Fechar

TIPOGRAFIA VIEIRA-UMA OFICINA MUSEU COM MAIS DE UM SÉCULO

A Tipografia Vieira foi fundada em 1888 em Esposende por José da Silva Vieira, pai de António da Silva Vieira, que no princípio dos anos 60 do século passado a trouxe para Fão, onde ainda hoje funciona.
António Vieira tem hoje 92 anos e foi tipógrafo durante várias dezenas de anos, inicialmente com o seu pai e seu irmão José e mais tarde, após um período de emigração no Brasil, por conta própria com a transferência da actividade para a Rua Padre Alaio em Fão, onde casara e ainda hoje reside.
Naquele tempo a concorrência era reduzida por falta de estabelecimentos na região e o trabalho era muito e proveitoso.
Com a pressão do trabalho, o filho Rui com 12 anos, começou a ajudar a tempo inteiro nas tarefas da oficina, deixando assim os estudos e permanecendo até hoje naquela actividade.


Entrando agora na pequena tipografia, ao fundo podemos apreciar o trabalho de uma máquina de impressão manual com pedal, a que em tempos foi adaptado um pequeno motor mas sem os resultados esperados, sendo entretanto retirado.
Lateralmente podemos apreciar 7 cavaletes em madeira envernizada, móveis de configuração apropriada com várias dezenas de estreitas gavetas para recolha das várias colecções de caracteres feitos em chumbo, zinco, e antimónio e outros acessórios metálicos, entre os quais os filetes de latão, metal e ferro, que permitiam ao tipógrafo a composição do quadro.
Os espaços, as entrelinhas, os quadrados de várias espécies, as gravuras em zinco ou em plástico são outros elementos da terminologia desta actividade de composição manual, que obrigava a elevada destreza e atenção, para que o trabalho se executasse com qualidade.
No seu espólio podem ver-se zincogravuras de várias gerações, de inúmeros trabalhos apresentados, nomeadamente de cartazes das Festividades da região. Algumas gravuras, bem antigas, eram feitas à mão com base em madeira, o que será de preservar.
A quantidade de acessórios guardados naquele bonito mobiliário, a precisar de urgente recuperação e talvez protecção, impressiona pelos inúmeros tipos de letra e pela diversidade , fruto da acumulação dos muitos anos de actividade, constituindo um espólio muito interessante, com uma história demasiado importante no nosso concelho.
A curiosidade orienta-se para outras peças e damo-nos a apreciar 1 prelo para provas, 1 prensa bem antiga, 1 máquina de picotar, 1 guilhotina e 1 máquina de agrafar, todas elas com largas dezenas de anos de forçado trabalho. Tudo manual e de espremida eficácia. Talvez deslumbrante aos olhos de qualquer peregrino.
Outros acessórios como o compenedor, o topómetro ou regreta, as espátulas para estender as tintas, os cunhos de apertar as chapas, os numeradores e as galés, onde se montam os quadros, estendem-se por cima dos cavaletes e da mesa do prelo.
Pese o facto de ser uma tipografia de composição manual onde ainda se executam trabalhos como facturas e recibos, cartões de visita, panfletos, fichas, convites e outros do género, a Tipografia Vieira aceita todos os trabalhos de artes gráficas , fruto de parcerias com outras unidades com tecnologia mais avançada.
Daí que mantém ainda alguns clientes fiéis, quase todos eles de fora de Fão, sustentando assim a sobrevivência de um espaço que reflecte a história de uma arte de composição e impressão que deve ser preservada, pois foi suporte de uma imprensa influente e socialmente interventiva, que marcou os finais do século XIX e parte do século XX do nosso concelho. O Rui Vieira, desde a reforma do pai, tem procurado garantir a sobrevivência deste espaço ainda funcional, de ambiência museológica, com elementos a nível de mobiliário específico, acessórios de composição, de impressão e de acabamento a merecer a maior atenção da autarquia , pelo significado que tem para a história concelhia, pela riqueza que tem a nível cultural, pelo interesse futuro como património único a interagir com as novas gerações.
Se tanta importância se dá hoje aos Museus do Pão que proliferam por esse país fora, numa altura em que os processos de fabrico já nada têm a ver com os antigos fornos a lenha, interessante seria, já na era das novas tecnologias, da Internet e dos teclados digitais, que alguém se preocupasse, enquanto é tempo, com uma Oficina de letras e gravuras, onde a única “ponta” de electricidade utilizada apenas serve para alumiar, sendo todo o processo manual e mecânico, de simplicidade rara na interiorização das antigas formas de compôr e imprimir.
Sem dúvida, mais um Museu a considerar para esta Vila, num espaço que incluísse uma biblioteca e um centro Internet, de garantida coabitação útil e pacífica, sem conflitos geracionais.