O FOJO OU O SÉRGIO DO FOJO
Nenhum estabelecimento em Fão se identifica tanto com o seu dono como o Fojo. O Fojo ou o Sérgio do Fojo, são identidades que se miscigenam e se confundem ou entrelaçam desde a sua génese.
Pode-se afirmar sem probabilidade de erro, que depois do Hotel Ofir, o Fojo é o espaço de Fão mais conhecido no estrangeiro, pois muitos foram os turistas, ao longo de várias dezenas de anos, que encontraram ali momentos de emoção inesquecíveis, mercê da diversidade de elementos decorativos ligados ao rio e ao mar, do ambiente característico enebriado pela música naif do Sérgio compositor, executante e cantor .
Nos elementos decorativos prevalecem as mós graníticas de velhas azenhas que servem de mesas ou suportes, as âncoras, os apetrechos da pesca marítima ou fluvial em uso na zona há dezenas de anos, as redes de pesca, as inúmeras referências aos velhos lobos do mar.
As mesas e bancos em traves lenhosas estendem-se por 2 espaços diferenciados. A entrada emerge num módulo redondo que mostra o formato do velho Fojo e chama-nos a atenção logo à direita a “Mesa de Bordo”, a “Mesa dos Pescadores”, a “Mesa dos Pobres” e à esquerda, tipo museu lacustre, a “Mesa do Tone Penedo”. Em frente o velho e robusto balcão testemunhado por quadros de registos antigos dos Estaleiros Navais, que se situavam onde hoje está localizado o Fojo. Muitos registos de nomes no tecto e as suas “máximas”, muito apreciadas pelos seus indefectíveis clientes, vivem suspensas armadas em folhas de cartolina negra.
Um curto degrau lança-nos num outro espaço em formato quadrado, desnivelado e com área de luz natural voltada para o rio. Uma lareira buçal recebe um pequeno lenho logo à direita e o espaço restante obedece ao ambiente inconfundível do Fojo, com prevalência dos elementos fluviais e marítimos, onde sobressai a Senhora da Bonança em imagem, padroeira e protectora da classe piscatória.
Encontramos o Fojo bem mais arejado e com pinturas quentes de tratamento recente, limpinho e bem acomodado.
Lá fora, o arvoredo encobre uns bons espaços de ambiente “survivour”, com mesas em ligeira esplanada e a paisagem estende-se graciosamente pelo Norte sobre o Cávado. A velha ponte de ferro ali à beira, reforça o entrançado sob a folhagem que se debruça sobre o rio.
O Sérgio, brevemente sexagenário, criou o Fojo há 34 anos. Vivia-se então em ambiente de mudanças e o sonho da revolução trouxe o Sérgio de Timor e acalentou-lhe a alma o seu projecto de um barzinho junto ao rio, onde passou muito do seu tempo.
O Sérgio trabalhou inicialmente na Fábrica de Serração do Felgueiras, que funcionava ali ao lado e com o seu encerramento rumou à outra que também fazia Moagem, a do Albino, onde ainda está hoje a sua chaminé em tijolinho, velha referência de uma actividade industrial pujante.
Mandou fazer um projecto que remeteu às diversas entidades competentes e conseguiu autorização escrita para concretizar o seu sonho. Um misto de “Apolo XI”” e de um moinho, terão arquitectado o primeiro edifício do Fojo. Criativo como sempre foi, ditou várias metamorfoses até aos dias de hoje. Enquanto a norte a APPLE plantava centenas de árvores em zona húmida e sem qualquer êxito, o Sérgio rodeou a sua “casa” de choupos viçosos, com quem conversava, com regas intervaladas na sua fase de crescimento.
Um tufo arvóreo invadiu então a paisagem e o Fojo protegeu-se das Nortadas, que deram nome à bebida mais preferida dos visitantes.
Ali ao lado nascia sempre em Janeiro a estacada para a lampreia e o seu centro em bico, o fojo, deu nome a este bar típico onde muitos aspectos do rio continuam a persistir em relembrar muitas histórias e cantigas.
Neste museu ligeiramente anarquizado, onde reside também muita poesia e folhas soltas com muitos escritos que registam pensamentos “Sergianos”, pode-se beber um copo sem medida, onde afinal a medida é o tempo que lá passamos, as canções que escutamos, o que lemos e pensamos. Tudo à custa de alguém que viveu a criar e recriar o que a natureza lhe cedeu…