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Maria da Conceição Teixeira da Silva Peixoto

O nome Maria da Conceição Teixeira Peixoto pouco nos diz ou, pelo menos, não nos remete de forma imediata para a figura que queremos homenagear no presente perfil. Todavia, se olvidarmos esta referência oficial e nos centrarmos em “Miquinhas do Peixoto” seguramente que muitos dos leitores deixarão escapar um ah de admiração, um sorriso de contentamento e expressarão um olhar nostálgico.
Não escasseiam razões que justifiquem este perfil, porém o motivo capital prende-se com o facto de esta mulher ter marcado a vida de várias gerações de fangueiros.
Nasceu em 1908, na Oliveira, em Guimarães, no local onde actualmente se situa a Pousada Oliveira na supra referida “cidade berço”, filha de Jerónimo Barros Peixoto e de Maria de Jesus Teixeira da Silva.




Filha única de um oficial da GNR, esta vimaranense veio para a nossa terra na sequência do destacamento do seu progenitor para o Posto de Fão (sito na Rua Azevedo Coutinho, antiga Areosa).
Desde sempre que esta família esteve ligada a actividades relacionadas com o comércio. Deste modo, ainda no activo, Jerónimo Peixoto abriu um estabelecimento voltado para o serviço de restaurante, sendo os petiscos a principal atracção. Posteriormente, na década de 50 de novecentos, passaram a ser proprietários da Pensão Fãozense, na qual a Miquinhas Peixoto continuou a auxiliar os pais mas, devido à sua localização (lado direito da subida para a ponte) e expropriação da casa pelo Estado, dada a necessidade de alargamento e pavimentação da estrada, a pensão teve o seu fim.





Não obstante este episódio, a arte e o deleite de bem servir os clientes levou-os a fundar uma pastelaria, cujas instalações inicialmente se situaram na Rua Pio Rodrigues e, mais tarde, passaram para o lugar actual. Nesta época, a direcção da pastelaria já estava exclusivamente na alçada da nossa perfilada que dividia esta tarefa com o marido, Celestino Fernandes Mendes (“Tino Clarinha”).
Apesar de não ter vivido a experiência da maternidade, a Miquinhas sempre demonstrou possuir um forte instinto maternal. Prova disto é que acolheu no seio da sua família três irmãs oriundas da Lixa (Adelaide, Glória e Noémia Lachado) que para Fão a vieram coadjuvar no trabalho e que acabaram por cá permanecer.





Relativamente à D. Noémia (que gentilmente nos cedeu a informação para escrever este artigo), importa referir que esta foi tratada como se de uma filha se tratasse.
No que diz respeito às características pessoais, ou, se preferirmos, à sua personalidade, Maria da Conceição Teixeira da Silva Peixoto primava pela bondade. Era, pois, uma figura piedosa que praticava o bem com exímia discrição, de modo a que não se soubesse que o fazia. Isto revela-nos que ajudar os mais carenciados nunca foi para a Miquinhas uma forma de promoção pessoal, uma vez que não pretendia ter protagonismo. Fazia-o pura e simplesmente pelo “bom coração” que tinha.
Numa altura de miséria, a sua pensão era uma espécie de “casa dos pobres”, onde se podia encontrar uma mesa de grandes dimensões onde jantavam os mais desventurados, aqueles que, pelas circunstâncias da vida, se alimentavam graças à generosidade desta mulher que podemos considerar um expoente de humanidade.
Todavia, não era apenas em sua casa que praticava o bem. Vários foram os casos e, não menos vezes, as situações em que muitos indivíduos (até membros de famílias prestigiadas) receberam em suas próprias residências alimentos oriundos deste ser exemplar. A Miquinhas Peixoto era uma pessoa triste, que carregou sempre no peito a amargura de ter perdido os pais, assim como algumas contrariedades inerentes à sua vida conjugal. Porém, este seu pesar converteu-se e manifestou-se sob a forma de amor ao próximo.
Extremamente afectuosa e deveras tolerante para com as crianças, ao seu cargo eram sempre bem cuidadas e até mimadas. De quando em vez presenteava-as com um rebuçado (acto que aos olhos actuais pouco pode significar mas que numa época de privação era motivo de contentamento por parte de quem o recebia). Paralelamente, os pais sabiam e sentiam que à sua guarda os filhos estavam bem protegidos e cuidados.
É relevante mencionar que, para além de ser dona de um grande talento para receber e servir os frequentadores da sua pastelaria e pensão, esta mulher era bastante bem sucedida a apaziguar os conflitos que por vezes ocorriam nos estabelecimentos de que era proprietária.
Bebendo as palavras da D. Noémia e colhendo delas o sentido de admiração e de saudade, podemos afirmar que a Miquinhas foi, mais do que um modelo de mulher, um exemplo de vida que adorava Fão e os fangueiros, muito religiosa (levou a cabo algumas peregrinações) e com uma devoção especial pelo Sagrado Coração de Jesus.
. Foi na nossa vila que conquistou amizades e confidentes, dos quais podemos destacar Helena Assunção, “Miquinhas Turra”, Alice Viera, “Miquinhas” da Assunção, Lurdes do Antero, Agonia Pereira e sua mulher.
A título de curiosidade parece-nos digno de referência o facto de que foi na “Pensão Guimarães” que apareceu e esteve disponível ao público o primeiro telefone e a primeira televisão em Fão. Este era motivo de atracção, mormente na década de 40/50 em que o regime vigente se via a braços com a resistência de uma oposição muito activa. Deste modo, acorriam a terras fãozenses indivíduos naturais de Apúlia e de Fonte Boa com o intuito de assistir aos noticiários e aos filmes que passavam nas matinés de domingo.
No chuvoso dia 14 de Outubro de 1975,a Miquinhas foi assistir à missa e, certamente, deixou uma prece ao santo da sua devoção… em casa, desejou e comeu uvas… foi o seu derradeiro anseio manifestado e concretizado pois, de forma súbita e inesperada, findou-se deste mundo, depois de o seu coração carregado de pureza e de amor ter decidido que chegara o momento de repousar… em paz como todos aqueles que em vida fizeram por merecê-la!
Os ares de Outono levaram a Miquinhas de entre os fangueiros… os mesmos ventos trazem-na agora ao nosso conhecimento, à nossa memória colectiva, ao reconforto de espírito dos que lhe foram mais próximos. Este é o meio que nós encontramos para melhor a rememorar e prestigiar. Porque esta não foi uma mulher vulgar, não foi! Esta foi e é a Miquinhas Peixoto!