JOÃO DA “TEIA”
João Ribeiro Brisa, nasceu a 26 de Março de 1922, na antiga rua de Goa, actual rua D. Zulmira Borda, onde também faleceu, num pequeno anexo da casa da D.Otília “Pepina”, que o cedeu gratuitamente.
Também conhecido pelo “João Cego” o apelido “da Teia”, por ser filho da Doroteia “Meija”.
Sua avó, Maria “Meija” mãe de mais 2 filhas, a Adelaide e a Cármen, que casou com o João “Sineira”, era a verdadeira “chefe” de família e foi quem o acompanhou à inspecção militar, que na altura era feita no posto da GNR, a onde se deslocavam os militares para fazer os exames.
Mário Belo, que é da mesma idade, foi colega de infância e também foi nesse dia à inspecção com outros 22 mancebos de Fão, conta um peripécia engraçada:
“O senhor Jerónimo Peixoto, dono da Pensão, onde o João fazia seu “quartel-general “, era um homem com muito senso de humor e gostava de pregar as suas pequenas “petas”. Disse à D. Maria “Meija” que acompanhava o João nesse dia, que rezasse muito para que ele não ficasse apurado, pois na altura de guerra (1941), todos eram recrutados, manetas, coxos e até cegos, que eram seleccionados para espiões. A senhora, que nem sequer sabia o que era um “espião”, foi a rezar todo o caminho para Esposende. Perguntou-lhe o oficial: Homem, de que se queixa? -Sou cego ! disse o João, facto que não foi difícil de comprovar e entre os 3 oficiais no serviço, ainda recebeu 10$00 de esmola, o que na altura era um dinheirão. A Avó ficou exuberante de contentamento e veio espalhar a nova em Fão, como se um milagre se tratasse.”
Também nos contou o Mário, que o João conhecia meio Fão pelo andar, entrava em todas as casas de Fão e era assíduo em casa da D. Sara, onde um dia se cruzou com ele, tentando-o enganar com um passo muito diferente do habitual, mas ficou pasmado, pois ele chamou-o pelo o nome e disse:
“Tu não me consegues enganar!”
Era muito delicado com os seus benfeitores e dos melhores tentava colher mais informações e o endereço, enviando cartões de feliz aniversário e até algumas prendas, como clarinhas de Fão.
Entre eles destaque-se a D. Ester, senhora viúva de Viana do Castelo e que era a proprietária dos autocarros da Auto Viação do Minho, que tinha por ele uma grande admiração e exigiu que todos os seus condutores parassem sempre em Fão, para que o João “da Teia” pudesse colher as suas esmolas, entre os passageiros.
Soube-se que um dia, numa das viagens da D. Ester ao Porto, parando em Fão, trocando cumprimentos com o João e perguntando-lhe se todos cumpriam as suas ordens, ele lhe contou que um certo condutor, não o fizera e ela quis imediatamente o despedir e só não o fez porque o próprio “João da Teia” teve de interceder por ele.
Como não podia ler nem escrever, auxiliava-se de algumas pessoas, que o faziam por ele, já que não deixava passar determinadas datas importantes para os seus benfeitores, uma delas era o Alexandre Belo, antes deste partir para o Brasil e a quem presenteava por esse auxílio.
O João “Cego”, tinha capacidades extra sensoriais desenvolvidas e conseguia diferenciar as marcas dos automóveis que passavam e até as horas do dia, com o máximo rigor.
Os carros que paravam à porta da pastelaria para comprar os pastéis de chila eram a referência para identificar os seus donos, a quem cumprimentava já pelo nome, para surpresa de muitos. Era a principal fonte de rendimento da família e até se constou em tempos, que a avó Maria ficou muito apreensiva, pelo facto de um médico que o viu à porta da D. Clarinha ter sugerido o seu tratamento, com fortes possibilidades de ele voltar a ver.
Morreu há cerca de 20 anos e foi uma das mais conhecidas figuras típicas de Fão, a quem o Dr. Albino Campos, no seu livro “Lembranças e Sentidos”, dedicou o seguinte poema:
Não tinha olhar
Como os demais mortais,
Só a cabeça prescutava o ar.
Via de alma
Por covas fundas, negras do polegar
Que aí ficava,
Sem perder a calma,
Procurando ir lá
Onde o vigor de uma vida está.
Tudo sabia
De quem dava esmola
Ou do soalheiro escutado às portas,
Nas horas vivas e nas horas mortas.
João da Teia
Não João Ninguém
Sabia as teias que este mundo tem.
Não era um monge
E subia à estrada,
Anunciando quem lá vinha ao longe,
No ronronar metálico dos carros,
Passeantes raros nesses tempos idos.
Dava notícias do país inteiro
(Tão pequeno então),
Um cumprimento cheio de outra luz
Da gratidão que se tem sem olhos,
E gravava a memória sem ter cruz.
Bem conhecido, cego João
Fugiu do olvido e aqui se acolhe
Neste poema ou rua de Fão.