AVELINO PIRES CARNEIRO
Ainda hoje o largo que envolve o nosso quartel dos bombeiros e contempla o Cávado, é apelidado de Largo do Cais, apesar de ter há algumas décadas o nome de um dos maiores benfeitores da terra e suas/nossas principais instituições.
Filho do “Fulão” da alquilaria
Ainda no século XIX, no antigo Largo do Cais, vivia D. Maria Domingues Assunção, que veio a casar com um Pires Carneiro, vindo de S.Bartolomeu do Mar, onde tinha a alcunha de “Fulão”. Este montou uma empresa de aluguer de trens e carroças de cavalos que ficou sedeada na casa da esposa e atingiu uma dimensão respeitável com vários tipos de carros e mais de 20 cavalos, que estacionavam em todo o Largo das Alminhas.
Era uma empresa de sucesso que fazia as ligações às localidades vizinhas de Barcelos, Póvoa, Esposende e outras terras, sendo o Largo um local de enorme azáfama, nada inferior ao que ainda hoje se passa com a grande movimentação de veículos e bombeiros do nosso actual quartel. O “Fulão” entretanto morreu relativamente novo e os filhos Mário, Antonino, Octávio e Avelino, ficaram com o encargo de gerir a alquilaria. Destes, apenas o Mário e principalmente o Avelino tinham alguma queda para o negócio dos cavalos, mas todos acabaram por abalar para o Brasil, onde tiveram maior ou menor sucesso como empresários.
O Octávio, acabou mesmo por rumar ao Uruguai, onde alcançou grande fortuna e prestígio, como grande empresário que foi no negócio das cortiças, transportes e fábricas de refrigerantes.

Foto:Largo do Cais nos anos 40/50, que veio mais tarde a receber o seu nome de Avelino Pires Carneiro
De empregado a empresário no Brasil
No Brasil, Avelino “Fulão”, emprega-se nos armazéns da firma “Macedo Portas & C.ª”, onde acabou por se tornar sócio gerente, sendo o seu principal vendedor e relações públicas no negócio de Exportações e Importações. Nessa qualidade, viajou por todo o Brasil e vários países da América Latina, tendo conseguido redimensionar a empresa. Segundo o Dr. Armando Saraiva, no jornal “O Novo Fangueiro” de Abril de 1988, Pires Carneiro chegou a deter a caderneta de cliente n.º1 da companhia aérea Panair.
Casou no Rio de Janeiro, com uma senhora brasileira de quem teve 2 filhos.
Várias vezes veio visitar a sua terra natal ,de quem era um grande apaixonado e também segundo o “Novo Fangueiro” de 1988, de grande devoção pelo Bom Jesus de Fão, trazendo sempre consigo uma ponta de corda da imagem, como um verdadeiro talismã protector.

Foto: No Brasil com António Viana e Mário Belo.
No Rio era uma figura muito respeitada, frequentando os melhores restaurantes, teatros e outras casas de espectáculo, acompanhando assiduamente os seus melhores clientes. Era também sócio de camarote do Vasco da Gama, o clube de futebol dos portugueses, no Rio de Janeiro. Muitas vezes era acompanhado pelo António Viana, pai da “D. Mitó Ramalho”, que também emigrou para o Brasil e a quem ele deu emprego, aliás como a outros fangueiros como os primos Elias e Zeca “Sotinha”, da família dos “do Dão”.
António Viana, segundo Mário Belo, que o conheceu em Fão e no Rio, era um homem muito culto, tendo feito muito sucesso naquelas paragens, sendo ainda um autêntico galã, que tinha grandes aptidões para o teatro, tendo representado com notariedade naquelas paragens. Avelino Pires Carneiro, apreciava a sua companhia pela amizade e suas grandes aptidões, que sobressaíam nos meios mais intelectuais e sociedade de referência.
Passeios à Barca do Lago e excursões a Viana
“Era um homem de um coração enorme e ajudou muita gente, tanto no Brasil como cá. Quando chegava do Brasil, não perdia uma farra e ele próprio chegou a organizar passeios de barco à Barca do Lago, pagando todas as despesas. Levavam vários barcos com comida para o piquenique e a malta das cantigas e das violas. Que lindo aquilo era! Chegou ainda a organizar autocarros para irem às Festas da Sra. Da Agonia em Viana do Castelo, levando consigo o pessoal das revistas, para que não faltasse animação e todos se admiravam com aquela malta de Fão, a sua terra!” – Lembrou-nos ainda Mário Belo, que também viveu esses tempos.

Oferta de um novo Quartel de Bombeiros e muito mais
Das muitas benfeitorias deste ilustre fangueiro, que teve um grande papel na modernização da nossa terra, a par de outros como Joaquim Mariz e Artur Sobral, já referenciados neste espaço, a oferta da casa da família, com a anuência dos outros herdeiros, para a construção do novo quartel dos bombeiros, talvez tenha sido das mais importantes.
No entanto, também deu grandes contributos para o Hospital, Clube de Futebol, Clube Fãozense, Conferências de S. Vicente, Cantina Escolar, Clube Fãozense, Clube dos Grulhas, Irmandade do Bom Jesus e Associação Humanitária dos Bombeiros.
Nos negócios, aconteceu um “volte face”, segundo se constou devido à usurpação de um sócio da empresa e a parte final da sua vida foi bastante mais discreta.
No entanto, o povo de Fão nunca esqueceu o seu grande benfeitor e bairrista, tendo-lhe atribuído o nome do antigo Largo do Cais e na sua última visita a Fão, foi organizado um jantar em sua homenagem nos Bombeiros, com muita animação e as belas canções e músicas dos nossos artistas, que segundo Armando Saraiva, foi quase até ao dia.
As instituições de Fão têm o nome de Avelino Pires Carneiro nos seus principais registos, Quadros de Honra e foto em lugares de destaque, como no Hospital e nos Bombeiros. E, para os mais novos que passam ali junto ao quartel e ao cais, num dos mais belos recantos da vila sobranceiro ao Cávado, nós com a humilde e singeleza de parcas palavras, tentamos , transmitir. Relembrar, homenagear e agradecer aos grandes protagonistas do passado como foi o Avelino Pires Carneiro, é mais que justo e gratificante para quem sente o orgulho de pertencer a esta terra.