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JOSÉ FELGUEIRAS E A "VELA VOTIVA" DO SENHOR BOM JESUS DE FÃO
- Quem a ofertou?

Como entendo que o tema cabe nas minhas despretensiosas “crónicas” sobre Fão, aqui estou a dar conhecimento do que investiguei e a conclusão – julgo que definitiva- a que cheguei sobre o assunto.

Desde pequenino que sei, por transmissão oral que aquele objecto que está pendurado há 125 anos, no lado direito ao longo do pilar que suporta o arco cruzeiro no templo do Senhor Bom Jesus, é a vela de um navio, que foi oferecida como Ex-voto ao Senhor Bom Jesus por um Capitão de Fão, depois de o seu navio ter naufragado e a tripulação ter sido salva por milagre.
Diziam-me ainda que esse Capitão e a sua tripulação tinham desembarcado no Porto e vindo até Fão a pedir, tendo entregado a vela e o produto das esmolas que receberam pelo caminho, ao Senhor Bom Jesus. Mais; identificavam-me a vela como sendo uma bujarrona (I).

“Grosso modo” era esta a narrativa que sempre ouvia, quando anualmente à festa do Senhor Bom Jesus de Fão com o meu avô Feliz. Era ele - antigo marinheiro da Casa Lage e do Lloyd brasileiro por onde muitos fangueiros passaram também, quem me contava a história desta vela e de uns quadros que estavam pendurados nas paredes laterais que eu ainda hoje conservo bem vivos na memória e capaz de os reproduzir a qualquer momento.
Estas histórias tinham invariavelmente como testemunhas presenciais, dois fervorosos devotos do Sr. Bom Jesus: o cordoeiro Sr. António Viana, e o Sr. Antonino Borda, ambos muito amigos do meu avô que, pelas festas se encontravam dentro do Templo, para discutirem, entre outras coisas, o nó do Senhor. A tese do meu avô era a de que, sendo Fão uma terra de ilustrados marinheiros, não se entendia – para ele era quase um sacrilégio - que não “dessem um nó em condições” com a corda que o Bom ostenta na zona da cintura! E comparava com o que se fazia (e faz!) no Senhor dos Passos, em Esposende. No fim, a conversa acabava com umas malguinhas e umas cavacas na Tuta, a falar de redes, de lampreias, solhas e robalos…

Embora eu nunca duvidasse daquilo que me foi transmitido, sei, por experiência adquirida, que, contendo a tradição muito de verdade, nem sempre o enredo corresponde exactamente à realidade.

E foi assim pensando que resolvi aprofundar mais um pouco o assunto, para satisfazer o pedido de um amigo que pretende referir-se ao caso concreto de Fão, numa programada intervenção pública.

No meio de uns apontamentos que tenho sobre Ex-votos marítimos do nosso concelho, está precisamente um recorte do «Jornal de Esposende» em que BELEMINO, citando a edição de 12 de Outubro de 1973 de «O Comércio do Porto» na sua secção «Há cem anos», transcreve: «Esta manhã, (12 de Outubro de 1873) percorreu a cidade do Porto, equipada tal como quando desembarcou no cais de Massarelos, a tripulação do palhabote (3) «LUSO», conduzindo umas das velas do navio e entoando cânticos ao Altíssimo por haverem escapado do perigo em que se viram na Ilha do Corvo (Açores), a 18 graus da barra deste porto, no dia 27 do mês findo, na ocasião em que navegavam para esta cidade.
O produto deste voto é destinado ao Bom Jesus de Fão (Esposende).
Era a primeira viagem que o barco fazia, sendo comandado pelo capitão Sr. ANTÓNIO PINTO DE CAMPOS, de alcunha o «Piedade», natural de Fão».


Este relato, que identifica o capitão, o barco e data do evento, (mas que não se refere ao tipo de vela ofertada) poderia levar-nos a pensar termos encontrado a resposta definitiva sobre quem a teria dado; resposta, aliás, que coincide com o que me foi transmitido.

. Para além de tudo isto, recordo que existia e creio que ainda existe um outro ex-voto, este também no Bom Jesus, que não se refere a vela nenhuma, tratando-se sómente de uma fotografia que representa a tripulação da barca portuguesa «MINERVA» (5) à deriva, numa “Lancha de Bordo”, depois de o navio ter naufragado.
Esse Ex-voto (fotografia?), já em bastante mau estado, ainda há uns anos estava patente na parede nascente e foi oferecida pelo capitão fangueiro FRANCISCO GONÇALVES CASANOVA (6), como reconhecimento do «milagre feito pelo Senhor Bom Jesus de Fão, salvando a tripulação da barca portuguesa «Minerva», indo em viagem de Pernambuco para Lisboa. A tripulação navegou em uma LANCHA, durante oito horas, sendo depois salva pela barca norueguesa INO».
Ao arrepio de tudo o que é conhecido sobre o assunto, sei que há gente em Fão que liga esta vela ao naufrágio de uma lancha da Póvoa! Talvez a tradição oral que chegou até eles tenha deturpado a questão, por esta ter sido a última vela a ser oferecida, tendo tal tradição fixado parte desta manifestação de fé, caldeando-a com elementos das outras anteriores.
Esta vela, (a da lancha) seria completamente diferente das outras, porque é latina quadrangular (ver desenho), e a acreditarmos na gravura do Ex-voto, seria naturalmente mais pequena do que aquela que se encontra actualmente no Bom Jesus.
Perante estes cenários, há a salientar um denominador comum: Esta vela foi dada ao Senhor Bom Jesus por um destes dois Capitães fangueiros! Qual deles?
Só haverá uma solução para ter certezas absolutas:- é retirá-la do invólucro, desenrolá-la cuidadosamente (se é que ainda está em condições de ser manuseada) e todas as interrogações serão desfeitas, porque, para além da sua forma geométrica, certamente conterá algo escrito com os nomes do capitão e dos náufragos e o motivo da oferta.
Contudo, no momento em que escrevo, julgo estar em posição de, definitivamente, poder afirmar que aquela vela votiva, foi ofertada por ANTONIO PINTO DE CAMPOS BRITO e sua tripulação.

O navio em questão, o palhabote “LUSO”, foi construído em Vila do Conde, no ano de 1873, com uma arqueação de 169,300 m3, para o armador J:F. Pinheiro, que julgo ser João Francisco Pinheiro, um notável negociante e capitalista de Fão. Não é novidade armadores fangueiros mandarem construir em Vila do Conde. Bastava que os estaleiros locais, não o pudessem construir em tempo útil, devido a terem muitas encomendas.

Os dados sobre a propriedade e características do “LUSO» foram retirados do Lloyd’s, onde consta também que o capitão era A . P. Campos, o que significa sem sombra de dúvidas de que se trata do capitão fangueiro António Pinto de Campos Brito – o Piedade.

Há registos (para além da tradição oral) na posse de descendentes familiares do capitão ANTONIO PINTO DE CAMPOS BRITO – o Piedade,que o provam.
Este Piedade, (matronímico pelo qual era conhecido), era filho de Maria da Piedade Nunes dos Santos e de José Pinto de Campos Brito, de Fão.
Ela era filha do capitão Manuel Nunes dos Santos e de Ana Maria do Sacramento, que embora de Esposende, residiam em Fão.
Ele era filho do capitão Miguel Pinto de Campos Brito e de Rosa Leite Areias, ambos de Fão.
Este “Piedade” era irmão de capitães de longo curso da Marinha Mercante, residentes em Esposende, donde era natural, embora tivesse casado e vivesse em Fão, sendo um dos irmãos “remidos” da Real Confraria do Senhor Bom Jesus em 1887, com o nome de António Piedade Pinto de Campos.
São todos da família Campos Evangelista, cujos varões deram cartas na navegação comercial de longo curso, tanto nacional como brasileira.

Por José Felgueiras

Imagem: Templo do Bom Jesus de Fão - O saco de lona que acondiciona a vela votiva, encontra-se desviado da posição vertical devido à colocação posterior do quadro da Via Sacra.

Manuel Vieira
nevieira@novofangueiro.com

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