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FRANCISCO MORAIS DA COSTA

Foi uma das figuras mais populares de Fão nas décadas de 40/50, fosse pela adoração dos adeptos de futebol que o idolatravam, fosse pelas cordas da sua viola que animava as revistas, festas e serenatas, fosse ainda pelo seu jeito folgazão como vivia. O povo chorou a sua morte prematura com apenas 38 anos e mais tarde veio a dedicar o nome de uma rua, àquele que deve ter sido o maior futebolista que Fão conheceu.



A viola de Fão

Francisco Costa, vindo de uma família de pessoas ligadas ao teatro de revista, cedo começou a dedilhar a sua viola, que foi também uma sua grande companheira, das grandes e longas noites de farra, serenatas e nos espectáculos. Alguns chegavam a chamar-lhe o “Chico Viola” ( figura emblemática no Brasil)de Fão e era um animador por natureza, embora segundo alguns, também acabasse por cometer alguns excessos, que talvez ajudassem à sua curta duração. Durante muitos anos acompanhava o Mário Belo e o Né Glória, seu familiar em algumas festas memoráveis, ou simples brincadeiras que eram apanágio da vida fangueira, particularmente no verão, em que chegaram a fazer animação para os ingleses no Hotel de Ofir.

Dotado para o futebol

Ainda em Fão não havia clube de futebol filiado, apenas uma equipa de amigos (O Fão Praia) e já o “Chico” chamava a atenção dos admiradores da bola cá e nas terras onde se realizavam alguns jogos amigáveis. Ele era um jogador que para além de boa robustez física, tinhas uns pés de ouro, impondo-se sempre como um autêntico líder dentro do campo. Jogou na Junqueira com outros colegas como o António Lauro “Cascalho”, Amândio “Padeiro”, Adelino Monteiro “D’Areia”, José Monteiro “Nosso Zé”, João Condesso, Né Glória, Valdemiro Cardoso “Miro Tuta”, Joaquim Silva “Quim Coxinha”, “Nequinha Mixarro” e muitos outros, que depois o viram partir para mais altos voos. Foi contratado pelo Vitória de Guimarães que já disputava o Nacional da 1.ª Divisão e impôs-se como titular indiscutível e uma das suas grandes referências. Eram vários os fangueiros que se deslocavam muitas vezes a Guimarães para verem o seu ídolo a jogar com a camisola branca do Vitória.


Em cima entre Gustavo e António Gaifém

Admirado e respeitado na cidade-berço onde se notabilizou também como grande profissional

Como contra partida e porque naquele tempo os clubes não tinham os milhões de agora, a direcção do VSC, arranjou-lhe emprego numa das maiopres fábricas de tecidos do norte a “Cruz de Pedra”. Aí trabalhou como guarda-livros, mas numa altura em que não havia computadores, ele distinguiu-se em vários aspectos desde a forma como elaborava e adornava qualquer documento, até a capacidade de fazer orçamentos, naquele tempo totalmente “à la pate”.
Como já nos tinha falado seu genro Carlos Palma Rio, também sua filha Felisberta nos contou algumas passagens que atestam os seus grandes dotes artísticos e profissionais. Como foi o caso dos grandes elogios da Dra. Isabel Gomes, que um dia sem saber que CP Rio era seu genro, lhe falou de um aluno seu no antigo Colégio de Esposende, que a marcou pela sua grande capacidade e dotes artísticos de quem ainda possuía algumas peças de trabalhos manuais e foi um caso raro em toda a sua vida como professora.
Na Cruz de Pedra, deixou marcas inesquecíveis e o senhor Costa, como era conhecido e admirado por toda a gente. Soube mais tarde outra sua filha (Glória), que trabalhou nos escritórios daquela empresa, que o patrão havia vendido alguns livros elaborados por seu pai, para um grande coleccionador de arte. E alguns desses trabalhos estarão à guarda de um museu vimaranense.


“Meu pai tratava cada página, mesmo que tivesse apenas números, como se fosse uma tela e nos seus adornos, colocava belas gravuras de pássaros, flores e outras figuras artisticamente desenhadas.” Referiu-nos sua filha Felisbela.
Claro que o futebol, popular e concorrido como já era naquela altura, foi responsável pela sua maior popularidade e admiração pelas gentes de Guimarães.

O “pai” do CF Fão

Se no passado existiram grandes homens que estiveram ligados à fundação do clube, principalmente na parte institucional, como foram o Artur Sobral, Albino Campos, António Torres, António da Venda, Valdemiro Cardoso ou Manuel Soares, o “Chico Glória”, foi como atleta o grande impulsionador da sua filiação.
Terminando a sua carreira no VSC, já com mais de 35 anos, envolve-se na construção de uma equipa para jogar nos distritais de Braga, o que acontece na época de 1959/1960, tendo sido o primeiro e inesquecível “capitão” da equipa, já com 37 anos de idade.
Ele era o elo mais forte de uma equipa de outros grandes jogadores, mas também amigos e companheiros, alguns deles a deixarem o seu testemunho, sobre o seu “capitão” e mestre que todos respeitavam e adoravam.



Chorado, lembrado e homenageado pelo povo
Lembro-me menino como humedeciam os olhos de alguns quando nas festas ou serenatas se cantava a modinha “O Chico Viola morreu…”
Fão e Guimarães choraram a sua morte prematura a 27 de Novembro de 1960, com apenas 38 anos de idade e apesar de ter falecido há quase 50 anos, é das figuras mais lembradas em Fão.
Em 1993, foi realizado um jantar convívio em sua homenagem no Fojo e mesmo passados 33 anos da sua morte a casa encheu e muitos foram aqueles que testemunharam as suas qualidades ímpares, numa noite em que as canções tipicamente fangueiras e que o Chico Glória tantas vezes enriqueceu com a sua viola, tornaram-na ainda mais mágica e comovente.

Rua Chico Gloria

Para confirmar toda a admiração que este fangueiro deixou entre o nosso povo, a homenagem que publicamente lhe foi prestada com a atribuição do nome da Rua Chico Glória, que é aquela que vai do entrocamento das ruas Amadores Teatrais Fangueiros, Comandante Augusto Texeira e dos Veigas até ao antigo e agora desactivado campo Artur Sobral e Pavilhão Gimnodesportivo, um local que passou a ser de autêntica romaria aos domingos durante 50 anos e que muito ficou a dever ao Francisco Costa, nosso Perfil deste mês e que confirma que Deus às vezes pode estar “distraído”, mas o povo não esquece os seus “deuses”.