
O "Tininho", como todos apelidávamos em pequeno e ainda o fazemos quando nos referimos a ele, muito precocemente mostrou dotes de artista, fosse com uma bola de futebol, fosse
com a viola ou até a cantar e decorar letras e outros textos.No entanto, como muitos que se fixaram noutras terras, a maioria vai-lhes perdendo rasto e nós que para além dos
laços de amizade e familiares, lhes reconhecemos atributos de grande relevância, só temos o dever de o transmitir e divulgar, saciando um pouco a curiosidade e interesse dos
nossos leitores.
Novo Fangueiro – Quem é o Ernestino Sacramento, conhecido em Fão por Tininho?
Tininho-
”Antes de me introduzir quero agradecer ao Novo Fangueiro e a ti em particular, José Belo, a oportunidade de conversarmos.
Nasci em Barcelos em 22 Junho de 1960, numa família ligada à música. Os meus avós eram músicos e os meus pais também. O meu pai Manuel Sacramento, conhecido em Fão como Né
Glória, contabilista de profissão, tocava violão e era filho de Ernestino Sacramento, oficial de finanças, tocador de bandolim e ensaiador, fundador da tradição do teatro de
revista em Fão. A minha mãe Maria Belo era também cantora, actuando nas revistas e nas festas e filha de Alberto Belo, um exímio tocador de bandolim e actor. Chamo-me Ernestino
Alberto Belo Gonçalves Sacramento. O nome foi composto a partir do nome dos avós dado que Eulália Gonçalves Turra era a minha avó paterna. Só ficou de fora a nossa querida avó
Abília Graça.
Desde criança que estive envolvido em música actuando em festas
familiares. Aliás foi para mim um privilégio ter crescido numa família onde havia festas e muitas cantigas. Lembro-me que ainda não sabia ler e certa vez cantei uma música que
tinha saído num festival da Eurovisão em “inglês”. Decorei todos os sons. Também me recordo de cantar uma canção que o teu pai trouxe do Brasil, chamada “Adeus”, uma composição
de 1947, de Silvino Neto.
Aos 8 anos descobri os instrumentos de corda através do cavaquinho. Logo a seguir mudei para a guitarra por influência do meu pai. Havia em casa violas e foi natural. No fado a
guitarra chama-se viola ou violão para não ser confundida com a guitarra portuguesa.
Estudei guitarra clássica com o professor barcelense Licínio e mais tarde com o professor José Pina.
A música florescia nas décadas de 60 e 70 e comecei a ouvir Beatles, Stones, Hendrix, Clapton, Elton John, Santana e toda a música popular proveniente principalmente dos EUA e
da Inglaterra. Aos 16 anos comecei a tocar em bandas temas destes músicos.
Fiz uma licenciatura em engenharia electrotécnica e de computadores na faculdade de engenharia da universidade do Porto, e tenho exercido profissionalmente engenharia de
software e gestão industrial ao longo dos anos. Estou agora também em actividade nas áreas de projecto electrotécnico e energia, sendo também projectista de sistemas solares
térmicos e foto voltaicos.
A minha esposa é a Julieta e tenho três filhos, Ricardo, Pedro e Mafalda. Além da música gosto de fazer “hiking” (andar a pé), mergulhar no mar com garrafa, pintar, fotografar e
escrever.
Aliás tenho um sítio na internet com algumas fotografias da natureza no PICASA
que retratam elementos dos locais que percorro nas minhas caminhadas. Também aprecio o Caminho Português de Santiago que já fiz três vezes, uma de bicicleta e duas a pé. Sei
que o caminho passa também em Fão, na sua variante da costa. É curioso notar que quase todos os locais em que vivi como Barcelos, Fão, Balugães e Porto são pontos de passagem do
caminho Português."
NF- O teu avô materno foi actor e guitarrista, o paterno ensaiador, teu pai tocava viola, tua mãe cantava nas revistas e tu muito pequeno já cantavas e dedilhavas a
viola. Será que cresceres no seio de artistas e numa família de gente apaixonada pela música e cantigas, te influenciou muito?
Tininho-
”Claro. Como já referi foi um privilégio para mim nascer no seio de uma família como a minha. O meu pai (Né Glória) e o teu (Mário Belo) eram inseparáveis e
confesso que as farras que faziam alegraram a minha infância. Eles transmitiram-me a magia da música. Lembro-me de estar no café do Maia, a cair de sono e a ouvir as cantigas
cantadas em grupo, como “Maria Candelária”, “Toca a Cantar o S. João” ou o Diamantino Pelica a cantar “Rendilheira”. Naquelas festas as pessoas juntavam-se espontaneamente e
entoavam-se modinhas com um entusiasmo contagiante. Eu era muito pequeno mas esses momentos ficaram gravados. Ao olhar para esses tempos não posso deixar de agradecer tanta
generosidade. As pessoas tocavam e cantavam de forma alegre e espontânea e criava-se um ambiente onde todos pareciam uma família. É fantástico o que a música pode fazer para
unir as pessoas.
Lembro-me de ouvir o meu pai a cantar à desgarrada com o teu e com todas as pessoas que tentavam entrar para os desafiar. Não tinham hipótese. Não é por nada mas acho que o meu
pai era um campeão de generosidade e imbatível a tocar violão e a improvisar quadras. Tenho gravada uma desgarrada com duração superior a uma hora!
Recordo-me também, de uma festa em minha casa em 1966, no fim do famoso jogo de futebol Portugal - Coreia, para o campeonato do mundo, em que a equipa das quinas ganhou à Coreia
do Norte por 5-3, depois de ter estado a perder por 0-3. Eusébio, melhor marcador deste Mundial, marcou 4 golos neste jogo que permitiu o acesso às meias-finais com a
Inglaterra. Na altura tínhamos uma televisão e a casa estava cheia de amigos do meu pai para ver o jogo. No final a alegria era tão grande que se fez uma farra com muita música,
claro.
Há muitas histórias que te poderia contar como por exemplo um Natal que fizemos em nossa casa. No final da ceia estava toda a gente bem disposta e a noite estava agradável. O
meu pai lembrou-se de sair para a rua e o teu foi atrás. Formou-se um grupo que desfilou pelas ruas de Fão à noite, a cantar, a celebrar. As pessoas foram-se juntando. Muita
gente vinha á janela e alguns protestavam por causa do barulho. "
NF- Queres-nos contar quando e como aprendeste a tocar e quais as tuas principais recordações desses tempo ainda jovem em Fão?
Tininho-
”O meu pai ensinou-me os primeiros acordes. Depois, como estava a evoluir bem pedi-lhe um livro de acordes para começar a estudar mais. A minha primeira viola
era uma segunda viola do meu pai. Foi nessa que aprendi. Depois, como estava a aprender depressa o meu pai arranjou-me um professor de guitarra clássica com quem tinha aulas.
Esta formação foi muito importante para consolidar as bases da técnica do instrumento que estão sem dúvida, na guitarra clássica.
Os espectáculos onde participava desde os doze anos eram na orquestra das revistas que se faziam em Fão com o José Maia, onde tocava com o meu pai, com o teu e restantes
músicos. Lembro-me bem de tocar cantigas como “As Escadinhas”, “Pátios Antigos”, “Marmelos”, “Pedra Alta e Largo do Cais”, “Varredores”, “Fangueirinha” (original do teu pai) e
claro “Fão Antigo”, para citar alguns. Recordo o gosto e boa disposição de pessoas como o Barbosa, Solinho, Carlos Maia e das raparigas que perfumavam aquelas revistas como as
“Padeiras”.
Posteriormente com o Paulo Carreira e o Né Vieira, também fazíamos espectáculos com o MPCC.
Foto: Grupo Aguarela no antigo Hotel do Pinhal
Aproveito até esta oportunidade para sugerir a elaboração de um cancioneiro com as letras e músicas deste reportório vasto de canções que têm sido interpretadas nas últimas
décadas em Fão para que conste para as gerações vindouras. Acho que poemas de canções como “Ninhos” ou “Sinos” não devem cair no esquecimento. Registar dignamente o passado é
também uma forma nobre de abrir portas para o futuro.
Houve também uma fase em que toquei com a Rusga Fangueira. Era uma espécie de grupo típico grande. Lembro-me que actuávamos com camisolas de pescador. A minha foi tricotada de
propósito pela minha mãe. Havia instrumentos como “reco-reco”, ferrinhos e bombo além das violas. Estes grupos típicos eram inspirados no conjunto “António Mafra” e eram um
formato popular para se tocar música alegre com pouco material.
Mais tarde, aos 16 anos, comecei a tocar guitarra eléctrica em bandas de liceu e fazíamos bailes. Tocávamos músicas dos Stones como “Satisfaction” e “Honky Tonk Woman”, “Samba
Pa Ti” e “Oye Como Va” do Carlos Santana, “Hey Juge”, “Yesterday” e “Get Back” dos Beatles, “Crocodile Rock” e “Rocket Man” do Elton John, “Have You Ever Seen The Rain” dos
Creedence Clearwater Revival e por aí fora.
Ás vezes dava comigo a fazer solos de cinco minutos, com a distorção no máximo, até não poder mais. A guitarra andava sempre
comigo. Lembro do meu primeiro baile, no liceu de Barcelos em que o dinheiro da bilheteira foi todo para pagar a reparação do meu amplificador que começou a deitar fumo de tanto
puxar por ele. No baile seguinte não houve problemas e a banda gastou o dinheiro numa jantarada no restaurante Turismo."
Foto:Com os “Bronze” em Espanha
NF- Em pequeno, eras também conhecido pelos teus grandes dotes futebolísticos. No entanto, cedo deixaste de praticar essa modalidade. Será que foi por causa dos estudos
ou sentiste que não tinhas aptidões ou vocação para ir mais além?
Tininho-
”Adorava jogar futebol. Na minha infância praticamente não havia televisão. Era só um pouco à noite. Também não existiam computadores e internet. Por isso os
tempos livres eram passados na rua a brincar. E claro o jogo mais popular era o futebol. Jogamos muito. Lembro-me de ser noite e estar a jogar na praça dos correios e de as mães
estarem a chamar para jantar. Jogávamos futebol a toda a hora, com amigos, alguns dos quais mais tarde tiveram carreiras de sucesso como o Rui Quinta (jogador profissional e
actual treinador do Gil Vicente), o Luís Campos (jogador e depois treinador de primeira liga), o Jó (jogador e treinador) e o Vítor Nóvoa (guarda-redes de primeira liga e
actualmente treinador). Lembro-me que nunca escolhíamos o Victor para as nossas equipas porque ele não tinha jeito para a bola. Para ter lugar nas equipas decidiu ir para
guarda-redes, porque ninguém queria ir à baliza. E deu no que deu. Acho que tem que nos agradecer.
Tinha algum jeito para o futebol e acho que o fui buscar ao meu pai que tinha um bom pé esquerdo e que esteve na fundação do CF Fão juntamente com o Chico Glória, Valdemar Costa
e Gustavo Costa. Jogaram aliás na primeira equipa do Fão e estrearam o campo Artur Sobral.
Joguei nos juvenis do Fão e depois fui júnior do Gil Vicente, treinado pelo Prof. Armindo João, vereador do desporto da CM Barcelos. Fui contudo obrigado a optar entre o futebol
e a música, porque na altura tinha já contratos com uma orquestra e acabei por optar pela música. Por vezes tocávamos aos domingos e tive que começar a faltar aos jogos do Gil.
Também ingressei na universidade o que afastou qualquer hipótese de continuar a jogar futebol.”
Foto:Abertura de um concerto dos “Táxi” em Espinho
NF- No entanto, os teus filhos também se mostraram com aptidões ou interesse pelo futebol. Qual foi a tua reacção em relação a isso e aos próprios projectos que tu
eventualmente tenhas idealizado para eles?
Tininho-
"O meu filho Ricardo foi campeão de futebol escolar mas depois não quis continuar. O Pedro entrou nas escolas de formação do SC Braga e jogou neste clube até
aos 16 anos. Depois esteve como júnior no Galegos Santa Maria onde foi o melhor marcador na 2ª época de juniores com um registo acima dos 40 golos, o que é interessante para um
médio de ataque. Ele adora futebol e está a fazer formação superior numa universidade em Inglaterra, na área desportiva em geral e futebol em particular. Pretende seguir uma
carreira ligada ao desporto, preferencialmente como treinador profissional de futebol.
Acho que cada um deve seguir a sua paixão. Contudo o que idealizamos pode não se concretizar e há que prever actividades de suporte que se enquadrem nos interesses de cada
um.”
NF- Entretanto e não sei se paralelamente à tua vida profissional, foste aperfeiçoando na guitarra eléctrica e estiveste na banda de uma cantora conceituada. Como foi
essa experiência, quanto tempo durou e porque terminou?
Tininho-
”Sim. Gosto bastante de tocar guitarra eléctrica e esse facto levou a que fosse convidado por músicos ligados a essa cantora, que conheciam o meu
trabalho.
Estive na banda da Ana durante três anos e percorri o país em espectáculos. Consegui conciliar isto com a minha actividade profissional porque os espectáculos eram normalmente
ao fim de semana. Também fui convidado para trabalhar como guitarrista da banda permanente do programa “Big Show SIC”, mas não aceitei porque não era possível ajustar esta
função com a minha actividade profissional.
Mais tarde fui guitarrista acústico da banda de Miguel e André, tendo feito uma época com eles. Depois seguiu-se a banda do cantor Filipe Neves onde também estive um ano. Foi no
final desta fase que descobri o fingerstyle acústico e comecei a estudar e a trabalhar intensivamente neste estilo.
Foto:Com a banda do “Bis Show SIC”
NF- Depois tiveste de optar e deixar a vida artística e passaste a fazê-lo como passatempo?
Tininho-
”Acho que nunca consegui deixar totalmente a vida artística porque é uma actividade que pode ser trabalhada nos tempos livres e onde podemos actuar aos fins
de semana.
Apesar da minha profissão passei por uma dúzia de bandas como guitarrista, baixista e cantor e tive algumas presenças em programas televisivos. Acho que já participei, ao longo
destes anos, em cerca de quinhentos espectáculos. Tive alguns curiosos como por exemplo a festa de casamento do filho do Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do FC Porto.
Durante alguns anos toquei numa banda que actuava no Hotel do Pinhal, nos seus tempos áureos. Fazíamos festas de Passagem de Ano e Carnaval e actuávamos também em época baixa
para turistas de várias nacionalidades que visitavam o hotel aproveitando as baixas de preço. Houve um ano em que fiz cerca de 20 espectáculos em Espanha, em festividades
populares. Eles gostavam de nós porque cantávamos bem em inglês e fazíamos temas como “Soultans of Swing” dos Dire Straits e “Shine on Your Crazy Diamond” dos Pink Floyd o que
não era normal em grupos espanhóis. A experiência foi interessante mas desgastante por causa das viagens. Também nos cansamos um pouco de comer “Chuleta” todos os dias. É
estando fora que apreciamos melhor a riqueza gastronómica portuguesa.
Contudo tive algumas fases em que estive mais parado musicalmente, que coincidiram com momentos de maior intensidade ao nível da minha profissão como engenheiro. Fui director de
informática e depois assumi outros desafios como direcção de produção, direcção de uma tinturaria e consultoria.
Foto:Com “Miguel & André”
Nesta fase estou a trabalhar como consultor e devido às características desta profissão posso efectuar uma gestão mais flexível do meu tempo o que me permite pensar num projecto
a solo, naturalmente mais exigente.
O espectáculo de Blues e Fingerstyle que estou a lançar é então o resultado de tudo isto."
NF- Entretanto, como evoluíste na guitarra acústica, tiveste algum acompanhamento, formação ou eventualmente alguma influência?
Tininho-
”A minha opção para seguir engenharia levou a que fosse muito difícil estudar música de forma continuada, devido à intensidade do curso. Contudo durante a
minha licenciatura no Porto fiz aulas com um mestre da guitarra clássica, professor José Pina, na escola de música do Porto, em regime livre. Mais tarde estudei na escola de
Jazz do Porto com o guitarrista Ricardo Fabini.
Durante o meu percurso fui fazendo workshops com guitarristas de vários estilos e também dei aulas de guitarra.
Hoje em dia a tecnologia permite que tenhamos aulas em casa ao nosso ritmo com grandes professores através de DVD’s didácticos.
Quando comecei a tocar, fi-lo com uma guitarra acústica. Tocava e cantava as minhas canções. Depois fui para bandas e agora há um regresso às origens. É um pouco como alguns
pianistas que foram para os sintetizadores e toda a electrónica dos anos 80 e 90 e agora regressam ao piano.
Acho que a guitarra acústica potencia e realça as qualidades expressivas do instrumento. Através do trabalho que faço sinto que me consigo exprimir musicalmente a um nível que
nunca consegui anteriormente.”
NF- O que é a Guitarra Acústica?
Tininho-
”A guitarra acústica é um instrumento de seis cordas constituído basicamente por um corpo de ressonância e um braço com uma escala, por onde passam cordas em
tensão. Quando estas são percutidas pelos dedos de uma mão e pressionadas no braço pelos dedos da outra originam-se vibrações acústicas, isto é sons, que são amplificados na
caixa de ressonância.
Existem basicamente dois tipos de guitarras acústicas. A guitarra clássica, que nasceu em Espanha e tem cordas em nylon e a guitarra folk, originária dos EUA, que é usada com
cordas de aço. Esta guitarra tem um braço mais fino e liga com o corpo ao 14º ponto ao contrário da clássica que liga ao 12º ponto.
As madeiras que são utilizadas são geralmente a madeira rosa (rosewood) para a parte de trás e laterais do corpo, o abeto ou cedro para o tampo do corpo, o mogno para o braço e
o ébano para a zona de toque no braço. Existem mais madeiras e variantes mas esta configuração dá uma ideia.
As guitarras acústicas podem ser amplificadas através de sensores piezoeléctricos ou magnéticos que permitem a ligação a um sistema de PA, preservando a tonalidade acústica e
possibilitando a audição do instrumento numa sala de espectáculos.
O estilo que toco, Fingerstyle, é tocado predominantemente em guitarras com cordas em aço e amplificadas."
NF- Que tipo de experiências, estágios, espectáculos já participaste?
Tininho-
”Em 2004 descobri o Fingerstyle. É tocado predominantemente em guitarra acústica com cordas de aço e por vezes cria a sensação no ouvinte de várias guitarras
em simultâneo.
Actuei em 2006 no Acoustic Strings Festival em Raalte na Holanda, e fiz workshops com grandes guitarristas nesta especialidade como o americano Doyle Dykes e o australiano Tommy
Emmanuel, que aliás são as minhas maiores influências. Também trabalhei com o guitarrista alemão Joscho Stephan e o escocês John Goldie.
No Fingerstyle encontrei o meu registo musical porque está orientado numa estética contemporânea e transversal, percorrendo estilos diferenciados como blues, pop, clássico,
jazz, country e celta. Neste estilo os guitarristas recorrem ainda a técnicas especiais como utilização de capo, slide, afinações alternativas, harmónicos artificiais e
percussão para criarem sonoridades mais ricas e expressivas.
Surgiu com tocadores de blues, que abandonaram a palheta e passaram a tocar guitarra com vários dedos da mão direita para criarem acompanhamentos mais interessantes com melodia,
harmonia e baixos. A ideia do músico era criar no ouvinte a ilusão de que estava a ser acompanhado por uma banda.
Em Portugal creio que sou um dos primeiros guitarristas a tocar este estilo.
Após uma apresentação prévia no São Mamede Centro de Artes e Espectáculos em Guimarães onde testei o projecto, apresentei o meu espectáculo de estreia a 17 de Julho deste ano no
auditório da biblioteca municipal de Barcelos, com o apoio da câmara municipal.
Este espectáculo está orientando em torno de canções de blues e da música folk americana, numa viagem às origens. Entre as canções são interpretados temas instrumentais de
Fingerstyle que está ligado aos Blues na sua origem.
Gosto de todo o tipo de música, principalmente música de raiz como os Blues e o Fado.
É interessante notar que entre estes estilos há semelhanças espantosas. Ambos são acústicos na sua forma mais pura, têm origem popular urbana, cantam os amores desencontrados e
as tristezas da vida e usam instrumentos em cordas de aço com o mesmo tipo de madeiras. Por isso não passam de moda, porque são estilos de música genuínos. Aliás estou a
trabalhar num arranjo em fingerstyle de “Rosinha dos Limões”, um dos meus fados preferidos, do grande fadista madeirense Max.”
NF- É verdade que tens composições de tua autoria?
Tininho- “Sim. Já compus originais num número suficiente para gravar um CD. No meu sítio do
Myspace
todos os temas com excepção de “Guitar Boogie” e “Self Portrait on Guitar” são originais.
Contudo estou actualmente a trabalhar num CD de tributo a um dos maiores guitarristas actuais de fingerstyle, o australiano Tommy Emmanuel, onde toco dez temas dele. Espero que
este CD seja o ponto de partida para um trabalho de originais que estão à espera de ser editados.
NF- Qual a finalidade do blog que criaste? Uma forma de divulgação do teu tipo de música, um veículo de comunicação entre outros artistas com os mesmos gostos ou apenas
por divertimento?
Tininho-
”Tenho um sítio no Myspace , que é a maior comunidade global de músicos na Internet.
Este espaço é muito importante porque permite a divulgação do trabalho dos músicos, principalmente daqueles que não são conhecidos que são a maior parte. Através deste sítio
também é possível criar amizades com outros músicos e público em geral. Para os músicos permite ouvir trabalhos de colegas que de outra forma nunca seriam escutados por falta de
divulgação. A música é uma área muito difícil, um pouco como o futebol. Só uma parcela ínfima é que se consegue afirmar e ver reconhecido o seu trabalho. Graças ao Myspace
abre-se uma janela para o mundo.”
NF- Qual a tua relação com a informática e particularmente com o mundo virtual? Será que és dos que acompanham o que se passam em Fão pela Internet?
Tininho-
”A informática empresarial foi sempre a minha área profissional. Desenvolvo software para as empresas com que trabalho. No ramo têxtil, por exemplo, não
existiam na altura soluções no mercado que se adequassem ao sector, devido a particularidades como colecções, cores e tamanhos, que não eram normais nos softwares generalistas.
Participei no “boom” informático de final de 80 e da década de 90. Havia uma grande procura de engenheiros e programadores e todas as empresas trataram de se informatizar. Neste
novo século creio que estamos a sair da era da informação, dado que esta é já um dado adquirido, e estamos e entrar numa nova era que é a da energia. Pelas razões que são já
conhecidas é necessário abandonar as velhas formas de produzir e utilizar a energia e começarmos a utilizar e gerar energia de forma mais limpa, sustentável e eficiente. Este é
o grande desafio e é por isso que estou a fazer formação nesta área. Acho que o nosso futuro depende de como conseguirmos agora resolver esta equação, que passa em grande parte
pelo difícil abandono de velhos hábitos e pela implementação dos novos. Começa até pela reciclagem do lixo em casa. Penso que o mercado da energia pode ser uma alavanca para a
recuperação económica mundial, devido ao número de postos de trabalho que estas industrias novas (ligadas aos veículos eléctricos, produção de energia a partir do sol,
eficiência energética, centrais eólicas, reconversão industrial, etc, ) poderão criar. A título de exemplo em Portugal vão ser fabricadas as baterias de iões de lítio do novo
automóvel eléctrico da Nissan (200 postos de trabalho). A empresa alemã Enercom está a criar um cluster eólico no distrito de Viana do Castelo, que criará cerca de dois mil
postos de trabalho e representa um investimento total de 1700 milhões de euros, que já conta com seis fábricas a operar. Em Portugal cerca de 40% da energia produzida já é
verde, resultando maioritariamente do aproveitamento de recursos hídrico e eólico. A nível mundial a eleição de Obama como presidente dos EUA é um sinal positivo para o
futuro.
Porque não alterar o paradigma do têxtil para o da energia, aqui no Norte de Portugal?
Quanto ao Novo Fangueiro está na minha lista de favoritos. De quando em vez dou lá um salto para me manter actualizado. É também uma forma de ligação a Fão que é um local
importante para mim devido aos anos que lá vivi e aos contactos que ainda tenho a nível familiar, humano e lúdico. A praia de Ofir continua a ser a minha preferida. O rio Cávado
é também o meu rio, dado que é comum a Barcelos e a Fão. E a paisagem litoral do estuário do Cávado e o pinhal e praia de Ofir continuam a ser deslumbrantes. “
Foto:Rio Cávado, foto de sua autoria no seu blog de
fotografia
NF- Tens algum descendente que se interesse pela música e toque algum instrumento?
Tininho-
”O meu filho Ricardo, acabou de se licenciar em gestão de empresas e toca guitarra. Já integrou uma banda de bares e casamentos. Usa a guitarra para
descontrair e para se divertir em festas de amigos. A Mafalda canta e há algum tempo gravei com ela uma versão de “Sagres” do Luís Represas. Saiu-se bem mas não tenciona seguir
o canto de uma forma pública.”
NF- Qual a tua relação actual com a música?
Tininho-
” A minha relação actual com a música é a que sempre foi. Uma relação intensa e de paixão. Contudo devido à flexibilidade profissional que tenho actualmente
acho que posso ter um pouco mais de tempo e por isso enveredei por um desafio maior e pela composição.
A música desempenha um papel muito importante na minha vida porque me transmite estados interiores de bem-estar que só as artes ou o desporto podem produzir. O acto de tocar
algo de que se gosta é também relaxante e permite compensar as tensões do dia a dia. Bob Marley costumava dizer: “A música é muito especial para mim porque quando toco não
sofro.” Acho que esta frase diz muito.”
NF- Conta-nos onde e como foi o teu último espectáculo e a reacção do público e ou imprensa.
Como disse atrás este projecto está a arrancar e a estreia foi em Barcelos, em Julho passado, no auditório da biblioteca municipal de Barcelos. O Fingerstyle é desconhecido e os
Blues são um tipo de música pouco tocada nestas bandas. Contudo a sala do auditório estava quase cheia e a reacção das pessoas foi surpreendente apesar de os cartazes só
começarem a circular dois dias antes por atrasos na gráfica. Tive comentários simpáticos de pessoas que me disseram ter passado momentos especiais com a minha música. Este é
realmente o objectivo. Divertir-me e fazer com que as pessoas relaxem e esqueçam um pouco os seus problemas.
E para minha satisfação encontrei lá amigos de Fão, graças à notícia do concerto que o Novo Fangueiro editou e que publicamente agradeço.”
Foto do blog
NF- Gostarias de fazer um regresso às origens? Ou seja, fazer um espectáculo em Fão?
Tininho-
”É uma das coisas que gostaria de fazer. Depois de Barcelos gostaria de tocar em Fão porque como já afirmei tenho muitas ligações afectivas a essa terra onde
vivi e que visito regularmente. Tenho em Fão a minha família, muita gente conhecida e teria muito gosto em partilhar com a comunidade fangueira o meu espectáculo. “
E, o Novo Fangueiro está em condições de adiantar, que uma instituição fangueira e Ernestino Sacramento estão em conversações para tentar trazer o seu espectáculo a Fão, já no
próximo ano e que a seu tempo divulgaremos, mal esteja confirmado.