Grande foi a satisfação com que recebi a notícia da persistência de um jornal em Fão. Também eu, como António Esteves, Armando Saraiva e Cândido Hipólito Reis, fui fundador co-proprietário e colaborador, tanto na confecção como com escritos, do avô “O Fangueiro”, que agora se revê no neto electrónico “O Novo Fangueiro”. Assim se continua também, de modo novo, uma tradição de jornais que vem dos finais do século XIX. Fão era, no distrito de Braga, campeão de jornais, às vezes mais do que um em polémica de circunstância. Isso espelhava as capacidades económicas e culturais da terra, com elevado número de pessoas escolarizadas e a estudar, ocupando o primeiro lugar numa estatística concelhia.
A origem do nome de Fão, ou a sua etimologia, cada vez mais me convenço disso, é em fan(g), radical germano-visigótico, que se alatinou, significando “terreno lamacento, alagadiço ou de inundação”. Ligam-se-lhe fangueiro, fanico e fagil, este a designar o terreno baixo, antigamente alagadiço, que fica ao sul da Bonança. Na língua portuguesa actual, o radical aparece num termo bem usado hoje para designar tratamentos de cura com lamas quentes ou parafango.
Ora o espírito criador perpassou, segundo a Bíblia, por sobre as águas primordiais. Fão tem essa origem sui generis, pois, ao contrário do que é normal e favorável geograficamente, nasceu e cresceu na margem esquerda de um rio português. A sua história, com altos de esplendor, sobressaindo até há pouco e dando-lhe o primeiro lugar concelhio, hoje perdido, decerto recebeu misteriosamente essa energia das águas, que se podem designar por genesiacas, como as do Génesis bíblico. Com as águas da terra e com as águas do mar, fez-se o sal aqui. E o sal ainda escorre de alguns nomes e de algumas paredes de casas antigas, à beira-rio, que o vendiam e exportavam. É anticorrosivo, salga para duração do que se come e alimenta.
Temos a recuperar uma memória da água e do sal e este esforço juvenil de conservação de um bem, para que não se corrompa e acabe o espírito do celebrado amor fangueiro à terra, merece o aplauso e colaboração. O “em linha” de inovação, mais rápido e mais global (concordamos que não mais rico) atesta um espírito renovado que, oxalá, seja catalisador de uma revitalização de Fão. Rima e pode ser com verdade.