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Ascânio Maria Martins Monteiro

Ascânio MMM
Arquitecto e Escultor fangueiro de prestigio mundial

Nascido em Fão em 1941, filho de Manuel Campos Monteiro e Maria Carmina Martins Moledo e partindo para o Brasil com apenas 17 anos, Ascânio Maria Martins Monteiro, formou-se naquele país em arquitectura e como escultor, tornou-se um dos artistas mais prestigiados no país irmão, com uma obra notável, sendo um dos escultores com maior número de obras públicas no Rio de Janeiro.

Recentemente, foi convidado pela Presidência da República, para expor uma obra sua, no dia de Portugal, a 10 de Junho passado, em Viana do Castelo, tendo já sido condecorado em 1997 pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, como referimos anteriormente. Actualmente decorre uma exposição sua denominada “Flexos e Qualas”, no Museu de Arte Moderna da maior cidade brasileira, um dos mais conceituados espaços de mostras artísticas de toda a América do Sul.
Esta exposição de que havíamos dado nota aos nossos leitores, foi motivo de diversas reportagens, como por exemplo toda a página principal do Caderno cultural de “O Globo”, o maior e mais prestigiado jornal do Brasil.


É sem dúvida um dos nomes mais sonantes da arquitectura contemporânea brasileira, reconhecido em vários países, principalmente da América do Sul, Ásia e Europa.
E Fão bem se pode orgulhar e honrar este homem, que também sempre se orgulhou e honrou o nome da nossa e sua terra, à qual legou uma das suas belas obras, que se encontra no Largo do Cortinhal, a “Piramidal 12.5”.

Com familiares e amigos na inauguração da Piramidal no Largo do Cortinhal
É com enorme satisfação que reportamos aos nossos leitores esta entrevista, que muito agradecemos ao Ascânio, que desde logo se prontificou em colaborar e motivar-nos para esta nossa tarefa de divulgar e lembrar Fão.

NF- Partiu jovem de Fão e ao que sei, contrariado. Porquê?
Ascânio- ”Parti de Fão com 17 anos, não queria vir para o Brasil. Não gostava da ideia de não poder voltar um dia,como a grande maioria dos emigrantes portugueses, que não voltaram.
Não era a mesma coisa como emigrar para a França ou outros países europeus, hoje em dia. A distância do Brasil a Portugal era de 10 dias de navio,e era muito caro. A aviação comercial era muito pouco explorada."


NF- Soube que ainda em Fão, começou a entreter-se na oficina do avô, com trabalhos em madeira. Foi ele que o influenciou? E lembra-se de algo especial que tenha feito?
Ascânio- ”- Minha avó morreu quando minha mãe tinha 5 anos e meu avô estava no Brasil.
Exposição em 1969 "semi cilindros" em madeira pintados
Ela foi criada pelos tios Rosa e José Azevedo Linhares, dono de um estaleiro em Fão, no inicio do século passado. O estaleiro era uma história muito falada na minha casa. Na minha cabeça de criança, virou quase uma lenda. Anos mais tarde numa ida a Fão, meu padrinho Mário Ramiro, me presenteou com um livro:"Os Estaleiros Navais de Esposende e Fão ....", de Bernardino Amândio, com uma dedicatória "Para Ascânio.......onde se fala do nosso Tio Zé Linhares", em que revivi toda essa história falada.

Em 1984 com filhas Laura e Joana e ainda Lygia Page

Ele tinha uma oficina em casa, onde nós morávamos, que nos últimos anos de vida dele funcionava como um lugar de passar o tempo, no térreo da casa. Num canto da oficina, havia um rolo de papéis coberto de poeira, que, de vez em quando, eu abria, e mais tarde percebi que eram desenhos de projetos de barcos/navios. Havia também uma plaina curiosa: ela tinha duas regulagens nos dois extremos que a tornavam côncava ou convexa. Talvez para plainar as cavernas dos barcos. Eu quis trazê¬la comigo como recordação, mas ela foi incluída no lote de ferramentas que foi vendido quando viemos para o Rio. Nas paredes havia várias réguas retas e curvas e esquadros de madeira grandes, grandes serras manuais (traçadores) para cortar troncos de àrvores, etc.
Evidentemente surgiram lá, vindas do estaleiro. Eu criança, ficava me perguntando qual era a função de cada peça, para que servia todo aquele aparato.
Quando ele morreu eu tinha 12 anos.



Velas(Módulos 3.3) em alumínio, instalada na Avenida Pepe, no Rio de Janeiro

Foi assim que me familiarizei com as ferramentas: martelo, serrote, formões, máquina de furar, plaina, etc.
As ferramentas eram uma espécie de brinquedos para mim. Os actos de serrar, pregar, furar, eram suficientes.
Mexer com a madeira e ferramentas, tornou-se familiar. Isto foi muito importante, quando comecei na arte, para eu fazer os meus primeiros objetos de madeira em 1964. “
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NF- Quando chegou ao Brasil, foi estudar ou começou logo a trabalhar?
Ascânio- ”Eu fiz os dois primeiros anos de escola primária em Fão, o primeiro com o Prof.Pio Rodrigues e o segundo com a Prof. Dona Ida. Para mim, a prática de usar a palmatória nas aulas era um terror. Eu ficava em pânico nas aulas.
As terceira e quarta classe, eu fiz em Vila Cova com o prof. Mário Ramiro, meu padrinho. Sem pânico da palmatória. Eram aulas mais normais, mais tranquilas. Eu gostava muito dele. Ele e a sua mulher Aida Mariz eram contra a palmatória em salas de aula.


Com outros conceituados artistas internacionais: Nitsche, Mário Cravo, Vlavianos, Sérgio Camargo e Toyota
Ao contrário dos professores de Fão.
Esta postura, acabou com o terror que eu tinha das salas de aula. Íamos e voltávamos todos os finais de semana no automóvel FORD azul, parece que do final dos anos 30. Foi a primeira vez que andei de automóvel. Poucos tinham automóvel nesse tempo em Fão. Em Vila Cova, eu vivia num exílio, sentia muitas saudades de Fão.
Depois das aulas, todos os colegas iam para os campos ajudar seus pais na lavoura. Eu ficava sem companheiros, sozinho. Foi nesta ocasião que eu adquiri o gosto pela leitura, lia todos os números das Selecções Reader's Digest que o meu padrinho assinava.

Com a esposa Ana e Franz Weissmann

Quando voltei para Fão, comecei e ler literatura portuguesa, em livros emprestados pela biblioteca volante da Fundação Calouste Gulbenkian, que passava uma vez por mês. Minhas duas primeiras leituras foram: As Pupilas do Senhor Reitor, de Camilo Castelo Branco e o Mistério da Estrada de Sintra, de Eça de Queiroz, autor pelo qual me apaixonei, e já aqui no Rio, li quase toda a sua obra.
Passei uma infância maravilhosa ...
Ainda hoje quando vou a Fão, gosto de passear pelos lugares e ruas da minha infância. Gosto de chegar a Fão e passear como anónimo. Para mim, a liberdade era vagabundear pelo cais, pinhal, dunas e praia, especialmente no verão.

Piramidal 13, em madeira de 1988, Coleção do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo

Foi andando pelo pinhal, olhando aquelas casas de arquitectura moderna - um dia até entrei numa delas - que eu construí o sonho de ser arquitecto.
Além de meu pai, tio Zé Linhares, meu padrinho Mário Ramiro (que preencheu em parte a ausência do meu pai, quando ele veio para o Brasil - eu tinha 11 anos), havia outra pessoa em Fão que admirava muito na minha infância:o Antonino Borda (amigo de meu pai), que decorava igrejas nas festas, montava andores e no Natal fazia o presépio na Igreja Matriz. Ele deixava que eu o acompanhasse sempre nessas andanças. Conheci todas as igrejas do município de Esposende e algumas do de Barcelos, andando de um lado para o outro com o Antonino Borda, na charrete ou na carroça puxadas pelo Tirone (Tyrone).



Piramidal 1.4, em alumínio de 1989-93, instalada no edifício da Nissin Corporation em Tóquio,no Japão

Em casa passei também a fazer os meus presépios e cascatas de São João. Apanhava musgo no pinhal, pedras, e o pinheiro, serragem na "fábrica do Albino" para os caminhos do presépio, com a ajuda de meus irmãos Manuel, Fernanda e Jorge, do José Augusto, Ascânio, e dos irmãos Gita e João da Cónega, nossos vizinhos.
Sempre, no início de Dezembro ia com minha mãe à feira de Barcelos, para comprar peças de barro para o presépio e substituir as quebradas no ano anterior. Esta foi a minha primeira iniciativa criativa. Eu tinha 9 anos.
Trabalhei numa loja de ferragens que não existe mais, em Esposende dos 13 aos 17 anos, quando vim para o Rio de Janeiro em 1959.
Aqui, no mês seguinte, comecei logo a trabalhar e à noite estudava fazendo o supletivo. Em 1963 fiz provas e entrei para a Escola Nacional de Belas Artes, Em 1965 fiz mais provas, e atingi o meu sonho: a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro onde me formei em 1969.



Piramidal 1.5, de 1989-93, em alumínio e instalada na CGD de Lisboa

NF- Foi importante o seu trabalho no Centro de Turismo de Portugal para o encaminhar? E como foi a conciliação com os estudos?
Ascânio- ”O Centro de Turismo de Portugal foi importante porque eu passei a trabalhar num emprego de meio expediente.”

NF- Fale-nos da sua experiência como colaborador e responsável do jornal da Universidade ? É verdade que escreveu contra o regime militarista brasileiro? Teve problemas por isso?
Ascânio- "A minha colaboração no jornal do directório académico da Faculdade era de diagramar e acompanhar a impressão. Por milagre não fui preso pela polícia da ditadura quando ia para a gráfica com todo o material da última edição do jornal."

NF- Dos trabalhos de madeira para os metais….como ou porquê? Ascânio- ”Comecei a minha pesquisa com a madeira, que para mim era um material mais familiar, mais fácil de trabalhar. A partir de 1972 passei a usar também o alumínio. A partir de 1993 só alumínio, que me dá mais recursos, como por exemplo, construir esculturas ao ar livre."


Módulo 7.3, em alumínio (1970-98), na Estrada dos Bandeirantes do Rio

NF- As suas obras são caracterizadas por um emaranhado harmonioso de peças de formas mais ou menos geométricas. Que conhecimentos científicos isso exige? O tempo e os custos e o da sua concepção devem ser consideráveis. Com certeza teve de investir muito por conta própria ou teve sempre patrocínios, falando claro das obras não encomendadas.
Ascânio- ”A matemática, a geometria, e principalmente a geometria descritiva, aprendidas na Faculdade de Arquitectura, foram muito importantes.
Felizmente as minhas pesquisas são financiadas por mim, através de vendas e encomendas de esculturas. Somente para os catálogos, livros e despesas de montagens de exposições é que peço patrocínio. "



Múltiplo 17, em São Paulo

NF- A sua naturalização como brasileiro, foi uma forma de ter alguns benefícios, favorecimentos ou reconhecimento do país que o acolheu e notabilizou?
Ascânio- ”A minha naturalização deu-se na altura Faculdade no final dos anos 60 para eu conseguir estágio num orgão oficial. Por causa disto eu perdi a minha nacionalidade portuguesa, devido a uma lei da lamentável e opressora ditadura salazarista. Passei a ser um traidor da pátria.
Não tinha permissão para usar a identidade e ter passaporte portugueses.
O Presidente da República Jorge Sampaio revogou isto.
Desde há quatro anos readquiri minha nacionalidade portuguesa. Hoje possuo identidade e passaporte portugueses.
Mas tenho o maior orgulho de minha nacionalidade brasileira, país que me acolheu de forma admirável, onde a Ana, minha mulher, e a Laura e a Joana, minhas filhas, nasceram e exerço os plenos direitos de cidadão brasileiro, como por exemplo, votar. Gosto de política. Sou um apaixonado pelo Rio de Janeiro, amo esta cidade."



Escultura 3, de 1972, coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo

NF- Acha que no nosso país também tem sido reconhecido devidamente? E como recebeu o convite da Presidência da República, para expor obra sua no Dia de Portugal, em Junho passado?
Ascânio- ”Embora seja nascido em Fão, eu sou um artista brasileiro. Minha formação intelectual, foi toda aqui.
Recebi dois convites para expor na Galeria 111, em Lisboa, e só. A exposição de Viana do Castelo é mais uma exposição política, do que inserida dentro do contexto da arte portuguesa. Embora o curador da exposição, que eu conheço, seja um crítico de arte, muito respeitado em Portugal: João Pinharanda.
Claro que gostaria de fazer uma grande exposição numa instituição portuguesa ligada à arte, de Lisboa ou do Porto. Quem sabe, um dia? "



Piramidal 34, em alumínio de 1999, na Pinacoteca do Estado de S. Paulo

NF - Após mais de 40 anos de vida artística, mais uma grande exposição num dos espaços mais prestigiantes do Brasil. Como aconteceu a oportunidade e qual tem sido a aceitação do público e da crítica? Essa mesma crítica considera que esta marca uma nova trajectória artística na sua carreira, como comenta isso?
Ascânio- ” As oportunidades e convites para expor em galerias e museus, surgem naturalmente, é um processo quase natural, especialmente depois que o artista constrói a sua história, e um currículo importante, dentro do contexto cultural que ele cria e vive. Sempre existem oposições, mas o artista tem que lutar contra isto."

NF-Fão nunca foi esquecido por si e a oferta da sua “Piramidal”, é bem prova disso. E Fão acha que tem sido recíproco nessa admiração e reconhecimento? Ascânio- ”Gostei muito de colocar a escultura no Cortinhal. Desde da minha despedida de Fão em 59, foi um dos momentos que mais me emocionou.
O dia da inauguração da escultura coincidiu com a data que eu mais amava, nos meus tempos de criança: a festa do Senhor de Fão. Teve inclusive a banda de música e muita gente de Fão veio assistir e me cumprimentar.



"Ascânio, a mãe, Fernanda e Carmina e atrás Manuel e Jorge".


Gostaria colocar mais uma escultura em outra praça de Fão. Quando, não sei, tenho que conversar com as pessoas em Fão na próxima ida aí. Próximo ano comemoro 50 anos que deixei Fão."

NF -Quando voltará a visitar-nos? Que mais aprecia na nossa terra e qual a sua apreciação ao seu desenvolvimento (ou não) e transformação?
Ascânio- ”No próximo ano devo ir aí, talvez nas vindimas, não sei como vai ficar o meu tempo. Estou marcando outras exposições em outros estados do Brasil, começando por São Paulo.
Gosto da expansão para os lados do antigo campo de futebol, e da capela de Santo Antonio, especialmente, porque é só de casas. Não existe expansão vertical como nas grandes cidades.
Acho lamentável a falta de cuidado e de preservação com o pinhal. Na estrada da Bonança, quase no final, do lado direito, estão construindo novas casas e derrubando os pinheiros, alterando e degradando a paisagem. Precisam fazer isto? Estas pessoas não gostam de Fão. Deveriam ser obrigadas a replantar os pinheiros derrubados. Onde estão os orgãos responsáveis pela preservação do Pinhal? Fiquei muito triste, este ano, em Fevereiro, caminhando pela Estrada da Senhora da Bonança."



Piramidal do Cortinhal

Foi com muito prazer, orgulho e grande honra entrevistar este grande fangueiro, que apenas conhecia de vista, embora seja um amigo de longa data de minha sogra Nelly, que me ajudou a complementar esta entrevista com alguns dados e principalmente fotografias, que o Ascânio como humilde que é, se escusou a enviar. Este, como outros grandes homens confirmam uma velha frase que guardei de um dos homens que pesaram na minha formação profissional e humana: "Mais vale ser procurado que impingido" e é isso que acontece com quem realmente tem valor mais cedo ou mais tarde.
E nesta entrevista que nos concedeu, não deixou de a dedicar à memória de seu irmão Manuel, dizendo que parte do seu conteúdo era parte de uma conversa que havia tido com ele, numa altura em que pensaram escrever a história da infância de ambos em Fão.
Mas o Manuel infelizmente foi subitamente subtraido do seu convívio ao falecer a 16 de Dezembro de 2005. O Manuel, que tive o prazer e privilégio de conhecer e tornar amigo, nos últimos tempos de sua vida na última vinda e despedida (como nos deu a entender) de Fão. E o amor imenso a Fão e a poesia foram as grandes paixões em comum que logo nos aproximou e nos fez sentir mais a sua morte. E, tal como o Ascânio deixou em Fão uma prova do seu bairrismo em forma de pirâmide, o Manel deixou-nos um livro com belas poesias onde verseja o seu amor a Fão.
A ambos muito obrigado!

Jose Belo
josebelo@novofangueiro.com

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