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Estes dias ouvi dizer que a Primavera andava por aí. Fresca, húmida e com atrasos na floração.
Por fora já se notam os campos estendidos de amarelos e também as camélias prometem muitas pétalas para o tapete do mosteiro, sempre magnífico .
Curiosamente em Fão a Páscoa tem e teve sempre a ver com o cartaz religioso de animação festiva e em tempos foi penosa a perda do espectáculo de encenação dramática da Semana Santa em favor da sede concelhia.
Ainda hoje não tem sentido como se perdeu uma tradição daquelas, num tempo em que havia homens, os tais “antigos”, rijos, material bastante, insígnias, o senhor morto, a mater chorosa, as lanternas que pendiam luz, reforçada pelos “fachos”, os encapuzados que assim continuaram pela perda nostálgica, o homem da matraca e do reque reque.
O cenário escurecido das lâmpadas mingadas pelo luto e as ruelas aconchegadas davam o toque certo a um cartaz romanceado de cor trágica, da viagem enegrecida ao Calvário, dos verdugos, da cruz arrastada, do ranger dos elos das correntes enferrujadas.
Uma das maiores derrotas de um fenómeno de grupo que teve tradição , que teve passado. Curioso também em terra de tanta combatividade bairrista. Falta de visão em líderes cansados ?
Sabe-se que a Santa Casa da Misericórdia, senhora de ferramentas especializadas, recuperou um acervo religioso magnífico, quase em fim de carreira, que a qualquer tempo pode fazer ressurgir o fenómeno das noites santas e causar invasões de crentes no espírito criativo da alma fangueira.
Não faltará quem dê contributos para os melhores cenários, quem se voluntarie para figurante, quem conceba as suas vestes por guião.
Constituir um pequeno grupo de pessoas interessadas nesse reviver, fazer os levantamentos, fazer o plano, talvez em bienais de arte santa, numa terra de encenadores de cuidadas recriações, ficaria muito bem à Santa Casa. Revitalizar tradições, recriar uma procissão de Semana Santa era associar um Museu vivo, revivido, com um património singular e temático a ressuscitar um passado de fé e mística bairrista.
Um desafio também ao bairrismo, à força energizante de quem sente no grupo o êxito dos acontecimentos, ao brilho da multidão que se confunde com o querer.
Depois do trabalho brilhante da criação do Núcleo Museológico da Santa Casa, esta já não pode ficar indiferente e deve trazer para a rua a força do seu conteúdo.

Curiosamente muitos jovens esperam esse passo em frente!