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Rua Capitão Jorge Larcher

Volvido um mês, é tempo de prosseguir viagem… Gozando e aproveitando com deleite o ambiente primaveril que, timidamente, nos tem dado o ar da sua graça, o novofangueiro continua a sua visita às ruas de Fão.
Partimos da rua de Serpa Pinto, calcorreamos caminho e rumamos um pouco mais para norte.
Para trás ficou o templo do Bom Jesus que, imponente, saúda os transeuntes, com as flores dos seus jardins a bailar sobre o seu fino caule a cada toque da brisa vinda do Cávado.
Seguimos pela estrada nacional, avistamos o edifício do hospital, sentimos a vida a pulsar e a acontecer, carros que passam de aqui para ali, pessoas que, apressadamente, se movem impelidas por uma energia invisível, alheias aos pormenores e encantos que só um olhar atento é capaz de captar… decidimos cessar esta nossa deambulação nas proximidades da Ponte D. Luís Filipe, na rua Capitão Jorge Larcher.
Esta é uma das vias que permitem o acesso à Estrada Nacional 13 pelo que, em alturas de maior afluência de visitantes à nossa vila, leia-se época estival, o trânsito pela sua calçada é quase que imperativo.
Nesta altura do ano, por lá passa um elevado número de veraneantes, o que não deixa de ser interessante e curioso se atendermos a um dos interesses do nosso perfilado.

Jorge das Neves Larcher é mais um caso de não fangueiro que amou e nutriu um grande carinho e extrema admiração pela nossa vila.
Nascido na cidade invicta, Larcher conheceu Fão e aqui passou uma boa parte da sua vida, dado que foi esta vila que elegeu como local para gozar os seus períodos de férias.
Desde cedo que se envolveu na organização de várias festividades cuja realização visava proporcionar momentos de entretenimento a banhistas (oriundos na sua maioria de Barcelos) e à população endógena.
Ao longo da sua vida dedicou-se a diversas áreas como a arqueologia, a história e a etnografia, o que o tornou num indivíduo de formação eclética.
Jorge Larcher foi um grande entusiasta e apaixonado pela história, belezas naturais e pela singularidade da nossa terra. A obra Monografia de Fão, editada pelo Grupo dos Amigos de Fão, em 1948, é um testemunho disso mesmo. Este códice de fina espessura guarda, dentro das suas páginas, toda uma série de informação que oferece aos seus leitores a possibilidade de viajar até tempos remotos e épocas ancestrais e de ficar a saber as lendas, as alcunhas, os usos e costumes, as palavras próprias do vocabulário fangueiro, as técnicas de pesca e aborda a questão da eventual construção de um porto de mar, apresentando argumentos que viabilizavam a sua concretização.
Larcher foi o grande impulsionador da criação do Grupo dos Amigos de Fão e a sua figura proeminente. Encetaram e concretizaram diligências com o intuito de promover o desenvolvimento da localidade e praia, de conseguir atenuar a situação de pobreza dos organismos de assistência, de defesa e virados para as actividades recreativas que padeciam de baixos recursos económicos de maneira a que vissem a sua sobrevivência assegurada.
Outras questões mereceram a sua especial atenção e apreensão e foi para a sua resolução que moveu esforços. Assim, do seu empenho e preocupação resultaram o calcetamento de algumas ruas, o estudo das condições da barra, o abastecimento de água a Fão e demais freguesias do concelho. Esteve na base da obtenção de verbas para o hospital-asilo, salão paroquial, escola primária e bombeiros e destinadas para a beneficência.
Os primórdios da década de 40 do século transacto marcaram-se pelo agravamento do seu estado de saúde, porém, até ao momento do último suspiro, Larcher jamais deixou de acudir todos os que solicitavam os seus préstimos.
O nome do perfilado é sinónimo de um trio de papéis que desempenhou no teatro fãonzense sob o cenário de praia e mar e de rio e pinhal: animador da colónia balnear, promotor e historiador de Fão e um seu filho adoptivo que repousa longe dela mas onde é rememorado, louvado e conservado não só numa placa granítica mas, essencialmente, nas obras que realizou e no que nos legou.