JOSE PINHEIRO BORDA
”Espalhando trabalho, amor e abnegação em vários sectores da sociedade gaúcha, José Pinheiro Borda mereceu o título de Cidadão Pôrto-Alegrense, que lhe foi conferido pela Câmara de Vereadores. E, por serviços prestados às Forças Armadas, foi também agraciado com a Medalha do Pacificador”.
Esta uma pequena parte do muito que se escreveu a propósito deste fangueiro, que se radicou na capital do Rio Grande do Sul, num dos muitos órgãos de comunicação social, escrita e falada, aquando do seu falecimento a 26 de Abril de 1965, neste caso concreto no jornal “Zero Hora”. Dezenas de páginas, de vários jornais da época dedicaram um considerável espaço a destacar a grande perda para o povo gaúcho e o grande homem que foi, reunidas numa edição da revista “Informativo Rubro”, do Internacional de Porto Alegre, o clube do seu coração e onde deixou o seu nome perpetuamente gravado com letras de ouro.
Feito marinheiro pela mão do pai
Nasceu em Fão a 28 de Setembro de 1897, filho de João Dias dos Santos Borda, irmão do Padre Avelino, Zulmira e Manuel Pinheiro Borda. Seu pai foi um conceituado comandante da marinha mercante de longo curso e com ele percorreu meio mundo. Quando seu pai foi contratado pela “Costeira” do Brasil, ele acompanhou-o e ingressou na escala da Marinha Mercante onde concluiu os seus estudos de navegação, tornando-se também ele comandante.
Certo dia ancorou em Porto Alegre definitivamente, radicando-se e constituindo família, após o casamento com Maria do Carmo de Azevedo Moura, pertencente a uma das mais ilustres famílias gaúchas. Aí trocou o mar pelo comércio de tecidos, por sinal com enorme sucesso. Tornou-se um aficionado das corridas de cavalos e chegou a ser Presidente do Jockey Club do R. Grande do Sul, em que se filiou em 1930, tendo sido o grande responsável pela construção do fantástico hipódromo do Cristal, que segundo palavras suas: “me custou metade da minha vida, mas valeu a pena!”. Foi ainda Director da Comissão de Corridas e membro da Associação Profissional do Turfe, pela sua ligação àquele desporto.

Foto:O magífico Hipódromo Cristal
”Colorado” dos quatro costados
Entretanto e a par dos cavalos, começou a assistir aos jogos de futebol do Internacional, clube rival do Grémio que repartia a hegemonia do futebol naquele estado, vindo a tornar-se um dos seus mais fiéis e fanáticos adeptos, conhecidos por “colorados”.
No clube e depois de se ter afastado dos negócios, dedicou grande parte do seu tempo e energias. Fez parte de várias direcções (Concelho Deliberativo), rejeitando sempre o cargo de presidente e por grande insistência acabou por aceitar o cargo de Presidente da Comissão Pró-Construção do novo estádio do clube.
Sobre isso aqui deixamos um excerto de um trabalho de Elfuni Zaniol, num site brasileiro:
”- Eu me sinto orgulhoso em ser colorado. Apenas isso. Para mim, ser colorado e a maior coisa do mundo. Maior ainda porque eu posso falar e falando eu posso dizer isso.
Foi uma luta convencer o velho Pinheiro Borda que ele deveria ser o presidente da Comissão de Obras.
- Gostaria. Seria uma honra muito grande. Mas já estou velho. Essa obra é pra gente moça. Eu não sou de largar um trabalho pela metade.”
Acabou não resistindo aos apelos de seus companheiro de clube. Em julho de 1963, lá estava ele emocionado, para a pedra fundamental. Diariamente, a partir dessa data, era fácil saber onde encontrá-lo. Estava sempre no que até então chamavam o Estadio da Bóia Cativa. Mas o grande sonho de Pinheiro Borda não foi realizado: ver o estádio Beira-Rio inaugurado. Faleceu aos 70 anos de idade, quando ninguém esperava, pois era uma fortaleza em constante atividade. Sua última entrevista revela toda a grandeza do seu sentimento:
- Eu tenho três coisas na minha vida que amo profundamente, a minha esposa o Internacional e o Gigante da Beira-Rio. Nunca cometi pecados graves. Por isso, peço a Deus que me dê a graça de ver construído o Gigante.
José Pinheiro Borda morreu em Abril de 1966. Não viu o Gigante pronto, mas levou a certeza de que ele seria inaugurado em breve, pois tudo corria da melhor maneira possível, todos trabalhavam e havia muito dinheiro. Pinheiro Borda, no dia da inauguração do estádio, foi o nome mais lembrado. Junto a seu busto, na entrada principal do Beira-Rio, homens e mulheres ajoelharam-se e rezaram durante todo o dia. Até hoje, muitos que passam, param, olham o bronze e dizem:
- Este velho foi o coração do Gigante.”
(Convém apenas alertar para erros nas datas da idade e ano do seu falecimento (67 anos e não 70 e 1965 e não 1966)
O clube tal como grande parte das instituições, departamentos estatais, igreja, exército e até vários órgãos de comunicação social, decretaram luto oficial de 3 dias, tendo sido adiado um jogo para a Taça Libertadores. Tal foi a gratidão e reconhecimento, que ao grande estádio, que conta com uma capacidade de cerca 60.000 pessoas, ficou com o seu nome Estádio José Pinheiro Borda, embora também seja conhecido por “Beira Rio”, embora não oficialmente, uma justa homenagem com que toda a família “Colorada”, quis perpetuar o Velho Português”, na história do clube gaúcho.
Não teve oportunidade de assistir à sua inauguração a 9 de Abril de 1969, curiosamente num jogo frente ao Benfica, que perdeu 1-2, frente ao Internacional, clube que conseguiu o seu maior êxito em 2006, ao conseguir o título de Campeão da América e do Mundo.

Na foto: Busto de Pinheiro Borda à entrada do estádio com o nome.
Um grande homem, uma grande obra, um grande coração
José Pinheiro Borda, para além de ter sido um homem que dedicou grande parte da sua vida no Brasil ao serviço do Jockey Club e do Internacional, era uma figura respeitada e considerada em toda a sociedade, desde a igreja, governo, forças armadas, até ao povo mais humilde, tendo colaborado, ajudado e beneficiado com o seu empenhamento, o seu trabalho e suas benfeitorias.
Como nunca teve filhos, ele era um homem que se preocupava muito com as crianças, tendo ajudado em várias obras sociais e pessoalmente auxiliou várias crianças, como foi o caso divulgado pela imprensa do menino Joca, um pretinho de 5 anos, entregue ao abandono e miséria, pelo alcoolismo do pai, a quem ele deu emprego e reabilitou. Era adorado pela garotada e eram conhecidas as suas idas à praia da Atlântida, em que oferecia “pandorgas” (papagaios), que subindo os ares eram a alegria das crianças. Distribuía brinquedos, mobílias e barquinhos feito por si mesmo, numa completa oficina de carpintaria que tinha uma parte de sua casa, às crianças dos seus familiares e amigos, mas também entregava vários brinquedos na Santa Casa, pelo natal. Na sua casa em Petrópolis, aos sábados ele projectava filmes para as crianças, que acorriam dos colégios e asilos, delirando com este dádiva do “Seu Pinheiro”, como era carinhosamente apelidado pelos mais jovens.

Foto:Com o Governador do estado Ildo Meneghetti, que deu nome ao antigo estádio.
Um busto no estádio e nome numa rua de Porto Alegre
Se Pinheiro Borda, foi uma das personalidades mais prestigiadas na cidade de Porto Alegre, onde viveu desde 1929, o povo e os organismos também souberam recolher a sua gratidão. Assim, para além do nome do estádio do Internacional, a Câmara Municipal atribui-lhe o nome de uma rua na cidade. Foi precisamente por aí que descobrimos e através da Internet, que o seu nome estava ligado àquela cidade e nos levantou a curiosidade em saber mais sobre este nobre fangueiro, que a par do Padre Alaio, devem ser os únicos fangueiros com nome de rua fora da sua terra.
Por isso, nos congratulamos e sentimos honrados pelo prestígio e pelo protagonismo, que um conterrâneo nosso alcançou além fronteiras, mesmo que já tenha passado quase meio século.
Gratos também, às suas sobrinhas Fernanda e Maria José, que nos facilitaram e forneceram grande parte da informação sobre o tio, que guardam religiosamente, como aliás muitos registos, documentos, fotografias e recortes de jornais e revistas, com grandes nacos da história da nossa tarra, que tem ajudado e muito a recolha de informações e publicações, como foi o caso do recente livro dos Bombeiros, do qual são co-autoras.
Despedida digna de um rei
Às 8 horas da manhã do dia 26 de Abril de 1964, seu corpo foi velado na capela do Estádio dos Eucaliptos. O cortejo fúnebre que se estendeu pelas avenidas de Porto Alegre, saiu às 17 horas em direcção às obras do novo estádio, na Avenida cacique, tendo retornado até à rua Silvério, de onde seguiu para o cemitério da Santa Casa da Misericórdia onde ainda repousa.
“Porto Alegre, - vale lembrar nesta hora – recentemente por ato da Justiça
Da nossa Câmara de Vereadores – já lhe reconheceu, pública, solene e oficialmente, sua condição de Cidadão Porto-Alegrense, agradecendo, assim em nome desta Cidade, o muito que ele deu, em meio ao que avultam, em nossas recordações, tudo quanto realizou à frente das obras do Jockey Club do R. G. do Sul, a “carriere” do CPOR e, ainda agora, o que aí está e o que ainda virá na construção do novo e majestoso estádio do grande clube de seu coração, o Esporte Clube Internacional.”- Assim se escreve numa parte do texto que se refere ao seu falecimento o Jornal “Correio do Povo” de 27-4-65.
As emissoras das cidades de Alegrete, Cachoeira do Sul, Carázinho, Cruz Alta, Erechim, Passo Fundo, Santa Cruz, Caxias do Sul, santo Ângelo, São Gabriel, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Estrela, Encantado e Rio Pardo, prestaram-lhe sua homenagem pública “manifestando o mais profundo pesar pelo desaparecimento de tão eminente figura, de Cidadão Portoalegrense, que deixou atrás de si o seu rastro que assinalaram os mais relevantes serviços prestados a comunidade, e ao desporto Gaúcho”.

Foto:Dirigentes do Internacional carregando o caixão
Manoel Braga Gastal, presidente, em nome do clube e de toda a “torcida” do Internacional, disse no discurso fúnebre:
A Câmara Municipal, encerrou mais cedo o seu trabalho e decretou luto por 3 dias. Na Assembleia Legislativa do Estado, todos os partidos políticos manifestaram o profundo pesar. A Federação de futebol do Rio Grande do Sul, decretou luto oficial por 3 dias e o Jockey Club por 7 dias. Também o clube e eterno rival Grémio PA, se manifestou e fez representar com uma delegação, aquele grande adversário, que sempre lhes mereceu um enorme respeito.
O seu clube para além, do luto decretado, adiou o jogo internacional com o Cerro de Montevideu, deu-lhe como havíamos dito o nome do estádio, fez uma edição especial da sua revista “Informativo Rubro” e mais tarde colocou um busto à entrada do futuro estádio, para além de outras e várias manifestações de pesar.
- Passaste Pinheiro Borda, - amigo, irmão e pai de todos os colorados – passaste há poucos momentos, pela última vez, pelo estádio com que tanto sonhaste e que há-de, no futuro, levar o teu nome.” E no complemento desta palavras transcritas no “Zero Hora” do dia seguinte, o jornal escreve: ”Quando o caixão mortuário, carregado pelos dirigentes do Internacional e representações presentes presentes ao ato fúnebre, deu entrada no jazigo, um clarim levou aos ares o toque de silencia. >b>José Pinheiro Borda havia partido.”

Foto: Última foto pública tirada com vida, com a esposa Maria do Carmo Moura
Pinheiro Borda.
Aos microfones da Rádio farroupilha, no dia da sua morte (26-4-65), pelas
12 horas o seu Redator e apresentador Armindo António Ranzolin, fazia um extenso discurso alusivo à sua morte, precedido de um minuto de silêncio, do qual transcrevemos uma pequena parte:
”Alô amigos…Hoje é um dia muito triste para mim porque perdi um amigo…José Pinheiro Borda morreu!...
Lotou e venceu. Desde que por aqui surgiu o “velho português”, natural da Póvoa da Varzinha, a todos cativou com um bom coração, tornando-se um exemp+lo de trabalho. De espírito construtivo e de abnegação. Ao lado das suas actividades, esntregou-se a uma tarefa de servir aos amigos a à comunidade. O fereceu o melhor de seus esforços e sacrifícios para ajudar a construir um pedaço de P^rto legre, do Rio Grande do Sul ou do Brasil…a quem deu inclusive a sua própria alma e o seu próprio coração….
….
Sei quue durante a existência de José Pinheiro Borda ele fez o bem e, por maior intimidade que tivesse com ele, jamais poderia conseguir saber relacionar todas as suas realizações de que foi patrono e promotor. Morreu com 67 anos de idade, mas com o coração juvenil…porque ainda no dia 4 de Abril passado, na tarde em que o Internacional festejou mais um aniversário, lá estava Pinheiro Borda no Estádio dos Eucaliptos torcendo como um garoto pela vitória do clube do seu coração…”
Muitos outros depoimentos e apologias existem documentadas, mesmo bastante posteriores à sua morte, o que só por si mostra o seu imensurável trabalho, dedicação e serviço prestado à comunidade gaúcha e como toda ela em uníssono o soube reconhecer.
E claro nós como fangueiros, sentimos um enorme orgulho por um filho de Fão ter merecido tantas e merecidas honrarias. E, numa terra como a nossa quando às vezes se questiona o merecimento de uma ou outra homenagem, o nome de uma rua ou louvor a algum dos nossos benfeitores ou dedicados cidadãos por causas públicas e comunitárias, isto parece-nos logicamente um descabido contra-senso e que nos leva a lembrar o ditado que diz “santos da casa, não fazem milagres”, mas que o fazem, fazem e por isso os devemos acarinhar e lembrar condignamente.