Rua Padre Chaves
Depois de darmos a conhecer e de falarmos um pouco do homem cujo nome permite identificar a rua Capitão Jorge Larcher, o novofangueiro prossegue a viagem pelos caminhos de Fão e dirigimo-nos até à rua Padre Chaves, situada nas proximidades da Rua de Serpa Pinto. Estamos, pois, de regresso à zona fãonzense conhecida como Pedreiras.
O perfil deste mês visa reverenciar o Padre Jerónimo Chaves, não na sua vertente de clérigo mas sim pela luta que encetou a favor da construção de um porto de abrigo na bacia natural dos Cavalos de Fão à qual se dedicou por quase 3 décadas, durante as quais procurou, veemente e persistentemente, ver este seu sonho concretizado para glória e benefício da vila e jamais como uma vitória pessoal.
Remontemos ao ano de 1911 para tentarmos perceber de forma mais clara como se iniciou esta demanda pela construção de um porto de mar em Fão, altura em que o porto de Leixões foi assolado por uma grande tragédia. Padre Chaves, ou Chaves Coupon, nome que escolheu para ser pseudónimo, iniciou uma campanha de sensibilização da opinião pública local e nacional, através da publicação de artigos em jornais como o Esposendense e O Novo Porto, este último fundado pelo próprio e que incidiu, particular e especial, atenção à questão do porto dos Cavalos de Fão.
O Padre Jerónimo Chaves escreveu artigos variados e todos eles fundamentados e assentes no parecer favorável de alguns oficiais ilustres da Armada portuguesa que advogavam e reconheciam que as condições dos Cavalos de Fão para porto de abrigo eram de excelência.
Esta questão extravasou o âmbito local dos periódicos e apareceu referenciada e abordada em meios de comunicação social de carácter nacional como O Século, Diário de Notícias, Revista Colonial de Lisboa, igualmente por iniciativa pessoal do Padre Chaves e a questão chegou, mesmo, a entrar e a ser discutida nos gabinetes ministeriais. Paralelamente, registaram-se outros aspectos que permitiam acreditar que a construção de um porto de mar em Fão estava praticamente garantida e assegurada. Ora vejamos, em 1914, Justino Herrs, oficial da Marinha, acorreu à nossa vila incumbido de proceder a estudos hidrográficos e observar os Cavalos de Fão, facto que foi acompanhado por iniciativas da Câmara Municipal e Associação Comercial de Esposende e Instituição Municipal de Viana do Castelo de enviarem missivas que visavam reforçar a posição e ideia do Padre Chaves.
No entanto, tal não aconteceu e veremos as razões mais aceitáveis que justificam de modo satisfatório a viragem do vento que levou para longe a hipótese de concretização do sonho de Chaves Coupon e que deitaram por terra a esperança e o optimismo que uma noticia do Esposendense, datada de 17 de Dezembro de 1914 dando conta da realização do sonho infatigável do nosso perfilado, lançou e semeou por todos os partidários deste projecto.
Para entendermos melhor a mudança de planos por parte do poder central não podemos abstrairmo-nos das condições conjunturais que se vivia à época em termos políticos. Vigorava um recém-nascido e instituído regime político, a República, que se caracterizou por uma instabilidade traduzida na queda e constituição de sucessivos governos que pela sua curta duração não podiam cumprir o respectivo programa político. Paralelamente, a juntar-se a estas dificuldades interinas e a agravá-las veio a entrada de Portugal na Primeira Grande Guerra o que implicou uma mudança do centro das atenções por parte do governo central e o desvio de verbas e mais uma vez discussões partidárias em redor da participação ou não entrada de Portugal no referido conflito. Para além destas razões explicativas, podemos destacar ainda outra que poderá ter sido a mais determinante e que se prende com o facto de o porto de mar de Leixões servir a cidade do Porto que, naturalmente, defendeu os seus interesses e, por ser mais forte, venceu as expectativas e os esforços para que se visse concretizado o desejo do nosso perfilado.
Podemos pois rematar referindo que o Padre Chaves ficou guardado na memória colectiva fangueira como um batalhador que persistiu com a sua luta durante aproximadamente trinta anos em prol de um bem comum: Fão. Morreu no dia 3 de Dezembro do ano de 1939 com a saúde debilitada, desprovido de riqueza e com o seu barco de quimeras naufragado por não poder atracar num porto de mar em Fão.