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Crónicas do Zé…
FÃO NO ULTIMO QUARTEL DO SÉC.XVIII
- As areias; o Rio e a Barra

Francisco António de Faria era “natural da Vila de Esposende”, tal como firma ao escrevê-lo pelo seu próprio punho. Licenciado em Leis pela Universidade de Coimbra, foi Corregedor em Miranda do Douro, Ouvidor de Barcelos e Juiz Demarcante da Província do Minho, para além de ter ocupado outros cargos de relevo na Administração Central, no tempo do Marquês de Pombal.
Foi nessa qualidade, que este pouco conhecido esposendense entendeu que a melhor forma de «fazer um benefício memorável à sua Pátria e em consequência à Província e ao Estado, consistia em desimpedir a barra na foz do Rio Cávado junto da dita vila e fazer navegável o rio na distância de quatro para cinco léguas, até às vilas de Barcelos e Prado , próxima à cidade de Braga» .

Para conseguir dar corpo a esta ideia, pediu ao engenheiro José Champalimaud, do Regimento de Artilharia da Praça de Valença, que viesse a Esposende observar o sítio e as margens do rio Cávado. E assim foi, tendo o reputado Champalimaud delineado uma Planta, por ordem do Governador das Armas da Província, que foi remetida ao Marquês em 12 de Março de 1775, para ser presente a D. José I.

Tudo isto se passou 20 anos antes de o Eng.º Custódio Vilas Boas apresentar a sua proposta sobre o Encanamento do Cávado!

É nessa carta que Francisco Faria, justifica a grande necessidade desta obra, uma vez que só assim, segundo ele, se poderia evitar a ruina em que já se achava e estava iminente sobre o considerável lugar de Fão, vizinho da dita barra, vexado com as grandes despesas que os seus habitadores estavam fazendo todos os anos em estacadas e sebes, opostas ao transporte das areias das margens do rio, por correr muito espraiado, sendo este lugar um dos mais interessantes pela muita pescaria e avultadas somas que o Estado da Sereníssima Casa de Bragança, recebia pelos direitos do pescado.

Para alicerçar os argumentos, foram mandadas fazer averiguações em Fão onde foram ouvidos os principais e os mais «inteligentes moradores», sendo todos unânimes em afirmar que a ruina ficaria cessando, apertando-se o Rio, que era uma obra que o podia fazer navegável e restituir a barra à sua a antiga consistência.

E assim, uma segunda carta/ofício, datada de 15 de Janeiro de 1776 contendo o resultado das ditas diligências, foi entregue ao Marquês, pelo Conselheiro Joaquim Inácio da Cruz Sobral, ao mesmo tempo que o engenheiro Champalimaud foi mandado comparecer na Corte, para ser ouvido pelo Ministro de Estado (Pombal),que tinha em mãos um grande plano de obras públicas, onde se incluíam os portos de mar. Porém, ou grande ocorrência dos negócios ou juntamente à superveniente moléstia do Augusto Senhor El-Rei D. José, fizeram com que a providência não saísse, por então, do destino.»

(Este tipo de “maldição” tem sido uma constante ao longo dos processos que visaram uma intervenção no rio e da barra!…Não aconteceu uma, nem duas, nem três vezes,…já para não contar as recentes !).

Segundo Francisco António de Faria, até hoje um ilustre desconhecido da história da sua terra, «As luzes de um Governo sábio, amante dos Vassalos e do Bem Público, que conhece os interesses da Nação, os meios de os conservar e adiantar, fazem desnecessários outros períodos que não são os de uma exposição sincera, natural e verdadeira, para sobre ela compreender a importância deste negócio.»
Seguindo este raciocínio Francisco António de Faria vai desenvolver e justificar as verdadeiras razões desta sua exposição, que explicará ponto por ponto.

No capítulo que ora nos interessa, é o que se refereà necessidade da obra e das utilidades que dela se podiam conseguir, onde ele diz o seguinte sobre Fão de 1774:
«O lugar de Fão, do termo de Barcelos, situado nas margens do rio Cávado, vizinho ao mar e fronteiro à vila de Esposende para a parte do sul, é uma povoação numerosa e todos ou quási todos os seus habitadores se empregam na pesca do rio e principalmente do mar e de toda ela pagam de cinco peixes, um, que são as duas dízimas, pelas quais o senhor rei D. João I, por efeito do contrato de 18 de Janeiro de 1458, desobrigou os pescadores do Serviço das Armadas e de que se cobram anualmente, só no dito lugar, para cima de três mil cruzados cada ano, para o Estado da Sereníssima Casa de Bragança, que, depois do casamento do sr. D. Afonso, filho do dito Senhor rei, com D. Brites Pereira, houve doações nos anos de 1434 e 1447 e seguinte, do referido lugar e outros muitos do termo de Barcelos, com todos os distritos, jurisdição que o dito senhor rei neles havia e podia haver e igualmente da dita vila de Esposende, que paga o mesmo quinto da pescaria, excepto em alguma ocasião de mais águas e sem perigo. os pescadores, por esta causa, umas vezes , não vão ao mar e outras, são precisados de encalharem na costa e vararem as lanchas, quando as querem deitar ao mar por cima da areia, juntando-se muita gente com grandes trabalhos, o que tem diminuído a pesca e em consequência as Rendas Régias. Enche de medo aos homens e os persuade a buscarem outro modo de vida passando-se a diferentes ocupações e distritos, quando os não deixa na ociosidade, sempre a raiz infecta de todos os males da República.
Aquela grande largura do rio em que ficam intermediadas ilhas de areia, tem feito e faz a principal causa para a ruina do Lugar de Fão que tem visto submersas e já inclusas no álveo do rio, muitas casas e quintais.; outras consideram de perto semelhante dano e a Igreja se acha areada quase até aos telhados da parte do poente.
Os habitadores do mesmo lugar, para se conservarem nela, arbitraram primeiro e fintaram-se entre si para a fábrica de estacadas e sebes apostas nos lados do poente e norte., a fim de impedir a repentina invasão das areias. Depois pediram o imposto de um real em cada quartilho de vinho que se vendesse no lugar, que lhe foi concedido até à quantia de quatro mil cruzados, que se despendeu para o mesmo fim e repetindo o requerimento para continuar o dito imposto não têm sido deferidos, inclusivamente recorreram a pedir a permissão de uma Barca de Passagem e dos seus produtos, o que dizem, se acha afecto a Sua Majestade, por consulta do Desembargo do Paço., bem que resse meio é de poucas esperanças, por ficar muito perto da Barca do Lago, que faz a passagem de graça, excepto somente os carros.
A estas diligências dispendiosas têm acrescentado os mesmos habitadores muitos trabalhos pessoais e contínuos e nada basta, nem bastará nunca, enquanto o mal se não remediar na origem, apertando-se o rio para correr junto e se conservar fundo, cessando, a ocasião de os ventos levarem as areias das margens dele e do álveo que tem desamparado. Obra que sendo necessária para a conservação do lugar de Fão, é ao mesmo tempo a que serve para desimpedir a barra e fazer a sua permanente subsistência como antes era, como antes era, sendo muito para considerar o que aqueles Habitadores, com grande mágoa dos seus corações, publicam e têm proposto nos seus ditos requerimentos – que carrega sobre eles um grande peso para a sua conservação e que se verão precisados a mudar de situação – perdido o grande tráfico da pesca em que ali se empregam».


Este interessante documento, é uma surpresa total na história local. Ele vem “revolucionar” o que até aqui tem sido dado como adquirido quanto á paternidade do projecto das obras do Encanamento do Rio Cávado. Será objecto de um trabalho mais profundo, conquanto é preciso ainda encontrar a tal «planta» que o Engº. José Champalimaud cá veio delinear e que, certamente, também terá algumas surpresas. Por: José Felgueiras

Manuel Vieira
nevieira@novofangueiro.com

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