Evocações do Passado: Fão Há 100 anos na imprensa
Fangueiro Jaime Lopes Pereira tomava posse como Administrador do Concelho
Se há um século atrás a vida era bem mais diferente, seja a nível social ou económico, o certo é que muitas das preocupações que se viviam em Fão e em todo o país eram bem comum às actuais, mas a maior diferença de todas pensamos que seria o protagonismo que a terra tinha em várias áreas, fruto de vários ilustres e dinâmicos homens, alguns deles autênticos mecenas e benfeitores, que batalhavam pela terra, o que se poderá de denominar de bairrismo.
Desde já, destacamos que neste mesmo dia 27 de dezembro, em 1920, nos Paços do Concelho, se realizava a tomada de posse como Administrador do Concelho (actualmente Presidente da Câmara), o fangueiro Jaime Lopes Pereira, um homem que segundo o jornal da época “O Grulha”, propriedade e administração do fangueiro Emílio Fernandes, tinha já um vasto curriculum em cargos administrativos e esteve ligado a várias instituições fangueiras, tendo sido um dos membros da comissão fundadora dos Bombeiros de Fão.
Segundo o quinzenário “O Espozendense”, Jayme Lopes Pereira era parente do também fangueiro João Rodrigues Baptista, que era na altura o Governador Civil de Braga, que havia sido empossado no dia 9 de novembro desse mesmo ano de 1920.
Ora, numa investigação que fizemos, sobre todos os Governadores Civis de Portugal, encontramos este João Rodrigues Baptista, militar de carreira, como Governador Civil de Viana do Castelo em 1915 e de Braga desde aquela data até maio de 1921, mas com a informação de que era natural de Viseu. O mais certo, é que João Baptista se tenha radicado em Fão, possivelmente até por ligação de casamento ou vindo com os seus pais.
Se no “Espozendense”, não vimos grande pormenor sobre esta tomada de posse, no “O Grulha”, cujo Editor era o também fangueiro Cândido Nunes Vinha, há uma grande apontamento onde se enumeram muitas figuras presentes pela sua ligação a instituições ou amigos do Jaime Lopes Pereira, muitos deles de Fão, como por exemplo: João Andrade Novais, Emílio Fernandes, Manuel de Jesus Moraes, Victor Carneiro, Ignácio Gonçalves Turra, João Evangelista da Silva Júnior, António Gomes da Silva, Ernestino Moraes Sacramento, António da Silva Ferreira, Inocêncio Pereira Domingues Ramos, Tobias José da Silva, Manoel Joaquim Pereira, Francisco Ferreira (construtor naval), Cândido Nunes Vinha e o Padre Jerónimo Gonçalves Chaves, entre muitos outros de diversas localidades.
Nesta altura, por exemplo no nº 689 do “Espozendense”, anuncia-se a edição de uma colecção de postais (em exemplar na foto do Cemitério Parochial de Fão)), editado por José da Silva Vieira, o proprietário do mesmo jornal e cremos que também da tipografia com o mesmo nome, mas também em Fão o Emílio Fernandes, que terá contado com a colaboração do grande artista fangueiro Ignácio Turra também lançou uma colecção de postais, um deles na capa do artigo.
No mesmo jornal de 30 de dezembro, destacamos o anunciou do início do recenseamento político, com início a 2 de janeiro de 1921, para decorrer até final de fevereiro.
Ainda do “Espozendense”, cujo editor era Júlio Giesteira Lima, referimos uma pequena notícia de alguém de Fão que terá perdido uma carteira e com o título garrafal de ALVIÇARAS - ”Dão avultadas a quem entregar na redacção ou indicar a pessoas que achou (a seu dono em Fão), uma carteira com documentos, um retrato do possuidor e alguns contos de réis em notas.”
Já no “O Grulha”, sensivelmente da mesma altura e com apenas 4 páginas, destacamos um texto as más condições das ruas na zona das Pedreiras, da autoria desse jovem artista das letras e que acabou por falecer muito jovem e era o editor deste jornal – Cândido Nunes Vinha, que falava numa “Carta das Pedreiras”, de enormes poças e lamaçal, que segundo ele “nem o próprio Serpa Pinto” (explorador português em África), terá encontrado nada semelhante no pobre continente africano.

Interessante ainda um texto, em que fala sobre as diligências da Junta de Freguesia, que tentava a intermediação do Governador Civil (João Rodrigues Baptista) para que o Ministério da Instrução (Educação agora), a quem foi pedido, imagine-se, autorização para que se gaste os 3 contos de réis em sua posse, para obras de ampliação da Escola Amorim Campos, que como se sabe foi construída pouco mais de 30 anos antes, graças a esse benfeitor.
Ainda no “Espozendense”, chamou-nos a atenção dois textos, deste jornal que tinha apenas 2 páginas nesta altura há 100 anos, um deles com o título de Ano Novo e o outro Noticiário, que falam desse ano de 1920 e projectam 1921, com frases que se podem aplicar ao que pensamos neste momento sobre 2020 e 2021, como:
“Está agonizante este ano 1920, já poucas horas lhe restam de vida e a poucos deixa saudades”. A ninguém não. Os gananciosos e os açambarcadores devem sentir por ele profunda saudade, pois 1920 proporcionou-lhes um farto recheio. Para todos que sofreram as consequências, 1920 ficará na sendo um ano de nêgra memoria, de triste recordação . Oxalá que 1821 (deveria querer dizer 1921), se apresente de cores mais rosadas e alivie um pouco a dôr que por tanto tempo nos atormentou. Oxalá, mas não nos parece …
Ou então e lembremo-nos que se viviam tempo terríveis do pós I Guerra Mundial e da pneumonia espanhola:
”Avisinha-se o desaparecimento do ano, para dar lugar ao de 1921 que nos bate à porta. Dar-nos -há o novo ano melhores dia que o seu antecessor? Ou será ele o continuado dos fatores apavorantes, que a Grande Guerra ” (agora poderia dizer-se a pandemia) ”trouxe ao povos europeus. Quem póde responder de pronto a estas interrogações, quando a questão economica, a questão social se vislumbram cheias de sombra no horisonte?! Sim, quem poderá prever o dia de amanhã?"
Este texto termina com um incentivo aos portugueses para ganharem ânimo e motivação para lutar para a prosperidade do futuro e um melhor 1921.