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Crónicas do Zé
Há 100 anos!
-Um «bota-abaixo» em Fão

Escreveu o almirante Joaquim Pedro Celestino Soares,(1) na sua muito conhecida obra “Quadros Navais,” que «o baptismo dos navios é uma cerimónia religiosa antiquíssima, que os modernos de todas as nações e crenças adoptaram, solenizando-a conforme os seus ritos, com a ideia de porem o navio debaixo da protecção divina, consagrando-o ao próprio Deus ou a algum seu predestinado que por ele interceda e lhe sirva de amparo nas ocasiões de perigo»..

Tal como qualquer ser humano que se baptiza, o “bota abaixo” de um navio é a cerimónia mais importante, a mais participada, a mais esperada e a mais excitante; de toda a sua construção, aquela que se reveste de uma enorme responsabilidade para o construtor, ée, sem dúvida aquela em que o navio se prepara para entrar na água pela primeira vez.

É a hora da verdade! É a hora da glória e da afirmação do construtor ou pode significar tão só o seu fracasso. São momentos empolgantes, de grande tensão.

Bota – abaixo na Ribeira de Fão.

Segundo relatos de pessoas mais velhas, que tiveram o privilégio de assistir aos dois últimos grandes “ bota-abaixo” dos navios construídos na Ribeira de Esposende, um acto destes, era uma festa inolvidável de alegria e entusiasmo.

Mas se em Esposende era uma festa, em Fão não o era menos.

Dizia-me o saudoso Padre Avelino Borda que era um momento de tal modo solene e vibrante, que lhe ficaram bem gravados na sua memória todos os «bota abaixo» a que assistiu. Foram várias as ocasiões em que me pediu para lhe comunicar quando houvesse algum bota abaixo das últimas «motoras ou traineiras» construídas nos anos 90, para relembrar aqueles maravilhosos momentos que é o do barco ir, pela primeira vez, à água.

Também o meu saudoso Mestre Dr. Albino Campos, andava com intenções de abordar este tema do «bota abaixo» em Fão, inserindo-o exactamente na perspectiva religiosa e nas superstições ligadas ao acto, projecto que começou a delinear pouco antes da Parca o roubar do nosso convívio. Foi pena! Teríamos, certamente, um bom trabalho.

Apesar disso, houve em Fão, quem não deixasse de registar esses empolgantes momentos. Nos últimos dois anos da 1ª Grande Guerra, um fangueiro, que assinava SVE, (que eu suponho ser Eduardo Veiga da Silva) escreveu umas excelentes crónicas, como correspondente do jornal “O Espozendense”.

Senhor de uma prosa vigorosa e colorida, própria de um espírito perspicaz, Eduardo Veiga da Silva, que segundo apurei, trabalhava no Hospital e morreu muito cedo, era, no estricto conceito bairrista do Dr. Armando Saraiva, um verdadeiro “fãonático”; um excelente observador das coisas da sua terra e um verdadeiro retratista da realidade quotidiana dos seus estaleiros navais.

É dele, pois, que me vou socorrer, a propósito do bota-abaixo do “Palmira”, um lugre-patacho, construído nos estaleiros de Fão , por José Dias dos Santos Borda Júnior, por conta e ordem da Parceria Lusitana Douro, onde pontificava o negociante José Joaquim Gouveia. Custou 6.000$00 (seis contos!).

O texto é de tal forma elucidativo que nem sequer me atrevo a tocar-lhe, pois considero-o de enorme valia para a história da construção naval em Fão, dada a sua riqueza de pormenores, nomeadamente na invocação da protecção celestial, tal como se faz no baptismo de uma criança. Eis, pois, o relato vivo do «bota abaixo» do “Palmira”, que teve lugar no dia 1 de Setembro de 1917 – há 100 anos, portanto..

«Não vimos hoje fazer reclame aos nossos estaleiros, porque a sua fama, mundialmente conhecida, nos inibe de tal; vimos sim, cheios de contentamento e alegria, descrever, singelamente, acerca do que foi o lançamento do hiate [ii] que bem merece o nome de “Palmira”.
«Foi uma beleza, um encanto, essa cerimónia de bota-abaixo, que a todos comove e mexe com o organismo!
«O “Palmira”, no passado Sábado, logo aos primeiros raios do dia, apareceu-nos com um aspecto festivo, fazendo brilhar nos seus mastros os lindos sinais de bordo, demonstração que se prendia com a sua partida. Foi assim que se manteve, focado por inúmeros olhares que alegremente o contemplavam, como se fora o verdadeiro ídolo da sua maior paixão, até que se aproximou a hora da sua partida.
Três horas, hora precisamente que o seu construtor José Dias dos Santos Borda, com aquela modéstia que o caracteriza, preveniu os espectadores para se afastarem do “Palmira”, pois, o momento da sua partida tinha chegado. Após esta bem acertada recomendação, levou mão do machado e descobriu-se, reverentemente, á frente do seu trabalho e depois de proferir velhas palavras dos seus antepassados «À honra do Senhor Bom Jesus», fez dele oferecimento ao Sr. José Joaquim Gouveia, proprietário da linda embarcação, que, com mãos trémulas e confusas o fez vibrar na frágil corda que mantinha as alavancas.
«Foi então, parece que por encanto, que tudo (se) deslocou e o “Palmira”, risonho e apressado, deslizou, carreira abaixo, para logo flutuar no nosso formoso Cávado entre as frases fervorosas de “Senhor Bom Jesus, Senhora da Boa Viagem, Senhora da Guia,” etc.
«Ali, prolongou-se com os estaleiros e, numa breve despedida ao seu companheiro “Tricana”, desceu rio abaixo, obedecendo ao simples impulso que meia dúzia de braços do povo sirgava, ao comando do seu construtor.
Dada por terminada a tarefa do dia, José Borda, regressando ao meio do povo, que regurgitava de contentamento, aclamando-o, dançando e cantando a “Cartolinha”, ordenou a todos os seus artistas que se dirigissem ao Hotel, onde também iam ter o seu “ bota-dentro”.
«Não foi nada. A artistada, no tempo de tanta lazeira, a que de bacalhau nem cheiro, entrou á largordaça (sic), regando-o a cada momento, com a bela pinga do nosso amigo Francisco Brito; então, quando tudo já satisfeito e lhe chegavam com o dedo, passaram a calorosos discursos, que todos tiveram um fim livre e de vergonhas do mundo.
«Um lauto jantar foi também depois servido em casa do Sr. José Borda, constante de 20 talheres, sendo a maior parte dos convivas, do Porto.
«Ao champagne, foram proferidas vários brindes tendentes a enaltecer as qualidades do abalizado construtor, sentindo nós e com profunda mágoa, confessamos, não termos colhido os nomes desses cavalheiros.
«Enfim, paciência. A culpa foi nossa e a muito nos sujeitamos.
«O “Palmira “, já ontem seguiu barra fora em demanda da cidade do Porto.
«Receba, pois, o nosso amigo Sr. Borda, mais um abraço, do autor destas linhas»."

(In “O Espozendense”nº 541 de 6 de Setembro de 1917)

O “Palmira” foi construído entre Março e Setembro e saíu a barra no dia 5 de Setembro, a reboque do “Ligeiro”. Media 36 metros e era forrado a cobre, nas obras vivas. Foi vendido várias vezes, tendo sido o “Nazareth 3º”; “Duarte” ; “Srª dos Navegantes” e “Sílvia”. Destinava-se à pesca do bacalhau. Acabou em 1936.

Houve outro “Palmira”, depois “Palmirinha”, de 42 metros, também construção do Mestre José Borda, construído entre1920/21.

Por: José Felgueiras
________________________________________ [1)] Almirante J.P. Celestino Soares, in “Quadros Navais”- Ministério da Marinha – Biblioteca e Museu de Marinha, Lisboa 1942, pág.151)
[ii] Embora tivesse dois mastros, não era um Hiate, mas sim um Patacho. Todavia,EVS terá razão, porque o navio quando foi à água não estava ainda mastreado, sendo posteriormente armado em tal.


Manuel Vieira
nevieira@novofangueiro.com

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