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JOÃO PEDRAS
ALFAIATE HÁ 50 ANOS

João Soares Pedras tem hoje 61 anos e com 11 vividos começou os primeiros passos numa actividade que nunca mais largou.
Fugindo à dureza da construção civil, iniciou os primeiros “alinhabos” com o Mestre Agonia Pereira, que tinha atelier de alfaiataria em Esposende, mesmo em frente à Câmara e em Fão, na rua da Cruz.
Nessa época tinham espaço aberto da mesma arte o António Peixoto e também o José Maia, embora este repartisse essa actividade com a do café .
A chegar aos doze anos o João já galgava diariamente a estrada até Esposende e com ele partilhavam o percurso o Ramiro Viana, o Iaúca e o Fernando da Julita, que repartiam entre Fão e a sede concelhia o tempo de aprendizagem.
Com o mestre Agonia trabalhava o Chico Pombo e o Amândio Padeiro já como “oficiais”, vindo este mais tarde a estabelecer-se por conta própria na rua dos Veigas, completando com António Lapa Pinta o lote de artesãos de alfaiataria a laborar em Fão.
Até à sua mobilização para Angola em serviço militar, o João adquiriu conhecimentos e prática que o deram já como um alfaiate experiente. Em Angola, ainda em serviço militar na chamada Companhia dos Diamantes, o João teve autorização para comprar uma máquina de costura e nos seus tempos livres exerceu a actividade de alfaiate para os civis, que lhe dava alguns rendimentos. Não lhe faltaram aliciantes profissionais para ficar por lá mas o coração fangueiro apelava bem mais alto.
Por cá o João Pedras era já, desde bastante jovem, um jogador de futebol exímio, tendo militado nas camadas jovens do Esposende e logo depois no clube de futebol de Fão, onde foi atleta, treinador e dirigente desportivo ao longo de um percurso desportivo.
Nas lides desportivas deixou sempre a imagem de um fangueiro de gema e uma pessoa ponderada e respeitadora, granjeando bons amigos.
Essa mesma imagem permanece nas relações sociais que desenvolve no seu dia a dia.
O João casou aos 27 anos e estabelece-se por essa altura como alfaiate na casa onde ainda hoje mora, ali no Largo do Fontes, como é mais conhecido.
Numa época onde o pronto a vestir das grandes lojas ainda não afectava o negócio, o João não tinha mãos a medir e muitas das fardas da hotelaria da nossa região saíram do seu atelier. Foi ele quem vestiu todos os funcionários do Hotel do Pinhal, durante um Concurso de Miss Europa que ali decorreu no período áureo daquele estabelecimento hoteleiro.
Atento sempre às revistas de moda masculina, o João confecciona também para senhoras, sobretudo conjuntos saia-casaco, embora as suas encomendas sejam em grande parte fatos para homem.
“Habitualmente são as pessoas que trazem os tecidos normalmente em lã ou fibras sintéticas, que compram nas lojas especializadas porque se aperceberam de padrões que gostam, ou viram em outras pessoas. Outras vezes, com base em revistas ou amostras, sou eu que compro nos armazéns que já me fornecem”, diz-nos o João.
“Procuro ter sempre revistas com modelos actualizados para propôr ao cliente, embora por vezes este já traga a ideia do que pretende”, acrescenta.
Longe vão os tempos em que as pessoas estreavam os fatos novos feitos à medida, na altura das Festas e da Páscoa. Era o S. Miguel dos alfaiates e das costureiras.
Hoje são sobretudo os casamentos que levam as pessoas a adquirir fato novo mas os pronto a vestir apresentam oferta muito variada. Claro que aparecem sempre as pessoas que precisam de uns ajustes na roupa que compraram e lá sobra trabalho para o João nesses arranjos.
Mas não faltam os clientes fiéis que não prescindem de um fato feito à medida, de talhe artesanal, para que não lhes sobre pano nas mangas ou lhes falte nos ombros.
É que um fato de qualidade média feito à medida, prontinho e já com o tecido e forros ronda os 200 euros, o que concorre muitas vezes em preço e requinte com o que se vê nas lojas de pronto a vestir.
Não se vislumbram novos profissionais artesãos em alfaiataria na nossa Vila e o João pretende assegurar ainda por muitos anos esse serviço. Enquanto Deus lhe der vida e saúde!