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Professor Pio Rodrigues

A História Local é constituída por todo um vasto leque de factos que, no decurso do tempo, ditaram o percurso, suscitaram mutações e introduziram marcas que perduram até aos nossos dias. A história das localidades foi e vai sendo construída por distintos e notáveis agentes sociais, políticos, económicos e culturais que, de forma individual ou colectiva, determinaram um rumo para o desenvolvimento da freguesia, que desempenharam um papel de destaque, quer pela sua conduta, quer porque representaram e ainda significam um modelo de sabedoria e de integridade. É ela que faz com que nos identifiquemos entre nós, ultrapassando a barreira das diferenças e particularidades pessoais, e que sejamos, no conjunto, uma única e homogénea comunidade que partilha e detém uma herança e um património comuns.
Uma vez que a nossa vila possui um vastíssimo espólio e é rica em individualidades que vão desde o campo das artes até às letras, é justo homenagear um homem ligado à instrução, que dedicou a sua vida ao ensino e cuja acção foi direccionada em prol do bem comum, ou seja, em função do desenvolvimento de Fão: Professor Pio Rodrigues.
Nascido a 25 de Março de 1907, numa pequena e recôndita aldeia designada Gondar, concelho de Caminha, Pio Rodrigues ingressou e prosseguiu os seus estudos no Magistério Primário de Braga. Figura galante, desde cedo cativou o interesse das jovens raparigas que o conheciam, porém a sua atenção e os seus sentimentos tornaram-se cativos de uma nossa conterrânea de seu nome professora Zulmira Borda.
Personagem exemplar e distinta ao longo do seu percurso estudantil, o professor Pio Rodrigues diplomou-se em 1926. Conquanto, devido às dificuldades de colocação inerentes à profissão docente, apenas em 1934, na sequência da efectivação da futura cônjuge na escola de Fão, é que se estabeleceu na nossa vila onde, um ano mais tarde contraiu matrimónio. Sob o ponto de vista profissional, José Pio Rodrigues foi um exemplo e permanece um modelo de amor à profissão, visto que “vivia para a escola”. Pode-se afirmar, sem reservas e sem espaço para dúvidas, que era um indivíduo vocacionado para a educação, que amava os seus alunos como forma de colmatar algumas das suas carências afectivas e dificuldades económicas, que impunha a sua postura altiva e austera, não como forma de distanciamento ou reveladora de uma personalidade hostil mas antes como via e método de incutir, nos alunos, valores de honestidade, de lealdade, de humildade e de grandeza de espírito. A rígida disciplina que o caracterizava era meramente sinónimo de responsabilidade e de civismo.
O professor Pio Rodrigues foi, desde sempre, um homem de bom fundo, humano, sensível e extremamente caridoso. Muitas foram as vezes, aliás era uma situação recorrente, em que vários discípulos almoçavam em sua casa e que auxiliava aqueles que eram mais necessitados. Fundou a “Caixa Escolar”, uma associação que visava angariar fundos que permitissem preparar sopa para o almoço dos que, por motivos económicos, não dispunham de meios e de bens alimentares para se manterem devidamente nutridos.
Pode-se, igualmente, apontar que era uma pessoa “moderna” e liberal para a época e que contribuiu para que a escola de Fão fosse uma escola de vanguarda, de “requinte”e a mais avançada da região. Ora vejamos: apenas aqui se dispunha de cadernos timbrados, onde figurava a expressão Caixa Escolar de Fão e que tinham como finalidade o registo de trabalhos realizados pelos discentes, foi o percursor dos passeios escolares, abertos à comunidade, e da realização do magusto e o responsável pela celebração da data histórica do 1º de Dezembro, na qual se contava com a presença de convidados de vulto e se procedia à entrega de prémios dos quais destacamos o Prémio de bom comportamento e o Prémio de carácter.
Dentro e fora do estabelecimento de ensino, Pio Rodrigues jamais despiu a pele de educador, privilegiava e trabalhava para o sucesso escolar dos alunos, fazia questão de que estes completassem os seus estudos, lamentava quando alguns dos seus instruídos não prosseguia a formação por falta de recursos económicos, não obstante terem aptidões intelectuais bastante desenvolvidas e patentes. Colateralmente, era imparcial, não distinguia os alunos pela sua origem familiar ou social, era deveras exigente e duro e o resultado foi que os seus alunos eram os mais bem sucedidos em termos concelhios e regionais. Prova disto é que em 40 anos de serviço nenhum dos seus estudantes ficou retido no antigo e extinto exame da 4ª classe.
Durante toda a sua existência, José Pio Rodrigues sempre manifestou interesse pelo saber, era muito culto, gostava de ler e de escrever, inclusive alguma poesia. Foi colaborador e correspondente de periódicos altamente importantes e de fiabilidade publicamente reconhecida como O Século, O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto, O Cávado e A Voz do Minho.
No âmbito familiar, tentou sempre criar condições que suscitassem nos filhos o prazer da leitura e a consciência da necessidade e de se estar informado. Importa referir que a sua postura liberal o levava a sugerir e nunca a impor qualquer género de obrigação aos seus descendentes. Procurava, antes, que sentissem a relevância e que conhecessem o significado das palavras dever e modéstia.
Ao mesmo tempo, era um homem que nunca se apartava dos mais humildes e que era amigo e confidente do, não menos saudoso, Prior Nogueira. Juntos escutavam, debatiam e solucionavam problemas e questões comuns e pessoais.
Por outro lado, revelou ser prestativo, na medida em que auxiliou os trabalhos na Santa Casa da Misericórdia de Fão, na feitura de ofícios e de outros documentos de ordem burocrática que funcionavam como suporte à máquina administrativa.
Muito mais se poderia mencionar acerca de José Pio Rodrigues no seu papel enquanto professor, todavia é necessário voltar a nossa atenção para outras das suas realizações, para outro seu cargo, o de presidente da junta de Fão.
No seu desempenho como responsável pelo rumo da nossa terra, o presidente Pio Rodrigues primou pela sua honestidade e rectidão. Não hesitou, em circunstância alguma, em colocar e elevar os problemas da terra acima das relações de amizade ou, até mesmo, familiares. É a este homem que se deve a decisão de calcetar algumas ruas, a plantação de árvores, iluminação, de levar adiante a campanha do cimento cujo produto consistiu na pavimentação do interior do cemitério de Fão, mais especificamente das zonas destinadas à circulação pedonal e, ainda, a redacção do primeiro ofício, bem como a movimentação de esforços que visavam a elevação da nossa localidade à categoria de vila. Esta iniciativa data de 1970, ano em que a sua saúde se encontrava já debilitada.
Pio Rodrigues já não assistiu à concretização desta sua ambição, desta sua pretensão (que se deu em 1976), uma vez que desapareceu de entre os seus entes queridos e de todos os fangueiros a 3 de Janeiro de 1971, aos 63 anos de idade, vencido na luta que travou com a doença que o vitimou.
Após o seu óbito foi instituído o Prémio Pio Rodrigues, ambicionou-se e avançou-se no sentido da criação da Fundação Pio Rodrigues pelas mãos e iniciativa do Dr. Armando Saraiva. Infelizmente, esta instituição não resistiu aos tempos imediatamente posteriores ao seu nascimento.
O eclipse do professor Pio Rodrigues foi e é apenas físico, dado que permanece vivo na memória de todos os fãozenses, persiste em conceder a sua luz àqueles que o encaram como figura modelar, continua a fazer pulsar os corações saudosos e nostálgicos dos alunos, a sua marca está inscrita e o seu cunho gravado por toda a vila. Em Fão todos se recordam do professor, deste indivíduo respeitável e admirável, todos, mas todos os que o conhecerem são incapazes de disfarçar a comoção que os acomete quando ouvem o seu nome e que se manifesta no humedecer dos olhos. Todos soltam um suspiro que revela o respeito com que encaram este ser absolutamente único que ininterruptamente dignificou a profissão e a nossa terra.
Escassearam as palavras, foi insuficiente a tinta da caneta e rareiam as expressões e as figuras de estilo para descrever, da forma mais próxima da realidade, o sentimento, a saudade, o orgulho, o respeito e a admiração com que as professoras Maria José Borda Rodrigues e Fernanda Borda Rodrigues falaram do pai e cederam, gentilmente, informação que tornou possível escrever este perfil que tanto nos honra.
Para os mais jovens, este texto concede a oportunidade de saber quem foi e de conhecer o que fez a pessoa, o excepcional homem detentor do nome que consta na placa de uma das nossas ruas… o nosso estimado e a quem estamos sobejamente gratos, Professor Pio Rodrigues.