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RUI DE AGONIA PEREIRA
Professor Universitário e Investigador Científico

Fangueiro, de 73 anos de idade e filho de um homem que deixou marcas e obra na nossa vila, apesar de ter nascido na “rival” e vizinha Esposende. O Doutor Rui Agonia é uma das personalidades, cujo prestígio e notoriedade na área das ciências, ultrapassou largamente as nossas fronteiras. Para enumerar resumidamente um pouco do seu vasto currículo, facilmente poderemos concluir que se trata de alguém que merece todas as referências, consideração e distinção de todos, incluindo as entidades locais e um enorme orgulho para os seus conterrâneos.

Rui António Ferreira de Agonia Pereira, formado em Matemática pela Universidade de Coimbra, sobressaiu logo como bolseiro do Instituto Gulbenkian de Ciências, onde foi Chefe de Investigação e Director Científico do Centro de Investigação em Cálculo Científico. Foi Director do Departamento de Tratamento Automático do gabinete para a Pesquisa e Exploração de Petróleo do Ministério da Indústria.
Director do Centro de Investigação em Matemática da Universidade Livre.
Director do centro de Investigação em Matemática do ISLA – Instituto Superior de Línguas e Administração.
Reitor da Universidade Livre.
Director do Departamento de Engenharia Electrónica e Informática da universidade Lusíada.
Professor Emérito das Universidades da matemática e Ciências de Computação.
Arguente em Teses de Doutoramento.
Colaborador Científico e Técnico de Centros de Investigação e de Universidades Estrangeiras.
Convidado para proferir Lições, Conferências e orientar Seminários quer em Portugal, quer no Estrangeiro.
Membro das Academias de Ciências de Nova Iorque, de Moscovo e do Communications of the ACM.
Membro Director da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Galardoado com a medalha de Investigação pela Universidade de Brno, na república Checa, pelos seus trabalhos de grande relevo na investigação.
É Prémio ISLA.
Prémio Internacional “Gago Coutinho”
Louvado pelo Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Chefe do Estado-maior do Exército.
No presente investiga na área da Linguística Computacional.

Feita a introdução deste ilustre, mas por sinal humilde fangueiro, que se surpreendeu com a nossa proposta de entrevista, mas que muito nos honra, passemos ao seu conteúdo.

Ainda em tenra idade com a irmã Zita

NF- Quem é o Dr. Rui de Agonia Pereira?
Rui Agonia- ”Antes do mais gostaria de lhe dizer que eu não podia furtar-me, desta vez, a responder ao que me pergunta por se tratar essencialmente de Fão, onde por vezes tenho a Felicidade de reencontrar fugitivamente o paraíso perdido da infância. Esta que me reporta aos meus Pais: à minha Mãe que me moldou na luta pela vida com a tolerância que a gestão da casa que supervisionava determinava; ao meu Pai que muitas vezes ,ainda muito menino, me pasmava pela sua rectidão de carácter e a sua intuição - um verdadeiro artista. A pergunta ”Quem é o Dr. Rui Agonia Pereira?” tem o seu encanto, isto é, agrada.
Nas relações científicas ela significaria, sem rodeios, o que fez -o que publicou em revistas da especialidade, portanto com massa crítica – que prémios obteve e que funções científicas exerceu ou exerce. É A IDENTIDADE CIENTÍFICA DE UM HOMEM DE CIÊNCIA, por exemplo de um investigador.

Acredito que na sua indagação estivesse esta questão fundamental que é o bilhete de identidade de um homem de ciência. Mas também me reporto que gostasse de saber da identidade na acepção normal do termo. Aquela que se constrói ao longo de uma vida – e a minha já conta com 73 anos.
Penso que sou um homem de ciência que, naturalmente, refugiando-se no estudo desde a metade da infância que vai aproximadamente aos 11 anos (sê que me não engano) e na reflexão, preza os valores fundamentais que herdou dos Pais e da educação que os seus Professores Pio Rodrigues e D. Ida lhe deram na instrução primária.
Esses valores são os do trabalho, da seriedade, da justiça, da humildade, da solidariedade e de outros que ao moldarem-me desde a infância são o mais nobre legado de meus Pais.
Como atrás lhe disse tenho 73 anos mas ainda dou mestrados e realizo muitas conferências. Os meus cromossomas observam que se puder devo trabalhar até morrer. Não posso deixar de lhe transmitir que venho dum tempo que fazia os rapazes de boa têmpera. Recordo-me que sendo um bom aluno, talvez por ser um aluno premiado todos os anos, o Professor Pio Rodrigues trabalhava com os alunos, tal como a Professora D. Ida, fora horário e mesmo aos sábados e por vezes aos domingos. Era um gosto estudar matemática. Lembro-me dos problemas conhecidos como” de torneiras”. Eu estava na infância mas vida fora nunca me canso de citar – justamente -os bons Professores que tive Só assim se consegue saber matemática como, aliás, qualquer outra disciplina. Sem trabalho sistemático e força de vontade nada se alcança. Costumo dizer que entre um homem e outro homem a diferença não é de palmo.
Quem se não molda no trabalho jamais trabalha. Logo não aprende. Hoje as práticas pedagógicas na infância e na adolescência não recompensam o trabalho como devia acontecer. Não haverá já hoje Professores Pio e Professoras D. Ida?
Ainda não licenciado, muito me entusiasmava conversar com os Padres Jó e Avelino. Duas grandes personalidades que, como outras, muito me influenciaram. Eram homens de saber: de lógica que eu já cultivava a par de participar nas melhores iniciativas da minha terra.
Olhe que há tempos chamaram-me a atenção para ver o Site do Clube de Futebol de Fão e na verdade como mo disseram, eu lá estava no começo do futebol “oficial”em Fão.
Fão tinha um grupo de adolescentes que vindos do Seminário, na sua maioria, como os Albino Pedrosa, o Solinho, o Saraiva-a que Fão ainda tanto deve - e outros como o Qui Qui, o Cândido Reis, o Eurico Sampaio Castro que emprestavam um ambiente de trabalho e elevação a Fão.
E foi nessa esteira do trabalho, do saber e do aprender que ainda não licenciado fui Prof. de Matemática, Físico-Químicas e Desenho do Externato Secundário do Sabugal onde estive durante 3 anos. Terra de que ainda hoje tenho saudades. Casei na Guarda onde tive comigo também grandes amigos como os Drs.Barrote, meu Padrinho de casamento, e Agostinho Reis, a quem devo dos maiores elogios que tenho tido -precisamente por também com ele como grande Mestre eu ser um grande aluno embora já um estudante marcadamente trabalhador.
Ainda há dias fui ao Sabugal participar num Colóquio proferindo uma conferência sobre o Ensino- Aprendizagem via e-Learning.

Tenho de terminar esta descrição da construção da minha identidade que venho fazendo acentuando que a vida vale pelo que nela fazemos – cada um com o seu skill, o seu trabalho, a sua alegria - porque o mundo não é feito de génios,mas antes de pessoas normais com os valores que venho realçando na essência onde a verdade da construção da personalidade mora.
Não duvido de Gongora que a propósito de definir tempo dizia que tudo converte em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada. Mas deixa o rasto do que fazemos. E isso anima-nos e dá-nos força para prosseguir. Santo Agostinho, ainda a propósito do tempo, que só admitia o presente, tinha o presente das coisas presentes que é a visão; o presente das coisas passadas que é a memória; e, por fim, o presente das coisas futuras que é a esperança que tanto nos norteia a construir o caminho caminhando na evolução, na sucessão, enfim, no sentido que é o tempo e faz a vida.
Alonguei-me ao mostrar-lhe quem sou.”


NF- A matemática, foi algo que se relevou muito cedo de forma tão evidente, ou teve alguma influência pessoal para se destacar nessa área?
Rui Agonia- ”Tenho a dizer-lhe que a Escola era um “hobby” porque a ocupação dos tempos livres tinha a grande virtude de ser um complemento á formação e educação escolar. Não me lembro de qualquer colega meu desde a 1ª à 4ª classe da Instrução Primária que não soubesse a matemática. Era grande a força de vontade dos professores em terem os alunos a aprender bem. Não me lembro de qualquer aluno queixar-se das reguadas que os professores davam para que os alunos melhorassem o seu esforço e interesse em aprenderem. Havia, na generalidade dos alunos, muito gosto na participação nos trabalhos fossem eles de geografia, de matemática, de história ou português. Mas que grande Escola onde tinha de se memorizar e interpretar. A atenção era factor da maior importância: o Professor Pio Rodrigues ocupava o centro de um quase círculo onde os alunos liam de um texto que a cada passo o Professor interrompia para que outro aluno prosseguisse. Mas no final da leitura do texto todos o explicavam cada responsabilizando-se pela parte que lera. Que grande ensino. Pelo secundário fora já se tinha adquirido na Primária toda a gramática. As análises morfológica e sintáctica eram uma constante na minha Escola Primária.
Na matemática todos estavam atentos porque um começava um exercício no quadro e outros alunos eram chamados a continuar o raciocínio.

Acordava de manhã com as contas na cabeça. Era, na verdade, uma Escola de entusiasmo e muito gosto -muito trabalho, como hoje o devia ser.
Nunca tive qualquer influência para além do gosto e interesse pelo trabalho que os meus Pais e Professores tão bem incutiam em mim.
Vou dar-lhe uma novidade, porventura:
Tendo sido, e sendo, Professor de algumas Universidades e, naturalmente, ministrando as últimas cadeiras de Matemáticas aos licenciandos em Ciências Matemáticas e em Engenharias, confesso que nunca vi qualquer diferença entre as diferentes cadeiras, isto é, a dificuldade que via, e vejo, resulta dos alunos não estudarem certas disciplinas e estudarem outras onde, obviamente, são melhores alunos. Não vejo excepção a esta minha experiência. Até à cadeira mais sofisticada de uma licenciatura não há nada de transcendente. (Já o professor Andrade Novais de quem eu tanto gostava assim mo dizia e ele era um grande pedagogo para além de ser um excelente Professor de Matemática que ainda hoje o tenho bem presente). Há sim que estudar. Ganhar hábitos de trabalho - é o segredo. Se assim procederem todos vencem, em particular a matemática.
Minha Mãe muitas vezes me chamava a atenção que já chegava de estudo .Havia trabalho à minha espera.
Tenho muitas saudades desse tempo que fez de mim o que sou nas qualidades de trabalho e seriedade com que actuo no quotidiano. Um trabalhador com método e sistematização. Na certeza de que pelo trabalho tudo se vence. É uma parte importante que construiu a minha identidade. Admito terem sido as qualidades fundamentais para que me tivesse destacado na minha actividade de homem de ciência .Costumo dizer que desde que nasci sempre me pagaram para estudar e sempre pelo estudo fiz a minha vida. Como deve presumir muitas foram as bolsas de estudo que dei a muitos licenciados nas matemáticas, em física e em algumas engenharias e embora os bolseiros tivessem de ter média da licenciatura igual ou superior a 16 valores sempre indaguei para mim mesmo se continuariam a ter interesse pelo estudo. “





NF- Quais as suas principais recordações da meninice ou juventude em Fão?
Rui Agonia- ”Tive uma infância onde adquiri bases sólidas de uma boa personalidade com muito bons padrões de comportamento - de acções.
A minha escola dava ênfase à capacidade de resolução de problemas, o que eu adorava. Sempre vivi amigavelmente com os meus colegas e amigos. São óptimas as minhas representações de criança e sem dúvida que foram garante de projecto de adulto.
Sempre me reporto, com enorme saudade, à minha infância. Vejo-me bem moldado pela minha Mãe que me ensinou a gerir tudo na vida. Era do pelouro de minha Mãe o escrupuloso cumprimento dos afazeres do dia a dia. Todos, eu e meus 3 irmãos, íamos para a cama ao toque das trindades, o que se não faz hoje!, e logo muito cedo estávamos no chuveiro de água fria. O gosto pela escola correspondia ao gosto que os Professores Pio Rodrigues e D.Ida tinham na boa aprendizagem dos seus alunos.
Mas não esqueço que quando aos seis anos tive o prémio por ser o melhor aluno só pensava no galardão que muito também eu devia a minha Mãe.
Meu Pai transmitia o gosto de criar e fazer coisas. Quando fazia os carros de bombeiros e capacetes, enxadas e ancinhos era essa coisa de meu Pai que vinha ao de cima.
Mas também nunca andava de bicicleta – quase sempre em trabalho - (nesse tempo havia o trabalho infantil que muito ajudou na construção da minha identidade) que ao recolher a não limpasse e a oleasse.
Muito pequeno já corria o concelho de bicicleta e às vezes até ía fora dele. Eu era um auxiliar importante na vida da casa.Sempre contente e alegre e motivado.
Era um fã dos rallies, das gincanas de bicicletas e corridas de bicicletas – lembro-me do António Torres, irmão da Dra. Ró, com quem falo muitas vezes, do Ramiro Capitão que já faleceu, do Néné que já faleceu, do Marcos Reis também falecido, dos meus vizinhos António e irmão Cândido e irmã Maria Cândida que foram para o Brasil e de muitos outros, bons e fieis amigos - da natação e também muito gostava de aprender e estudar. E fui um estudante de caris acentuadamente trabalhador.
Não é despiciente dizer-lhe que tive uma infância muito feliz com muitos amigos e recordo que a Loja de meu Pai era também uma minha obrigação de lá trabalhar e muito me lembro dos empregados de meu Pai: o Amândio, meu compadre por ser padrinho do Rui, o Fraklim que depois foi para o Brasil e era irmão da Nazaré que já faleceu, do Felgueiras e de tantos outros.
São muitas as recordações da infância. Tenho presente quanto ansiava pelas festas do Senhor de Fão, da Bonança e da de Santo António onde já adolescente também atirei ao Cântaro
Acaso o José Belo é filho do Mário Belo, um verdadeiro artista e um notável autodidacta muito bom conversador e um jogador exímio de damas, sobrinho da Maria, viúva do meu bom amigo Néné. Olhe que se assim for eu também fui moldado pela bigorna do seu avô paterno, o Sr. Alberto. Veja lá da minha memória – o presente passado.
Sabe, a ser verdade você ser filho do Mário Belo, esse excelente tocador de guitarra, tenho presente sua mãe Aurora que era da casa da Laidinha do Cais onde eu com 4 anos já ía comer as maçãs que ainda agora detenho o seu perfume.
Bem, há que mudar da construção da minha identidade. Vamos lá a nova pergunta.”


Dando uma Conferência


NF- Seu pai Agonia Pereira, foi um homem muito envolvido em toda a vida social em Fão, como analisa esse seu entusiasmo e bairrismo nessa época e se de alguma forma envolveu (contagiou) a própria família?
Rui Agonia- ”O meu Pai era um homem com disponibilidade total para servir a sua terra sem nada querer em troca. O que fez a sua vida inteira. Sempre olhos postos na grandeza de Fão que consubstanciava na promoção social do povo de Fão. Deu provas disso nas Instituições e no poder autárquico onde esteve ao longo de muitos anos.
Meu Pai servia a sua terra com denodo e muito carinho como um homem de grande integridade moral, política e profissional. Era uma das personalidades mais fascinantes que já conheci. Era um cultor da política e da sã convivência social. Tinha em todos bons amigos -creio que não tinha, no âmago, inimigos. Lembro-me do Dr. Pimenta, o médico de Fão, e de o ver na cozinha de meus pais a cozinhar os bifes. O Dr. Barrote, também médico e já posterior em Fão ao Dr. Pimenta, também tinha grande estima pelo meu Pai., como o escultor Esteves que eram como irmãos, tal como o Dr. José Novais que irmãos eram, como o Sr. Adelino Saraiva que com o meu Pai forjavam a verdadeira amizade.
Meu Pai prestigiava a sua terra por ser inteligente e muito dedicado às pessoas e aos seus problemas. Vejo os Presidentes da Câmara de Esposende, homens sérios e muito dignos, Padre Sá Pereira, Eng. Costa Leme e Prof. Carlos Martins a terem grande estima pelo meu Pai.
Era um homem muito sabedor, profundamente sério. Tenho para comigo que não houve nenhuma Instituição em Fão que meu Pai não servisse com sabedoria, humildade e dignidade sem nunca ter a menor sobranceria. Meu Pai identificou-se plena e absolutamente com o povo de Fão que muito o apreciava e estimava. Recordo-me de me ter segredado que haveria de levar a Avenida do Rio até à Barca do Lago. Recordo da imundície que era que a todos repugnava.
Meu Pai era um urbanista do tecido, na verdadeira acepção da palavra. Todos de Fão muito lhe devemos.
Foi uma referência não só para mim e meus irmãos (Zita, Ruben e Zélia) como para muitas gerações que ainda o conheceram. A intuição de meu Pai para as coisas a todos envolvia e calcinou-se em mim onde ainda muito pequeno tinha o desejo de fazer o que meu Pai fazia.”


NF-Vosso pai foi também um conhecido contestatário ao antigo regime, tem lembranças disso e de algumas consequências, que vos tenha afectado por isso?
Rui Agonia- ”Meu Pai foi sempre um homem fiel a si mesmo.
O clima de valores que se vivia em casa de meus pais era o dos valores da justiça, da coragem, da gratidão, da generosidade. Meu Pai e minha Mãe eram fiéis a eles mesmos independentemente do contexto social ou político que existisse. Os seus valores e princípios de acção firmavam-se qualquer que fosse o contexto. Meu Pai tinha uma identidade bem vincada. A sua autonomia cedo se plasmou em mim mesmo. E se na construção da identidade intervêm a autonomia – que não é afectiva mas antes racional – ela aparece comum a muitos valores da identidade de meu Pai que pôs sempre acima de tudo os valores morais.
É natural que essa postura tivesse consequências e eu me lembro dessa época de pouca liberdade para todos serem capazes de se verem uns aos outros com respeito e dignidade. “





NF-Como foi a sua vida de estudante e quais as principais fases ou relevâncias porque passou? É certo que muito cedo foi chamando as atenções pelas suas competências?
Rui Agonia- ”Já acima lhe descrevi como foi a minha vida de estudante. Quando acabei a licenciatura em Ciências Matemáticas na Universidade de Coimbra tive um momento alto da minha vida por ter muita gente a pretender que com ela trabalhasse. O convite que o Professor António Jorge Gouveia então Director da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra me fez comunicando-me que tinha sido seleccionado – eu tinha sido o melhor aluno e o mais alto classificado -para lá ficar como Assistente na Área das Matemáticas e que o Professor Manuel dos Reis, Matemático Astrónomo, meu eis Professor na cadeira de Mecânica Celeste, fazia questão para que com ele trabalhasse, foi um momento áureo da minha vida.
Cedo passei a estudar matemática aplicada, mais propriamente Computer Science, Ciência dos Computadores, e aí tive muitos momentos altos que me encheram de alegria sempre partilhada por minha mulher Maria Alice e meus pais.

Como sempre gostei muito de estudar e investigar – claro que só se pode investigar se se tiver um grande domínio da área que investigamos e, na área das matemáticas, esse background demora muitos anos, após a licenciatura, a obter-se – tinha a minha “sina”traçada: seria um estudioso profissional, o que já vinha sendo. Assim foi, de facto. Já era, então, bolseiro do Instituto Gulbenkian de Ciência e a orientação que recebia e o grande mote que recebia e continuava a ter era o da disciplina no estudo sempre a prestar contas do que se estava a fazer, em princípio expondo à massa crítica internacional o que se fazia. Prestar contas foi sempre momento alto da minha vida de estudo e investigador. Também como Professor.”


NF- Bolseiro da Gulbenkian, acabou por ser aproveitado por esta prestigiada instituição, para aí exercer muito cedo cargos de destaque? Isso foi importante e marcante para ascensão da sua carreira?
Rui Agonia- ”Quando passei de bolseiro a estagiário de investigação já adquirira responsabilidades na investigação. Havia de responder à participação para o avanço da Ciência. É isso a investigação, qualquer que seja a área em que se investigue .O prestar de contas aumenta quer a nível nacional quer a nível internacional. Na altura estudava Computer Science e estudava equações às derivadas parciais no aspecto numérico. Trata-se de uma área das matemáticas que é uma espécie de telhado delas mesmas. Já lá vão muitos anos que dei um curso no Laboratório Nacional de Engenharia Civil sobre esse tema, apaixonante.
Quase a seguir dei um curso para as Universidades e meteorologistas e ainda hoje, passados mais de 40 anos, alguns meteorologistas que vêm à Televisão foram meus formandos em área da minha especialidade de então. É a vida. “


NF- Quando e como foi receber essa primeira distinção, que foi o Prémio Internacional Gago Coutinho?
Rui Agonia- ”O Prémio Internacional Gago Coutinho está na linha do estudo de problemas ligados à Fotogrametria (etimologicamente significando medição na fotografia aérea, tirada do avião) que tem a ver, sobretudo, com a feitura das cartas ou mapas.
Recordo-me de uma conferência que fiz no Serviço Cartográfico do Exército Português para os oficiais que tratavam e estudavam as cartas militares, também já vão 44 anos. O Prémio é o resultado desse trabalho que durante alguns anos a partir da 2ª metade da década de 60 estudei e investiguei. Ainda hoje 2010 está a ser aplicado quer em Portugal quer no estrangeiro. No mundo não havia muitos matemáticos ou físicos a prosseguir essa investigação.
Quando fui galardoado com o Prémio Internacional Gago Coutinho já era Assistente de Investigação no Centro de Cálculo Científico do Instituto Gulbenkian de Ciência da Fundação Gulbenkian.
Devo esclarecê-lo do seguinte:
A actividade fundamental de um investigador é interpretar os fenómenos que se nos aparecem, isto é, explicá-los quase sempre confirmando ou infirmando as hipóteses, postas para esses fenómenos, a partir de dados observáveis. Em qualquer área do conhecimento esse desiderato é o mote do homem de ciência que faz investigação. No caso das matemáticas esse mote não é atingido nem tão pouco prosseguido por descrições linguísticas (com o verbo em acção). Antes, a matemática tem disponibilizado ao longo dos séculos cada vez melhor simbolismo – que é criação humana - que ajuda enormemente no estudo/investigação dos fenómenos em apreço, também em causa.
Desse modo é mister de um investigador acompanhar essa evolução – saber muito bem essa ferramenta – de modo a que a todo o tempo melhor possa propor solução para a necessidade que têm, ao longo do tempo, níveis do seu atendimento.
Daí que uma solução de hoje não invalide ou exclua uma solução anteriormente conseguida. A ciência está cheia desses casos.
Isto vem a propósito da minha actividade. É certo que durante muitos anos não nos apercebemos de que estamos em “ascensão”na “carreira”.Os trabalhos surgem tantas e tantas vezes numa “sina”que nos envolve. É óbvio que cedo atingi o “generalato” na carreira de investigador. Mas não é fácil ser-se chefe também na investigação ou director científico - como deve calcular. “





NF- Sobre esse cargo ligado ao Ministério da Indústria, para a Pesquisa e Exploração de Petróleo, quer especificar um pouco esse trabalho, sua importância e implicância?
Rui Agonia- ”Na esteira do que atrás acabo de lhe transmitir também participei nos trabalhos para a Pesquisa e Exploração do Petróleo que só as grandes empresas mundiais dessa área têm possibilidades de investir nos estudos quer em terra quer no mar a grandes profundidades.
Eu já era um homem que estudava áreas importantes das Ciências da Terra e havia de cuidar, no Gabinete para a Pesquisa e Exploração do Petróleo, dessa informação quer geográfica quer sísmica, fulcral para a descoberta de petróleo. Foi durante algum tempo arrumar, seleccionar e trabalhar essa e outra informação relacionada com a pesquisa de petróleo.”


NF- Foi Reitor da Universidade Livre, como foi essa experiência e como vê as actuais dificuldades para gerir uma Universidade, com os graves problemas económicos e sociais com que se deparam?
Rui Agonia- ”Quando sou Reitor da Universidade Livre já antes tinha sido Professor da minha área Ciências da Computação e logo a seguir Director do Departamento de Matemática. Repito, tudo na esteira da minha actividade como atrás procurei explicar. Mas deixo aqui um parêntesis, a saber, no sentido de expressar que tendo trabalhado em muitas Universidades – como ainda hoje o faço com 73 anos – a Universidade Livre deixou marcas de grande qualidade e de forte união nos seus alunos, licenciados, professores e investigadores. É meu ponto de vista que o País muito lhe deve. As dificuldades de hoje eram as de então. A Universidade Livre distingue-se por haver um espírito muito forte entre os seus cultores qualquer que fosse a área do saber: artes, letras ou ciências.”

NF- Qual ou quais os cargos que mais o honraram ou prazer lhe deram?
Rui Agonia- ”Esta pergunta é interessante porque me apanha a reflectir para lhe dar uma resposta. Mas a única que encontro é a de que em todo o desempenho em que tenho de estar eu estou lá e só lá. Dou o melhor que tenho e sei mas estou sempre na esteira ou seja caminhando construindo o caminho. Foi sempre a minha vida e a minha maneira de ser, quiçá, desde criança.”

NF- Considerado ao mais alto nível no nosso país, atingiu igualmente um grande prestígio no estrangeiro quer falar-nos dos países e principais participações que teve na sua área? E contar-nos alguma história curiosa que se tenha passado numa dessas viagens ou estadas?
Rui Agonia- ”É natural que sempre estivesse ligado ao estrangeiro. Não há outra hipótese porque a ciência e a investigação não existem entre muros. Só com uma massa crítica é possível prosseguir-se. É fácil calcular que as especializações restringem muito o número dos críticos. Mesmo a nível mundial. Embora, felizmente, o número vá aumentando. Mas não tem sentido a ciência /investigação sem que se tenha um número de críticos, leia-se, especialistas, que decidem do valor dos trabalhos postos ao mundo científico.
Fui um Prémio de Investigação na Universidade de Brno da Republica Checa precisamente na mesma esteira do caminho que perseguia. Não vai há muitos anos.
Tinha sido acordado um dia e hora para me ser entregue o Prémio e eu já entrava na sala em mangas de camisa e gravata na mão esbaforido que estava para ser cumpridor. “


NF- Com tantas distinções recebidas, acha que foi suficientemente reconhecido no país? E na sua terra, sente que esta sua carreira não mereceria ser reconhecida? (Falo, claro, na extensão ao próprio Município )
Rui Agonia- ”Já atrás lhe citei Gongora. É o que penso. De resto tenho sido muito reconhecido na minha vida de homem de ciência. Não podia ser mais reconhecido. Tenho a estima e consideração dos meus pares -os que me podem avaliar - quer em Portugal quer no estrangeiro. Tenho sido chamado aos maiores acontecimento científicos. Sinto-me plenamente realizado. A minha terra ou o meu concelho nada têm a fazer mais do que o que fazem: estimam-me. Tenho disso inúmeras provas. Em relação à minha terra eu sou um fangueiro cheio de amigos e amigas. Cumpri e cumpro os mais elementares deveres que a pragmática da boa camaradagem exige. E sempre o faço com excelência. Assim também aqui tenho sido sempre avaliado. Eu sou de tenra idade um homem calmo, humilde, nunca ambicioso e dotado da noção que se não devem esbanjar as mordomias. Os privilégios se não merecidos são honrarias que não dizem nada e trazem ridículo quer para os que os conferem quer para os que os recebem – injustamente, muitas vezes. É que as pessoas só fazem o que podem e os homens não são uns muito diferentes dos outros. Apesar de argumentarem que uns trabalham e outros são malandros.
É verdade que temos o sentimento de que aqueles que dispõem da Sociedade são injustos quando se esquecem de louvar os que merecem afrontando-os por promoverem outros sem merecimento.
Mas é Gongora quem melhor sentencia.”


NF- Qual a sua relação com a informática e particularmente com o mundo virtual? Será que é dos que acompanham o que se passa em Fão pela Internet?
Rui Agonia- ”Já viu que sou um especialista em Computer Science. Sou, aliás, o vice -presidente da Associação Internacional de Bases de Dados sedeada em Paris, eleito que fui há muitos anos.
É natural que acompanhe sempre que possa o que se passa em Fão.
A esse respeito apraz-me registar-lhe que vi com regozijo a continuação do Jornal Fangueiro pelo on-line Novo Fangueiro.
O concelho e, particularmente, Fão estão de parabéns.”





NF- Tem algum descendente que se interesse pela mesma área das matemáticas?
Rui Agonia- ”Tenho três filhos: a Maria Teresa que é jurista; o Rui José que é matemático e especialista em Informática; e, o Luís António licenciado em informática e igualmente dedicado à Informática. “

NF-Qual a sua principal actividade? Com 73 anos está ainda ligado a alguma instituição ou está completamente retirado? Se sim a que dedica o seu tempo?
Rui Agonia- ”Como já tive oportunidade de lhe dizer estou em franca actividade, apesar de só orientar mestrandos e doutorandos, realizo muitas conferências e continuo activo no Conselho Cientifico.

Faço investigação na área da Linguística Computacional que procura tratar computacionalmente a língua natural. Como um sub produto está a tradução automática porque também me interesso.”


NF- Sabendo que os portugueses têm evidenciado enormes dificuldades na aprendizagem e ensino da matemática, quais pensa que são as principais causas e que medidas se deveriam tomar a nível nacional?
Rui Agonia- ”Tenho respondido a esta sua pergunta invariavelmente da mesma forma que também a si já indiciei o que penso a esse respeito.
Os alunos devem ter hábitos de trabalho e aproveitarem os tempos ora para estudarem ora para ocuparem os seus tempos livres na leitura, no desporto, na música, em jogos criativos no computador, nas damas, no xadrez, nas discussões com os colegas e amigos. O iniciarem-se em trabalhos criativos é muito bom. Ainda hoje o aconselho mesmo a doutorandos, porventura, a darem aulas na Universidade.”


NF- Que ligações mantém com a sua terra natal e com que frequência visita Fão?
Rui Agonia- Não podia dizer mais sobre a frequência com que vou a Fão do que logo no início desta entrevista disse.
Trabalho muito bem nas Pedrinhas como o faço também nas Beiras sobretudo na Guarda. Como sabe é meu hábito trabalhar muito, também de noite por não dormir muito. “



Num Seminário em Paris, 1987 altura em que foi eleito vice-Presidente da Associação Internacional de Bases de Dados H B D S

NF- Que pensa do desenvolvimento (ou não )de Fão e quais as suas principais carências e eventualmente vantagens para que seja mais ou menos procurada, melhor ou menor qualidade de vida?
Rui Agonia- ”Penso que Fão merecia ser ajudada. Fão é uma jóia: Pedreiras, Ramalhão, Ofir e Fão propriamente dita.
A tendência é quase generalizada para ser terciária. A ideia que tenho ganho é a de que Esposende sendo já cidade tudo tem feito, mesmo sem querer, para ser um dormitório. Isso deve ser invertido a todo o custo.
Quando vou ao Norte, se por afazeres científicos ao Porto, logo vou a Fão/Pedrinhas e reparo cada vez mais na falta de promoção social porque falta algum desenvolvimento económico – industrial.
Um dia que queira dou-lhe uma entrevista dedicada à pergunta que agora fez a que dei resposta seca que me vai na alma e na cabeça e nos sentidos da visão e do tacto mas que é uma resposta incipiente.
Poderia ser oportuno instalar em Fão uma unidade industrial electrónica não poluente por exemplo do lado das energias renováveis.
Disseram-me que a nova Junta de Freguesia que tinha dinâmica e que é muito interessada. Isso é óptimo. Disseram-me que tinha estaleca. E que tinha os seus elementos interessados em mudar o rumo de vida em FÃO. Oxalá que assim seja.
Não chega preparar Fão para receber os forasteiros durante alguns dias. Se a indústria hoteleira não anda bem, Fão tem de ter alguma base de sustentação para as suas gentes. Fão vai-se desertificando. As pessoas a envelhecerem. Talvez no concelho, sendo a que mais possibilidades tem, é a terra que menos se tem desenvolvido. Não chega alindar o Cortinhal. Talvez a Avenida do Rio fosse uma boa achega no seu desenvolvimento turístico até à Barca do Lago com promoção de desporto náutico.
A actividade piscatória há anos que morreu quer em Fão quer em Esposende porque não cuidaram de a integrar no circuito turístico do concelho.


Com a esposa Alice e um neto














Há tempos atrás ao vir de Fão para Lisboa reparei no abandono em que estava a Estação Radiogonométrica Aeronaval de Apúlia e quando cheguei a Lisboa logo indaguei qual era o estatuto
Pensei então alargar-se os serviços do Hospital de Fão e falei nisso ao irmão do Provedor, o Chiquinho, que encontrei e ao cumprimentarmo-nos lá lhe disse que falasse ao irmão. Nada mais disse, o que é pena.”


Com estas palavras, esperemos não ter cansado o nosso interlocutor e os nossos leitores com esta entrevista, cuja publicação sofreu alguns atrasos, por limitações nossas, pelo que nos desculpamos, ao Dr. Rui Agonia e aos nossos leitores, que espero apreciem tanto como eu as palavras de tão erudito e distinto fangueiro, cuja disponibilidade agradecemos.

Jose Belo
josebelo@novofangueiro.com

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