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A VARINA FANGUEIRA

Desde sempre que Fão, pela sua situação geográfica, foi e permanece uma terra de rio e mar, de areia fina e sal, de praia e cheiro a sargaço, de vento norte e nevoeiro em manhãs de Agosto, de redes e bóias, de barcos e pescadores, de tempestade e de bonança, de gamelas e peixe, de pregão e de varinas!
ELA é uma figura típica de Fão. As formas como se traja e como apregoa o ganha-pão, como transporta em vasilhas de madeira na cabeça ou em tabuleiros em carrinhos que impele com a própria força braçal, já muitas vezes foram recordadas, recriadas e homenageadas em revistas ou em marchas.
ELA é a varina fangueira, brejeira e ladina, que vende o peixe ainda fresco e vivo vindo das frias águas atlânticas que banham este pedacinho de costa, proveniente da fonte de trabalho e de vida dos homens que se dedicam à faina do mar… deste mar de Fão.
“Varina de Fão” é uma expressão que serve para designar genericamente um grupo de mulheres, que desde tempos imemoriais, se sacrificaram e ainda sacrificam a viver à mercê do que o mar lhes proporciona: muito em tempos de abundância, pouco ou nada em épocas de invernia e de condições climatéricas que impedem os pescadores de exercer a sua arte.
Estas mulheres foram, entre muitas outras, a Albertina Leites, a Ana “Mexilhona”, a Assunção Moledo, a Alice “Careta”, a Amália Vassala, a Adelaide Reis (mais conhecida como “Laida Meninos”), a Micas e a Zaira “Ventosa”, a Olaia “Franciscarrosa”, a Cármen “Mixarra”, a Zaira Beleza, a Rosália Brandão, a Laurinda “Bicha”, a Carolina e Maria “Puxes”, a Maria “Perpétua”, a Maria “do Fino” e tantas outras . Tantas….
Neste tipo de “perfil” os nomes passam a secundários, pois não se pretende falar de alguém em particular, mas sim de mulheres cujo destino parecia traçado pelas agruras da vida difícil, calcorreando ruas e caminhos de muitas aldeias vizinhas, garantindo com a venda do peixe e com as “esmolas” a sobrevivência da casa. Já longe vai o tempo em que comprar “um barco de bico a bico” era possível mediante um pagamento que ia desde os 50 aos 100 escudos. Por isso a nossa varina esperava, paciente e, muitas vezes desassossegada, pelos pescadores (maridos, em alguns casos) que atracavam as embarcações na zona do Ofir ou nas Pedrinhas.
Estas mulheres dedicavam-se também à apanha da “guia”, uma espécie de sargaço mais fino e miúdo que era vendido depois de seco e utilizado no fabrico de remédios caseiros. Nesta faina bem árdua, as varinas de Fão partilhavam a praia com as mulheres e homens da vizinha Fonte Boa, pescadores e sargaceiros com as suas vestes, hoje mais associadas aos homens do mar de Apúlia.
Mas o mar nem sempre era generoso e nesses períodos a varina não baixava os braços, não esmorecia e não deixava de trabalhar. Se o mar não dava o peixe, então dedicavam-se à apanha de pinhas e de faúlha, sempre atentas aos olheiros das quintas, ou ainda, batiam de porta em porta de lavradores e de pessoas mais abastadas, garantindo quase sempre o pão que sossegava o lar.
Era uma vida difícil e marcada até por algumas zangas pontuais entre elas. Mas rapidamente a calma voltava, até porque estas mulheres eram muitas vezes parceiras e companheiras de viagens para fora da terra para vender o seu peixe. De boleia ou a pé lá iam para as redondezas: Fonte Boa, Rio Tinto, Barcelos e Braga, Navais, Aguçadoura (de onde traziam esmolas e cebolas) e Póvoa.
De gamela à cabeça, a peixeira de Fão carregava fanecas, congro e robalo (três espécies muito abundantes nas nossas águas), e ainda peixe-espada, raia e lampreia (esta última na época era comprada ao senhor Antoninho Borda). Em certas situações, algumas destas nossas conterrâneas iam comprar o peixe à cidade do Porto, mais concretamente, ao mercado do Bolhão.
No Inverno, devido às más condições do mar, vendia-se menos peixe e mais marisco, sobretudo o conhecido camarão da nossa costa, visto que aos homens apenas lhes era permitido lançar as redes o mais próximo do areal, mesmo assim correndo perigo, dada a forte corrente das águas e a altivez das vagas.
Na areia da praia as mulheres avistavam os barcos dos pescadores ao longe e com eles agonizavam, acompanhando e sofrendo à sua chegada, sempre que as águas e as ondas fortes sacudiam as embarcações. Viviam a ansiedade da chegada e quando acontecia algum acidente no mar o coração apertava-lhes o âmago. Eram mulheres de fibra, entregues à incerta fortuna de o mar lhes roubar, de forma abrupta e prematura ora o pai, o marido ou os filhos, deixando-lhes a triste sina de procurar sempre no mar a garantia de subsistência da família. E algumas, batidas pelo infortúnio, lá o foram conseguindo, não obstante a pobreza em que viviam e as dificuldades por que passaram!
São e foram, exemplos de perseverança, de trabalho, de coragem, de humildade e de força. Jamais alguém lhes poderá negar o talento de bem apregoar o peixe do mar de Fão e dessa arte fazer o sustento do seu lar, normalmente longo.
Em cada rua da nossa vila podemos encontrar uma família cuja matriarca tenha sido uma varina, desde o Ramalhão, passando pelo Bairro dos Pescadores, percorrendo a Areosa e indo até às Pedreiras. Há terras de ferroviários, de ceramistas, de eclesiásticos, de agricultores, de sargaceiros e de tantos outros ofícios. Fão é terra de antepassados ligados à navegação, ao fabrico de sal e de navios, é terra de ceifeiras e de desfolhadas, é terra de fados, de serenatas e de teatro de revista… é terra de mar, de pescadores , mas de varinas também.
É por todas estas tradições e artes, que nós, fãozenses, não prescindimos do odor oriundo da maresia, não dispensamos contemplar diariamente a praia ou a ponte sobre o Cávado e não negamos as nossas origens. Fão corre-nos nas veias em todas as suas vertentes. É por tudo isto que quando Fão sai à rua, sente-se uma profunda alegria e um imensurável orgulho e nos recortes da vida de cada um, lá aparece uma sonora varina…!

(Uma homenagem singela às varinas que sempre apregoaram nas nossas ruas e cuja memória invade as diversas gerações).