DR. ALCEU VINHA DOS SANTOS
Fão é uma vila pequena, mas em toda a sua história foram aparecendo ilustres fangueiros (de nascimento ou não) que revelaram notável habilidade nas mais variadas áreas, desempenhando trabalho de grande notoriedade.
O perfil deste mês contempla o Dr. Alceu Vinha dos Santos. Volvidos 20 anos da sua morte, homenageamos um homem que nasceu em Fão no dia 5 de Abril de 1912, e que se distinguiu enquanto farmacêutico, caricaturista e docente de matemática.
Frequentou e concluiu o curso liceal na cidade de Chaves e foi aluno na Faculdade de Farmácia do Porto, onde se evidenciou entre a comunidade estudantil pela sua forma invulgar de vestir.
Enquanto farmacêutico, revelou o seu humanismo e bondade, visto que se preocupou em auxiliar os mais desfavorecidos que, não raras vezes, não dispunham de recursos monetários para pagar os medicamentos. Não obstante a falta de pagamentos, Alceu Vinha dos Santos jamais permitiu que faltassem fármacos a quem deles necessitava.
O resultado da sua beneficência traduziu-se na falência da “Farmácia Central”, sita junto à Igreja da Misericórdia, que havia herdado dos seus progenitores, a saber, Paulo Dias dos Santos e Isaura Gomes Vinha dos Santos. Foi, ainda, director da Farmácia Pires.
Depois de alguns problemas relacionados com a política da época, o Dr. Alceu Vinha partiu para o Ultramar, rumo à antiga colónia Moçambique, onde permaneceu durante 4 anos e trabalhou na Companhia do Algodão. Regressou a Portugal no decurso de 1956, encontrando-se, já, viúvo.
Após a vinda de Moçambique, dedicou-se ao ensino. Foi professor de matemática no Colégio Infante de Sagres e na Escola Preparatória de Esposende e muitos são os seus antigos alunos que referenciam com garbo essa passagem. Em Fão, vivia das explicações, mas também as dava gratuitamente, aproveitando o espaço da antiga farmácia que reabilitou para o efeito. Os resultados escolares dos seus pupilos reflectem o talento do professor Alceu, uma vez que os discentes passavam com elevado êxito nos exames nacionais do extinto 5º ano de escolaridade.
Na sua vertente de caricaturista, de que apresentamos alguns trabalhos, Alceu Vinha dos Santos colaborou em revistas humorísticas, na feitura de cenários para o Teatro Sá da Bandeira, no Porto, sendo da sua autoria várias caricaturas de artistas da época. Além disso, cooperou, através da sua arte de bem caricaturar, com diversos jornais de carácter local, regional e nacional, representando personalidades características e políticas da altura. Entre estes periódicos, realçamos o “Primeiro de Janeiro” onde foram publicadas caricaturas suas na página “Humor Nacional”, na década de 40 e “O Cávado”, onde praticamente toda a “Página de Fão” era da sua autoria, quer no que diz respeito a desenhos quer no que toca aos textos. Neste jornal figuraram trabalhos de Vinha dos Santos assinados com pseudónimos como “Moscardo” e “Coca” e que satirizavam e davam a conhecer aspectos sociais e políticos que marcavam a terra fangueira.
É, ainda, da sua responsabilidade uma revista designada “A pombinha da Katrina”, cujas edições tinham apenas um exemplar que era lido por diversas pessoas, de forma alternada. Deste modo, cada revista passava de mão em mão, desde o Porto até Fão e contemplava assuntos relacionados com a nossa terra, bem como com os turistas que cá vinham passar férias.
Ao longo de toda a sua vida, o Dr. Alceu Vinha dos Santos sentiu os problemas alheios e não hesitou em auxiliar os demais, o que deixa bem patente o seu desapego ao materialismo.
Se por um lado não ganhou dinheiro, por outro o seu amor ao próximo fez com que conquistasse o maior dos tesouros: a amizade de muitos daqueles que por ele foram ajudados e que hoje respeitam a sua memória e que lhes estão sobejamente agradecidos.
À data do seu perecimento, encontrava-se pobre mas não se viu ou sentiu desamparado. Nesse período que lutou contra a doença e que viveu o sofrimento causado pela enfermidade contou com o apoio dos familiares, de amigos e de uma antiga empregada.
Fão deve louvar este homem que tanto nos legou em termos políticos, culturais e humanos. O seu nome já consta atribuído há vários anos a uma rua da Vila, o que se entende como manifesto reconhecimento das entidades locais. Não desfazendo a sua aptidão enquanto caricaturista, ousamos realçar e demarcar a sua solidariedade, a sua humanidade, a sua bondade, a sua compaixão e a sua grandeza interior.
Todos os fangueiros devem estar certos que Alceu Vinha dos Santos foi grande porque depositou, em tudo o que realizou, todo o seu empenho e arte, toda a dedicação e amor!
Agradecimentos: Professor Joaquim Peixoto, Dr. José Novais e Dra. Adélia Novais, pela amabilidade e disponibilidade