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INOCÊNCIO MARIZ MOREDA

Em cima do palco, trajando as mais diversificadas vestimentas, dando corpo e vida a variadíssimas personagens brilhava, encantava, surpreendia, alegrava e deixava o público rendido perante o seu desempenho e vocação… Longe das luzes da ribalta, arredado do burbúrio da turba, da azáfama dos espectáculos e dos aplausos, desempenhava com esplendor o “trabalho de bastidores”, escrevia letras de canções (aquelas que posteriormente seriam cantadas em marchas e revistas, entoadas com sentimento e fervor como se de hinos se tratassem) e ensaiava as danças e as contradanças como um maestro que dirige a sua orquestra ou um pastor que orienta o respectivo rebanho. Assim era Inocêncio! Quem não se lembra? Daquele homem que transportava dentro de si a paixão de se ser fangueiro (mesmo não o sendo de nascimento), que revelava, em frente à plateia, ser detentor de um dom e de uma grandeza de espírito e de talento que caracterizam os grandes artistas e que deixava transparecer nos seus olhos a bondade, a humildade e a vontade de ver e de fazer os outros sorrir.
Era de Fonte Boa, lá nasceu no dia 23 de Junho de 1945, no seio de uma família modesta, mas foi em Fão que se evidenciou e onde ficou mais conhecido. Filho de lavradores, vinha para a nossa vila com o gado, aproveitando os belos pastos proporcionados pela junqueira, fazendo-se acompanhar do seu pífaro, inseparável instrumento musical, que usava para tocar diferentes melodias ou para dar o lamiré das canções que cantarolava. Durante estas vindas e breves estadas em terras fangueiras, conheceu e dilatou amizades com outros jovens de cá. Para comer, trazia de casa dos pais pão e fruta, alimentos que partilhava com os seus companheiros mais pobres.
A sua simpatia, a sua honestidade, a sua simplicidade e o seu companheirismo tiveram um papel crucial para que fosse bem acolhido em Fão, para onde veio viver, mesmo antes de se casar, o que aconteceu no Outono de 1979, no dia 26 de Outubro, com Dina Manuela Reis Lagoela Moreda. Deste enlace nasceu uma filha, de nome Liliana Maria Lagoela Moreda Lima.
Mas viajemos atrás no tempo para proferir que pouco depois de se estabelecer em Fão, ainda solteiro, Inocêncio ensaiava, já, as marchas e cantava fados na “Lareira”. A título de curiosidade, importa referir que neste perfil estamos a falar do primeiro intérprete de “A fangueirinha” (de Mário Belo), canção que ainda hoje integra o reportório de revistas e de outros espectáculos que se vão realizando na nossa terra.
Do currículo artístico deste fangueiro de coração, fazem igualmente parte, a participação num festival da canção, realizado no Porto, foi intérprete dos números “Sr. Contente e Sr. Feliz” e “Rolo da massa”, foi ensaiado por José Ribeiro Maia e integrou o elenco de todas as suas revistas e trabalhou no A.S.P.. Destacou-se, de igual modo, como ensaiador da Marcha das Pedreiras, da Marcha de Santo António, em Palmeira e foi convidado para dirigir as de São João, em Esposende.
Inocêncio pertencia à “família das revistas”, grupo de pessoas que desenvolveram e cultivaram entre si o sentimento do afecto, no seu sentido mais lato e puro, que ainda hoje persiste e continua robusto, indestrutível e inabalável.
Artista e homem, era, à semelhança de outros “não fãozenses”, mais bairrista do que muitos de nós ou nossos ancestrais. É de enaltecer a sua entrega total e despretensiosa com que trabalhava artisticamente em Fão e fora da terra, pois nunca foi remunerado pelo seu contributo. Tudo o que fazia e que fez foi resultado do seu gosto individual.
Em termos pessoais, este filho “adoptivo” da nossa vila era muito bem disposto e divertido, alinhava sempre nas marchas ou nos espectáculos para os quais era convidado, sem pensar duas vezes ou colocar entraves tanto em termos de participação activa como no que diz respeito à sua organização (falamos nas marchas, na escrita de canções para a escola, nas revistas realizadas por iniciativa do MPCC e do A.S.P., entre outros).
Na verdade, Inocêncio viveu no mundo das revistas até à sua morte no dia 28 de Janeiro de 1999. O seu desaparecimento precoce, aos 54 anos, e também inesperado, representou uma perda muito sentida para o mundo artístico fangueiro. Todos os excepcionais artistas e grandes indivíduos são insubstituíveis e Inocêncio não é excepção. Para nós fãozenses que, por vezes, deixamos o nosso egoísmo e fangueirismo elevar-se, consideramos que o seu perecimento foi injusto. Porém, para os mais crentes, é mais reconfortante lembrar que Deus chama para junto de si aqueles que mais ama. Algures, num espaço desconhecido para os terrenos, também imagina-se que estão as grandes figuras da nossa vila. Os mais cépticos podem colmatar a saudade revisando os momentos de felicidade e o conhecimento pessoal que tiveram do Inocêncio Moreda , sentindo grande orgulho por ele ter escolhido a nossa Fão para viver, para trabalhar e para partilhar o saber de alegrar.
O homem desaparece em corpo mas permanece em espírito e em obra! O seu “bichinho” pela arte dos palcos passou para a sua filha, que em tempos também cantou em revistas e, quem sabe, para a sua neta. Muitos fangueiros sentiram a sua alegria, testemunharam o seu talento e o seu carácter, a sua sabedoria e a sua paixão pela terra de todos nós.
Fão não pode viver apenas de lembranças nem da nostalgia pelo passado. Temos de ser capazes de conservar o nosso património cultural com as suas particularidades e peculiaridades mas também a aprender e aperfeiçoar a arte de compor, de cantar, de enaltecer a nossa linda terra, dando longevidade a uma forma colectiva de viver. Inocêncio Mariz Moreda foi alvo de uma homenagem prestada pelo A.S.P. dedicando-lhe uma revista.
Também nós, ao traçarmos este perfil, quisemos partilhar com os seus amigos, com os admiradores, a apreciação pública de uma figura que viveu com elevada simplicidade e disponibilidade para os outros, partilhou o talento para a arte de revista, e desapareceu muito cedo.
O Inocêncio merece ser recordado e enaltecido, pelo que foi e pelo que fez por Fão.
Quem ama assim esta terra, reparte de igual forma essa emoção, por quem nela vive.
E Fão sentiu isso!