Fechar

Ernestino Morais Sacramento

Ernestino Morais Sacramento nasceu na freguesia de S.Paio de Fão (era esse o nome na altura) em 4 de Maio de 1890, sendo filho de Manuel Bernardo de Sacramento e Maria das Dores de Moraes.
A casa de nascimento situava-se na rua do Ramalhão, onde viveu a sua infância juntamente com as suas irmãs Guilhermina, mais nova, e Ilídia mais velha.
Ingressou com 9 anos na escola primária Amorim Campos, no ano da inauguração, e depois estudou na Póvoa de Varzim e no Porto onde se especializou em Finanças, em que exerceria mais tarde como fiscal de impostos e aspirante nas repartições de finanças de Esposende e Vila do Conde.
Por volta dos 21 anos emigrou para o Brasil, ainda solteiro. Regressado do Brasil foi-lhe dada a alcunha de “Tenente”. Deste país trouxe o hábito do chapéu Paraná, da feijoada brasileira, do cafezinho e também as modinhas que por lá se tocavam.
Em 1916 teve inicio a 1ª Grande Guerra mas não foi convocado para o serviço militar.
Tinha uma habilidade natural para a música e tocava bandolim e violão e a combinação entre a sua boa figura e o fulgor artístico faziam dele um personagem atraente. Organizava serenatas e tornava-as concorridas.
Conheceu então Eulália Gonçalves, a filha mais nova de Inácio Turra, fabricante de mobiliário, órgãos de igreja (matriz de Fão, matriz de Barcelos e Trindade – Porto), pianos, carrancas de barcos (estaleiro naval de Fão) e carpintaria (portas e janelas do hospital de Fão, casa de Franklin Nunes são exemplos).
Na altura Inácio Turra morava na casa dos actuais correios, e tinha no rés-do-chão a mercearia mais importante de Fão.
Eulália era a irmã mais nova de Maria Mendes Gonçalves (Miquinhas Turra que viria a falecer com 105 anos), mãe da Zairinha e do Tino Didier, ainda vivos, e do Sebastião e do Humberto já falecidos.
Casaram-se em 1920 e ficaram a viver no actual nº 20 da Rua Padre Alaio, em Fão, casa onde residiu o Nené Glória, doada por Inácio Turra à filha. Na altura a morada referia a rua Victor Cordon (também conhecida por rua da Pedra Alta), que vai dos Correios ao rio. Esta tinha sido a primeira casa de Inácio Turra, que depois se mudou para os actuais correios aquando do falecimento da sua esposa.
Entretanto nasceu o Tininho e mais tarde a Lainha em 1923. Nesta altura Ernestino Sacramento e Eulália Gonçalves eram um casal feliz.
Ernestino Sacramento era um homem de figura proeminente. Gostava de andar bem vestido e cuidava muito da sua apresentação. Usava terno, sapatos sempre bem engraxados, “papillon” com lenço na lapela a combinar.
Ajudava com frequência os mais pobres, normalmente pagando uma refeição.
Possuía uma boa biblioteca. Como artista amava a liberdade. Como um homem das finanças tinha valores sólidos de responsabilidade e rigor.
Vivia bem, tinha uma empregada em casa, e oferecia prendas à sua esposa e aos meninos. Esta foi uma altura boa na sua vida.
Ernestino Sacramento integrava-se bem nas forças vivas da terra. Frequentava o clube Fãozense encontrando-se lá com os amigos: dr. Pimenta (clínico), Emílio (comandante dos bombeiros), Querubim (homem de finanças e poeta), Agonia (alfaiate), Penetra (lojista e grande amigo – viria a ser padrinho do filho Nené), entre outros.
Todos os anos organizava uma feijoada à brasileira, com uma receita trazida do Brasil, no dia da senhora da Bonança, no início de Setembro.
Ernestino Sacramento e família Levavam toalhas de linho e também lá ia o Padre Chaves, seu amigo.

Cantavam:

E a favela que era linda como ela
Só deixou uma saudade…
Quando me lembra do morro da favela ô…
Onde ela ô…morava…


E também:

A senhora da Bonança
Deita fitas a voar
Deita uma, deita duas
Todas vão cair ao mar.


No final da tarde havia um ritual à volta da capela, onde cantavam uma prece:

Senhora dos navegantes
Viradinha para o mar
Que proteja as nossas vidas
Que proteja o nosso lar

Anda sempre a olhar por nós
Não nos deixa naufragar
Sob as ondas traiçoeiras
Sob as ondas lá no mar


A 7 de Setembro de 1929 nasceu Manuel Gonçalves Sacramento, na rua Victor Cordon também conhecida como rua da Pedra Alta. Tininho estava com 9 anos, a Lainha com 6 e prestes a entrar para a escola. Nesta altura Ernestino Sacramento era aspirante de finanças em Esposende.
É nesta altura que a sua vida dá uma enorme volta. Eulália, sua esposa, adoeceu pouco tempo depois do parto, com uma meningite tuberculosa. Faleceu a 5 de Novembro de 1929 com 34 anos.
Este é um grande golpe na vida de Ernestino Sacramento e fica interiormente amargurado a partir desta altura. Tinha perdido os pais novo, dado que já eram falecidos na altura do seu casamento em 1920.
Nesta altura as duas irmãs de Ernestino Sacramento, Guilhermina e Ilidia, foram viver para a casa dele para ajudar a criar os meninos. Guilhermina já era viúva na altura e levou consigo os seus três filhos: Ernestino, Francisco e Mimi.
A cunhada Antónia, irmã de Eulália e da Miquinhas Turra, residente na Póvoa do Varzim, ofereceu-se para ficar com o Tininho que passou a estudar na Escola Industrial da Póvoa de Varzim. Tininho aprendeu a tocar violão ensinado pelo pai.
Em 4 de Março de 1931 aconteceu mais uma tragédia na sua vida. Faleceu a sua filha Lainha, com 7 anos, vítima de meningite tuberculosa.
Nestes anos, a tuberculose grassava pelo país e fazia muitas vítimas. Alexander Fleming descobrira o primeiro antibiótico, a penicilina, e se fosse nos dias de hoje pouca gente morreria dessa doença.
Em 1932 Salazar é nomeado o primeiro ministro de Portugal.
Talvez impulsionado pela reacção ao desgosto que sofrera, decide-se a realizar um sonho que tinha: o de levar à cena espectáculos de revista. Em 1933 põe em cena a revista “Prá Frente” em 2 actos e 14 quadros onde participaram Almeida Gomes, Lourdes Maia, Cristina Carvalho, Dalila Saraiva, Maria A. Silva, Lourdes Ferreira, Maria Ferreira, Virgínia Carvalho, Elisa Santos, Leda Calçada, Eufrásia Gonçalves, Gilda Calçada, Agonia Pereira , José Maia, Vinha dos Santos, Campos Monteiro, Alves Moreira e Campos Júnior.
Em Setembro desse ano sai uma nova revista “Sem Fios”, com 2 actos e 15 quadros onde participam Cristina Carvalho, Maria Ferreira, Lourdes Ferreira, Almeida Gomes, José Maia, Manuel Monteiro, Lourdes Maia, Dalila Saraiva, Virgínia Carvalho, Elisa Santos, Eufrásia Gonçalves e Agonia Pereira.
A equipa técnica era constituída por: Gomes Penetra (contra regra e electricista), Santos Borda (encenador), Fernandes Pereira (ponto), Gutemberg de Oliveira (caracterizador) e Filinto de Oliveira e Abel Santos (guarda roupa).
Ernestino Sacramento era o Compadre (derivado do francês “Compère”), estando sempre em cena e efectuando a ligação entre os diversos números e entre os actores e o público.
Em ambas as revistas a direcção musical foi do seu cunhado Carlos Turra, irmão mais novo da sua esposa, que chefiava uma orquestra de cinco músicos, sendo ele pianista.
Por curiosidade refira-se que os preços eram de 4$00 para cadeira de orquestra, 3$00 para cadeira simples e 1$50 para a geral.
Maria Ferreira Belo participou em ambas as revistas, assim como Zé Maia, que casaria com Mimi, sobrinha de Ernestino Sacramento. Zé Maia, inspirado por esta experiência, viria mais tarde a dar continuidade à tradição revisteira em Fão.
Indiscutivelmente Ernestino Sacramento é o responsável pela criação dos espectáculos de revista em Fão. Foi o inspirador de Zé Maia e este de Paulo Carreira no tempo do MPCC e também posteriormente, em duas gerações consecutivas.
Entretanto o seu sobrinho Ernestino casou e os seus filhos Né, Gustavo e Valdemar ficaram a viver em casa. Também a sobrinha Mimi casada com Zé Maia e os seus filhos Carlos, Bé e Dulce ficaram lá em casa.
Em 1939 foi detectada uma tuberculose pulmonar no Tininho, com 18 anos. Veio da Póvoa de Varzim para Fão para a casa dos actuais correios para ser tratado pela avó materna e pelas tias. A Zairinha Turra acompanhou este processo. Os esforços dos médicos não foram suficientes para evitar o seu falecimento com 19 anos de idade, a 13 de Fevereiro de 1940.
Ernestino Sacramento sofreu o terceiro golpe da sua vida, além da morte dos pais, com este acontecimento.
Todos os imóveis da família já tinham sido vendidos para assegurar o sustento da família e a formação dos sobrinhos.
Ernestino Costa, viria a seguir carreira nas finanças, por incentivo e orientação do seu tio Ernestino Sacramento. Foi convidado a participar no projecto de elaboração do imposto profissional, tendo trabalhado numa equipa a nível nacional. Exerceu nas finanças de Fafe, Barcelos, Porto, Esposende, Vila do Conde e Meda.
Ernestino Sacramento tinha-se mudado entretanto para Vila do Conde, onde trabalhava nas finanças, tendo alugado quarto numa pensão.
Vinha a Fão aos fins de semana. Entretanto o filho Manuel (Nené) foi viver com ele para Vila do Conde para onde foi estudar.
Ernestino Sacramento conheceu uma senhora em Fão, que tinha problemas com o seu marido. Apaixonaram-se e passaram a viver juntos, em Vila do Conde, mudando-se depois para a Maia, quando o filho Manuel foi estudar para o Porto, na Escola Académica.
Em 1947 faleceu a sua sobrinha Mimi, esposa do Zé Maia, também vítima de tuberculose.
Nesta altura Ernestino Sacramento tinha uma célula familiar com a sua companheira e o seu filho mais novo, a quem também ensinou a tocar violão. Tinha reconstruído de alguma forma aquilo que perdera em 1929 com a morte da esposa.
Entretanto em 1949 Ernestino Sacramento adoeceu. Fumava charutos desde o tempo do Brasil e também cigarros. Mais uma vez os ventos da vida sopravam perdas. Ernestino Morais Sacramento alcançou o final da estrada, junto da família que tão tardia mas persistentemente reconstruiu.
Morreu em 1 de Março de 1949, com a idade de 58 anos. O seu filho, Manuel Gonçalves Sacramento (Nené Glória), regressou à casa de Fão para as suas tias. Estava completamente órfão, aos 19 anos de idade, e era o único sobrevivente. Testemunho difícil este.
Em 1945 tinha terminado a 2ª Grande Guerra após seis anos de lutas, devaneios, horrores e racismo, contabilizados em mais de 5 milhões de mortos.
Quatro anos mais tarde tinha também terminado a vida de um homem austero, sonhador, elegante e amargurado. Uma vida que também foi uma guerra. Guerra ganha com certeza.


Ernestino Alberto Belo Gonçalves Sacramento, Eng.