Prior Gonçalo Viana
Para tentarmos seguir o mesmo critério de falar no “Perfil” daqueles cujo nome, consta na toponímia de Fão, vamos finalmente retomar este tópico, por sinal muito apreciado e com algum interesse histórico, certos de que a falta de disponibilidade para maiores investigações, nos deixe um tanto limitados, pelo que espero nos desculpem, os mais ávidos de conhecimento. Não poderei deixar de frisar a importância do trabalho do Dr. Armando Saraiva, Carlos Mariz e o Dr. Joaquim Peixoto, que tentaram reunir o máximo de informação possível e que reportaram no antigo “O Novo Fangueiro” e na história da Santa Casa da Misericórdia de Fão e ao qual tivemos de recorrer, pelo que nunca me cansarei de lhes estar eternamente grato.
Do Padre Gonçalo Lourenço Cardoso Viana, segundo apuramos terá nascido em Lanheses, tendo família em Âncora e Caminha, no princípio do século XIX e embora no “Perfil” feito em Novembro de 1992, no jornal de Fão, indique que terá “começado a paroquiar em 1858”, o certo é que isso terá acontecido bem mais cedo, já que na Direcção Geral de Arquivos, se refere o Padre Gonçalo Cardoso Viana, por alguma documentação subscrita, como Pároco de São Paio de Fão, em 5 de Janeiro de 1854.
Em 1845 era pároco em Fão Francisco José de Faria, mencionado pelo Ministério dos Negócios do Reino na Relação dos Despachos publicados pela Secretaria de Estado (semelhante ao nosso actual Diário da República), pela sua nomeação para pároco da “Viagairaria de São Paio de Fâo, pelo “Provimento de Igrejas do Padroado da Sereníssima Casa de Bragança”, a 26 de Outubro de 1823, data do 21º aniversário do infante D. Miguel filho do rei D. João VI. Daqui se concluiu, que nesta o Padre Gonçalo Viana terá vindo para Fão, que a partir de 1942 passa da comarca de Barcelos para a de Esposende, ainda na primeira metade da década de 50 daquele século. Curiosamente, em 1853 é inaugurado o Hospital Chorpus Christie da Misericórdia, que encerrou pouco depois e o Padre Gonçalo Viana já cá estaria quando o Hospital (onde foi capelão) reabriu, devido ao grande flagelo da cólera, que devastou também a nossa freguesia e terá sido logo uma grande prova de fogo para o novo pároco, que desde logo se preocupou com as questões da saúde, não fosse ele um dos maiores impulsionadores da construção do futuro Hospital. O certo é que é durante o tempo em que foi pároco em Fão, que se dão algumas das maiores obras e melhorias nas condições de vida da população fangueira, cuja passagem do século assinala várias infra-estruturas assinaláveis e tendo no Prior Gonçalo Viana uma intervenção muito importante. Assim aconteceu na educação com a criação em 1866 do ensino primário feminino, a renovação da Igreja Matriz em 1869 concluidas 5 anos mais tarde, a construção do Cemitério Paroquial (1882) o início da construção da estrada até Apúlia, a construção da Alameda do Bom Jesus, a construção da ponte metálica D. Luís Filipe terminada em 1892, a construção de uma nova torre para a igreja Matriz em 1893, a canalização pública de água em 1894, a estrada para a praia (1894/95), a primeira iluminação a petróleo (1987), a inauguração das Escolas Amorim Campos e a implantação de uma Estação de Telégrafo-Postal(1899).
Sabemos que para conseguir muitas destas melhorias Fão ficou-o a dever a alguns grandes beneméritos, alguns já mencionados por nós, como António Veiga. Joaquim Mariz, Ana Jardiné ou Manuel Pinto de Campos, mas o Prior Gonçalo Viana, pela sua perseverança, dinamismo, liderança e poder de persuasão foi um grande incentivador para o congregar de esforços dos fangueiros. Foi o grande impulsionador da construção do novo hospital, tendo feiro parte da Comissão, mas quando foi inaugurado em 1908, já tinha falecido. Foi um grande entusiasta para a construção da ponte e usou sobre maneira a sua influência para que com homens como o Barão de Esposende e o Conde de Castro, intercedesse junto do governo e do Ministro da Guerra, Visconde de São Januário, que recebeu com um “copo d’água” no seu chalé, no local do actual Salão Paroquial, no dia 16 de Setembro de 1886, em que foi conseguido o compromisso do estadista, já que em 88 já se iniciavam as obras. Sabe-se também que era um homem recto mas por vezes implacável e de personalidade forte, como é descrito no “O Novo Fangueiro”, que se apoia nos documentos do seu testamento estudados por Carlos Mariz. Nesse mesmo artigo é referido o enorme legado que deixou do património pessoal, distruido por diversas instituições da terra, como a Santa Casas da Misericórdia e a Junta de Freguesia a quem deixou a casa e o quintal. Deixou em testamento vasta quantia para que fossem vestidos anualmente 10 pobres e dotes (20$00) para jovens noivas carenciadas.
Destaque-se ainda que o Prior Gonçalo Viana tinha um prestígio enorme em todos os quadrantes e por exemplo o próprio rei mandasse celebrar 3.000 por sua alma.

Uma das magníficas fotos das ruas de Fão, que o Armando Jorge concedeu e partilhou no "Comunidade Fangueira"
Numa passagem por Fão em que teve de combater as pestes, a pobreza, a grande divisão entre republicanos e monárquicos, o Prior Gonçalo Viana para além de conseguir minimizar estas questões problemáticas, foi também uma grande força motriz para a união e desenvolvimento de Fão que na passagem do século XIX para o século XX, se reafirmou no mapa das principais localidades do país, abrindo estradas para o progresso.
Homens com a sua têmpera, empreendedorismo e visão, não houve tantos na nossa história, principalmente com os parcos meios e as condicionantes de uma época tão carente, por isso é inquestionavelmente daqueles que mais mereceram o nome na nossa toponímia. A rua Prior Gonçalo Viana, que vai do cruzamento dos CTT, entre a rua Azevedo Coutinho e o adro da igreja Matriz, sendo conhecida por “rua da Igreja”, o que mais ajuda a "encobrir" o nome deste ilustre Padre, um grande homem que chamais deverá ser esquecido na história de Fão.