José Ribeiro Maia
Em Fão, antiga sala de espectáculos, palco de admiráveis e memoráveis representações que viu nascer e se afirmar grandes artistas das cordas, da voz, da representação, da idealização e concretização de peças do teatro-revista, ainda se escuta, em momentos de silêncio, o ecoar dos aplausos, o harmonioso som da guitarra e as vozes que entoavam o fado, que cantavam a sua terra e que transportavam a alegria… Perdura, até hoje, o bairrismo fangueiro que teima em resistir ao desgaste do tempo, preso na memória dos mais velhos e presente no coração de todos aqueles que participaram e vivenciaram as extintas noites de serão e que privaram com os grandes mestres e impulsionadores do teatro-revista de Fão, em particular com aquele a que Mário Belo e Armando Barbosa afirmam convictamente ter sido um homem que embora não sendo de Fão, era mais fangueiro do que muitos fangueiros: José Ribeiro Maia.
Decorria o ano de 1914 quando, em Viana do Castelo, na Praça da República, no dia 30 de Outubro, nasceu José Ribeiro Maia, filho de Joaquim Maia, Sargento e membro da banda do Regimento de Infantaria 3, e de Águeda Maia, costureira de profissão. Na sequência do fim da carreira militar do seu progenitor, José Maia veio viver para Fão juntamente com seus pais e irmãos.
Em terras fangueiras, conheceu, enamorou-se e contraiu matrimónio com Guilhermina Morais da Costa (“Mimi Glória”), irmã de Ernestino Sacramento e de Francisco Costa, família já ligada à vida e ao mundo do teatro.
José Ribeiro Maia foi multifacetado em termos profissionais tendo sido alfaiate (arte que aprendeu com a mãe), cobrador de bilhetes de autocarros na empresa Linhares, despenseiro no Hotel Ofir e responsável por dois cafés: inicialmente pelo “Café Maia” e, posteriormente, pelo “Café do Rio”, em 1971.
A morte de Ernestino Sacramento representou um ponto de viragem no percurso artístico de José Maia. De actor (arte que executava com todo o esplendor, cativando o público e mantendo-o fiel e rendido ao seu talento) passou a desempenhar um papel mais activo no que concerne à organização de passeios ao Teatro Sá da Bandeira, no Porto, bem como no que respeita à composição e direcção de revistas em Fão.
Foram várias as condições que favoreceram e tornaram possível a emergência de José Ribeiro Maia enquanto responsável pela direcção e projecção de revistas fangueiras. Podemos destacar o facto de Maia ter convivido intimamente com os impulsionadores das antigas revistas, nomeadamente, com Ernestino Sacramento e Francisco Costa, assim como de ter conservado amizades dessas mesmas peças e, finalmente, porque o café era um ponto de encontro onde aconteciam desgarradas, convívios, guitarradas, serões artísticos, enfim, toda uma permuta de ideias, de afinidades e de conhecimentos.
O ano de 1952 assistiu à realização de um espectáculo no Hotel Ofir, solicitado por Sousa Martins e cuja finalidade era a de ser apresentado a um grupo de turistas ingleses. O grupo interveniente era liderado por José Maia, do qual faziam parte integrante os filhos, Dulce e Carlos Maia com 12 e 9 anos, respectivamente.
Em 1955, é concebida e apresentada publicamente a revista “ Ora Chupa que se apaga”, que contou com a participação dos Drs. Alceu e Abel Vinhas, de Diamantino dos Santos, de Mário Belo e de Manuel Cardoso, mais conhecido como “Neca Paralta”. Zé Maia dirigiu e ensaiou, ainda, as revistas “Não se fala mais nisso” e “Ofir também é Fão”. A título de curiosidade pode-se referir que estas revistas e seus textos foram submetidos, à semelhança de outros documentos da época, à acção da censura.
José Maia, homem inconformado com as desigualdades sociais, defensor e partidário de um ideal político que se opunha ao vigente salazarismo, reunia todo um leque de características que o destacavam dos demais: era alegre, disciplinador, integro, decidido, detentor de ideias convictas e firmes, possuía o dom natural de ser conciliador e de ser exímio no que respeita à gestão humana.
Muito mais se poderia proferir acerca desta figura humana, deste exemplo de frontalidade, de eloquência, de entusiasmo e de bairrismo. Tanto se poderá admirar na sua capacidade de recrutar “soldados” para a causa do teatro e de os colocar a brilhar nos palcos, de construir um grupo coeso, de ensaiar, solicitar participações e de cativar pessoas distintas, de quadrantes sociais diversos e com aptidões diferentes entre si. Segundo Dulce Maia, o seu pai “nasceu no local errado. Devia ter nascido noutro meio e noutro tempo”pois “deixava tudo, até de comer em prol das revistas”.
O desaparecimento de José Ribeiro Maia aconteceu no dia 20 de Maio de 1985. O teatro-revista fangueiro ficou de luto, encontrou-se mais pobre e sentiu-se órfão. Havia-se perdido uma das suas grandes figuras, um dos mais competentes actores, um dos seus maiores apaixonados.
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Desde então, algumas iniciativas dignas de registo emergiram no sentido de dar continuidade à tradição pelas mãos de Carlos Maia, de Mário Belo, de Armando Barbosa e de Armando Solinho.
No entanto, continua a existir uma lacuna no cenário cultural de Fão, jamais alguém ocupará o lugar deixado vago pelo insubstituível Zé Maia. A verdade é que Fão perdeu um dos homens que sempre se preocupou com os interesses e problemas da terra, que procurou contribuir para as necessidades financeiras das instituições através da doação das receitas obtidas com as revistas e que seria, de acordo com as perspectivas de Carlos e Dulce Maia, merecedor de uma pública e sentida homenagem. Segundo os testemunhos recolhidos, José Ribeiro Maia foi votado ao esquecimento!
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É isto que se sente: alegria, orgulho, admiração, respeito e profundo agradecimento. A última revista dirigida por José Ribeiro Maia, de 1982, designava-se “Recordar é Viver! E é isso que continua a acontecer. Porque o que resta é a saudade!



