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PADRE MANUEL FARIA BORDA

A fé que os homens têm nos outros ou em Deus (independentemente da crença) pode manifestar-se de várias e distintas formas. O perfil deste mês realça um fangueiro que dedicou a sua vida à religião e à oração e que o fez de uma forma sublime e artística: através da música.
Nasceu em Fão a 7 de Julho de 1914 e aqui veio a perecer a 6 de Março de 1992. Nestes 77 anos da sua existência, o Padre Borda não esteve apenas ligado à nossa terra mas de igual modo à cidade de Braga, Salamanca e Porto.
Na cidade dos arcebispos, frequentou o seminário e aprendeu solfejo e canto gregoriano, tendo, neste campo, sido discípulo do Padre Francisco José Galvão. Nas urbes espanhola e do Douro, estudou piano, harmonia, contraponto e fuga. A título de curiosidade, importa mencionar que este nosso conterrâneo sempre revelou ser um aluno com elevadas apetências e capacidades.
Ao longo de toda a sua actividade profissional e pessoal, o Padre Borda notabilizou-se em distintas áreas entre as quais destacamos a de compositor, de pedagogo, de regente de coros e de professor de piano e de canto gregoriano.
Ainda durante a década de 40 do século passado, este fangueiro executou quatro magníficas obras: “Te Deum”, “Cantate Domino”, “Visão Mística” e “Laudate Dominum”, por altura das comemorações da independência e restauração (em 1940), no Salão Nobre do Teatro Circo e Sala Medieval da Biblioteca Pública, ambos em Braga.
No que concerne à regência de coros, em 1944, fundou um orfeão infantil designado “Pequenos Cantores da Imaculada”, constituído por 90 alunos do Seminário de Nossa Senhora da Conceição, bem como esteve directamente ligado ao coro de Fão para o qual compôs e musicou vários cânticos, entre eles salmos responsoriais, peças orfeónicas e outros cânticos de cariz religioso.
Paralelamente, preparou a “Colectânea Jubilate: Antologia de Cânticos Religiosos”, em 1957. Esta compilação contava com canções gregorianas da sua autoria mas também de autores bracarenses como Manuel Alaio, Lima Torres, Mário Sampaio Ribeiro, Pascal Piriou, entre outros.
Tal como todos os grandes personagens da história, o Padre Manuel Borda não se limitou a compor cânticos ou a reger coros. O seu carácter ecléctico e multifacetado levou-o a pertencer à “Comissão Bracarense de Música Sacra” durante algumas dezenas de anos, assim como a colaborar, de forma regular, na “Nova Revista de Música Sacra”, compondo melodias para a nova liturgia que havia sido estabelecida na sequência da realização do Concílio Vaticano II. É, igualmente, motivo de realce o facto de este fangueiro ter publicado várias obras, todas elas relacionadas com o universo religioso e, em particular, com os cânticos.
De acordo com a opinião de especialistas na área, a forma como compôs as suas músicas deixa transparecer uma acentuada influência do cântico gregoriano e do canto popular tradicional minhoto, com especial preferência por dois instrumentos, o órgão e harmónio. Daí podemos concluir que este artista de Fão preencheu a sua vida com actividades relacionadas com a vida religiosa e com a sua crença, fazendo a ligação com a província em que nasceu.
Quando pensamos na nossa história temos de sentir regozijo pois muitos são aqueles que elevaram e levaram o nome de Fão bem alto e bem longe.
O Padre Borda viveu bastante do seu tempo na sua casa em Fão, na Rua Prior António Nogueira, onde certamente muitas das suas últimas composições foram criadas. Era no conceito dos seus contemporâneos um homem de espírito aberto, um pouco avançado para a época.
Como fundador e regente do Coro de Fão deixou marcas profundas em todos os elementos daquele Grupo polifónico e o nível alcançado criou referências a nível nacional.
A participação do Coro de Fão nas cerimónias religiosas locais era motivador da presença assídua de muitos fangueiros e até de pessoas de localidades vizinhas, tal a ambiência criada pelo nível melódico das suas intervenções.
Se pensarmos no Padre Manuel Borda, na sua figura e no seu trato normal, imediatamente somos remetidos para a imagem de um homem que viveu, sentiu e transmitiu a sua fé em Deus a todos os que privaram com ele. E se, tal como é usual ouvir-se dizer, cantar é rezar duas vezes, então podemos ter a certeza que em todos os momentos da sua vida, o Padre Manuel Borda esteve em plena oração com o Deus a quem decidiu dedicar-se e servir.