIVA

Nascida em Fão no longínquo ano de 1917, a “Heleninha”, como sempre foi conhecida por todos nesta Vila, fez-se enfermeira, de improviso e por necessidade, mas tornou-se uma verdadeira profissional na difícil tarefa de administrar injecções nos mais diversos lares de Fão, sendo uma pessoa muito querida por todos.

A “Festa das Viúvas”, no tempo dos avós

Dos tempos mais longínquos, D. Helena lembra-se bem das avós Ana e Rosa e a bisavó Deolinda, mas os avós não conheceu por terem morrido cedo, tudo gente de Fão.
Sua avó materna Rosa Domingues Assunção, casou mas não teve filhos do marido que emigrou para o Brasil, onde veio a falecer. Voltou a casar com Sebastião Reis, que curiosamente era possuidor de bombos e caixas, que costumava alugar para festas, entre as quais a “Festa das Viúvas”, que se fazia quando alguma viúva voltava a casar. Esta tradição, segundo a “Heleninha”, tinha como palco o Largo Amândio Teixeira, muito perto, portanto de sua casa na actual Rua Poeta Vinha dos Santos e desenrolava-se à noite. Mas, quando foi o seu casamento, ninguém teve a iniciativa de fazer essa festa, já que sua noiva era viúva, talvez pelo respeito que lhe tinham. Por isso mesmo, não voltou a alugar os bombos para esse tipo de festa. No entanto a sua esposa veio a fazê-lo, quando voltou a enviuvar e pela necessidade por que passou. O seu avô sempre manifestou o receio que tinha em vir a educar filhos. Acabou por ser pai de 5 filhas, mas quis o destino que não as viesse a educar e ver crescer, pois faleceu ainda muito novo.
Sua mãe Altina Domingues Reis, tal como sua tia e madrinha Helena foram 2 dessas filhas, sendo que a sua mãe veio a casar com João Fernandes Neiva, seu pai. Teve apenas 2 irmãs, mas uma morreu bebé a outra Altina, morreu talvez com menigite aos 6 anos, apesar dos esforços do seu médico Dr. Júlio Pimenta.

As “Cacadas” tradição de gerações

Como outras senhoras do “seu tempo” já nos haviam contado, a Helena Neiva também se recorda da diversão que eram as “Cacadas”, durante 3 dias na altura do Carnaval.
D. Helena- ”Já no tempo da minha bisavó havia esta tradição, portanto por volta de 1850. contava que ela mesmo velha andava com o neto e carregando uma “jiga” a atirar as “cacadas”. Eu também me diverti com essa brincadeira com as minhas colegas, entre as quais destaco a Palmirinha Borda. Outras colegas do meu tempo de menina eram a Lulu e a irmã Quinhas, a ”Lindinha Furtada”, a Lai-Lai e a ”Dina da Amandina”.
Também eram tradição em Fão as festas de S. Pedro na zona da Areosa e S.João no Cortinhal, no tempo do senhor Prior Nogueira. Era uma grande diversão, mas quando às 4 horas tocava para a igreja, era a debandada geral, mesmo os namorados.
O exame da 4ª classe, fi-lo em Esposende obtendo o 2º grau e foram comigo de Fão o Manuel “do Antero” e o ”Neca Rosinha” e já tinha como professora a D.Zulmira
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Bordadeira, esposa, “enfermeira” e viúva

D.Helena
- ”Com a Belmira “Calafate” aprendi a arte de bordar, e isso deu-me muito trabalho, especialmente para fora e foi uma coisa que fiz até aos 86 anos. Por finais dos anos 30, o Rufino Barreiro, veio de Rio Tinto para se estabelecer em Fão e teve como empregado o seu irmão Salvador da Silva Barreiro, por quem me apaixonei e acabei por casar em 1943. Ele nessa altura já estava estabelecido por sua conta em Criaz, mas frequentava muito Fão, sendo muito amigo do Manuel Domingues da Venda, irmão do Joaquim e do António “Miguel”. Mas a sorte não quis nada connosco e pouco depois ele havia de adoecer com tuberculose e como era muito rebelde, pensava que só com os medicamentos se curava, sem ter de recolher à cama e descansar. Ele tinha de tomar injecções de estreptomicina que eram caríssimas e quando piorou, com a regularidade de 3 em 3 horas. Teve então que recolher definitivamente ao leito, entregando a loja ao cuidado do Alfredo “Cavaca”, que passava lá por casa para levar a chave do estabelecimento. Quem o acompanhava na doença era o dr. Barrote e as injecções eram dadas pelo António “Brajeiro”, que acabou por desistir dessa missão. Então o médico ensinou-me a ministrar as injecções, apesar de eu me sentir muito insegura. Bem, mas a necessidade e o hábito acabaram por tornar isso uma rotina.
Em 1949, meu marido falecia deixando-me com dois órfãos muito pequenos, o Salvador e a Maria Armanda, com 5 e 4 anos respectivamente”


Entrando de casa em casa, recebida com alívio e com terror

D.Helena
- ”Sabendo da minha experiência, os vizinhos e amigos começaram a pedir-me para ir a suas casas quando havia alguém necessitado de injecções. É que nesse tempo o Hospital de Fão não tinha serviço permanente e ambulatório e estava fechado à noite. Ás vezes era preciso quase pernoitar para dar injecções durante períodos muito curtos, principalmente aos tuberculosos. Assim fui vivendo com muitas dificuldades, dos bordados e das injecções, tendo sido ajudada pelos cunhados Rufino, Ceuzinha e mais tarde a sobrinha Lili, que foi sempre uma grande amiga. Durante muito anos fui dando injecções por todo o Fão e era muito acarinhada por isso, mas um dia alguém fez queixa de mim à Direcção Geral de Saúde, que me intimou. Mas o Dr.Barrote, fez uma carta a atestar as minhas competências e não voltei a ser incomodada. Corri todas as ruas de Fão desde madrugada às altas horas da noite, mas nunca fui molestada por ninguém. Muita gente não tinha dinheiro para me pagar os serviços, mas em contrapartida alguns davam-me produtos agrícolas e peixe.
Entrei nas casas mais ricas, mas também nas mais humildes e vi muita miséria, presenciando muitos dramas familiares, que a doença e a morte não poupavam. Se por alguns era vista como o “bom anjo”, que vinha ajudar a curar, outros viam-me como a “Satanás”, principalmente pela fobia e terror que tinham às injecções.”


Histórias de “picadelas”

D. Helena
- ”Uma vez fui dar uma injecção a um filho da , que mais tarde foi para o Brasil e ele aterrorizado, fugiu com a agulha espetada.
A Aurora “Barraca”, entrava em paranóia quando tinha de levar uma injecção. Não parava de me insultar com o medo que tinha e o filho António, pai do Né Vieira, tinha de pedir ajuda para segurarem nela.
Uma vez apanhei um grande susto quando vinha à noitinha das Pedreiras de casa dos Solinho e perto da Camareira, passa uma bicicleta por mim, que para mais à frente e se aproxima. Eu aterrorizada vi-o chegar mais perto. Depois para grande alívio meu identificou-se (era mesmo um conhecido) e disse que vinha acompanhar-me, para que fizesse a viagem em segurança até casa. Bem, mas lembro-me de ouvir muitas crianças aos berros e a chorar mal me ouviam a bater à porta.”


Apaixonada de Fão e “emigrada” em Esposende

A ”Heleninha”, vive já há 15 anos em Esposende, para onde foi por ter lá a sua filha, com quem vive actualmente. Confessa que lhe custou um pouco essa mudança, pois adora a sua terra, mas também fez muitos amigos em Esposende, tendo ainda aplicado as suas injecções no traseiro de alguns esposendenses que a solicitaram e ainda de muitos fangueiros que a vieram procurar.
D.Helena- “Uma das pessoas com quem fiz melhor amizade foi o Padre Delfim, um homem fantástico e um sacerdote exemplar que me faz lembrar em alguns pormenores, o saudoso Prior Nogueira, ambos muito dinâmicos e generosos. Enquanto pude fui muitas vezes a Fão a pé, visitar a minha terra tão linda e alguns amigos, mas agora só se me levarem, mas sinto um grande prazer.
Sei que a terra não é bem a mesma coisa, perdeu a vida que tinha no centro e está a crescer para a zona dos Lírios. Ah!...Que saudades do tempo em que passava a camioneta do Linhares e parava à porta do meu cunhado Rufino. Tenho muitas saudades do meu Fão, de outros tempos em que todos se conheciam, ajudavam e preocupavam uns com os outros. Saudades das pessoas, os bons vizinhos, o convívio muito estreito, pois todos se respeitavam.”


Nos seus quase 90 anos, a D.Helena mantém uma vivacidade, uma memória privilegiada e aquele sorriso natural que conhecemos durante décadas, que conseguia dissipar um pouco o terror que sentíamos enquanto preparava e esterilizava a seringa e as agulhas, sentindo ainda nas narinas o cheiro do álcool ardendo. Uma pequena grande mulher, que encarou de frente as grandes adversidades da vida e espalhou amizade e popularidade na terra de seus avós, na sua terra, na nossa terra… José Belo