Procurar  
























Registe-se no nosso WebSite

Nome
 
País/Localidade
 
Email
 

A LENDA DAS ALMINHAS DO CAIS

A Lenda das Alminhas do Cais, em Fão, foi escrita por Artur Lopes da Costa baseado em ditos e contos arredondados pelo tempo e publicada em Lisboa há mais de 4 dezenas de anos. Deu a volta ao Mundo pelas Agências noticiosas portuguesas, sobretudo, em países da Lusofonia e volta agora para recordar aos mais novos o poder do sobrenatural e do fervor das gentes fangueiras. Também em memória do Autor.

- Lendária tragédia na origem das Alminhas

A freguesia mais antiga do concelho de Esposende, sem dúvida, é Fão, terra milenária beijada pelo remansoso rio Cávado e banhada pelo austero Atlântico; situada entre Póvoa de Varzim e Viana do Castelo, encerra dentro de si, Ofir, cuja lenda tem percorrido o mundo inteiro, constitui o cartaz vivo desta antiquíssima freguesia do Concelho, de ruas estreitinhas e sombrias, num traçado bem característico de épocas distantes.

Durante o período de ocupação românica na Península, segundo a lenda, junto ao mar – onde actualmente existe o frondoso Pinhal de Ofir – erguia-se a cidade das Águas Celenas, que uma tempestade de areia fez sumir para sempre. Mais tarde, fundou-se a “Villa Nuncupata Fano, no itinerário da via romana para se atingir a cidade de Braga. Mercê das salinas, a “Villa” foi propriedade dos nobres e de clérigos, disputada entre eles, tal a sua importância estratégica e económica.

Muitos anos mais tarde, talvez já uma das freguesias do concelho de Esposende, era atravessada por diligência que, do Porto, se dirigia para norte até à fronteira. Este, como é de prever, era o meio de transporte mais rápido e económico para os viajantes da época. Por isso, em Fão, a travessia do rio era feita no baixio conhecido por Cais, ainda hoje assim conhecido, reforçado por penedia baixa a merecer mais cuidados.

Numa noite, a diligência – como tantas vezes acontecia, corria atrasada em relação à maré do rio, pois durante o fluxo da praia-mar, era impossível atravessar a vau. Desencadeara-se, entretanto, horrível tempestade. A viagem prosseguia, apesar disso, mesmo contra vontade dos passageiros. E, a todo o galope dos quatro fogosos cavalos da diligência, esta aproximara-se de Fão.

Mestre, diziam-lhe os passageiros, mais devagar…
-C’os diabos os levem! Ná… P´ra frente… Iah! Iah!
Mais devagar, mestre!
Qu ´inxergas daí!
- Eu? Nada…
respondeu o ajudante de cocheiro.

A embriaguez daqueles homens, causa do atraso, não permitia ver nem ouvir os pedidos insistentes dos ocupantes. Sem afrouxar a marcha, o pesado veículo entra nas águas revoltas do rio. A maré atingira o seu máximo dificultando a passagem pelo trilho habitual. Os cavalos, com o impacto sofrido, empinaram-se e fizeram voltar a carruagem. Iniciara-se a tragédia, enquanto os passageiros desapareciam, engolidos pelas águas; o cocheiro e ajudante, vendo fugir-lhes a esperança de continuarem a viver, imploraram o poder sobrenatural:

- Valham-me as almas do purgatório…
- Qu´as alminhas do purgatório m´acudam nesta aflição, berrou o ajudante.


Segundo a lenda, inexplicavelmente, mas com a ajuda das alminhas, certamente, atingiram todos a margem sãos e salvos.

Entretanto, o povo, apercebendo-se da catástrofe, acorreu ao local em auxílio destas almas em perigo.

Invadidos pelo arrependimento da ação cometida e que a embriaguez precipitara em tão dolorosa tragédia, os dois homens, depois de salvos, prometeram a construção ali perto de um nicho dedicado às Alminhas do Purgatório que ainda hoje perduram.

A DEVOÇÃO DO POVO

Nunca as Alminhas do cais, até aos nossos dias, deixaram de ter os seus devotos, quantas vezes imploradas para acorrerem às aflições do povo.

Muitos anos depois, quando a lenda já se perdia no pó dos tempos, outro acontecimento trágico viria reavivar a devoção do povo pelas Alminhas.

Rio acima, a caminho da Barca do Lago, barcos a remos transportavam crianças do Orfanato Municipal do Porto, em férias acostumadas nesta praia. A banda de música de que era Mestre o sr. Leitão, fazia ouvir os seus ordinários muito marciais e festivos e que eram afinal, a alegria da criançada. É que, dentro de um dos barcos ,juntavam-se algumas dúzias de foguetes que solenizariam este passeio fluvial numa bela tarde de verão. E, já próximo do Forno da Cal, prepara-se o primeiro foguete… e o último. Todos os existentes a bordo, por efeito do primeiro, incendiaram-se e foi a tragédia. Partido em dois pedaços pela explosão dos foguetes, o barco volteava nas águas impulsionado pelo impulso e só parou na margem.

Mais uma vez foi invocada a proteção das Alminhas do Cais: o sr. Leitão, responsável pelo passeio, desesperadamente recorreu às Almas do Purgatório e obteve a desejada bênção e proteção.

A tragédia não atingiu as proporções que, no momento, seria de prever e supunha. Das 30 pessoas embarcadas, apenas duas receberam queimaduras de grau maior. Por isso, anualmente, as Alminhas do Cais tiveram durante anos de vida do sr. Leitão, a melhor das festas organizadas nesta terra ribeirinha.

A devoção do povo pelas Alminhas recomeçou depois mais confiante e convicta e por ali se rogava pelo filho ou marido em viagem para o estrangeiro, por cura de doente que a medicina considerava insanável, pela sorte na pesca do bacalhau no oceano gelado, pelo maior êxito nos exames do Liceu; pelo regresso do soldado ausente no ultramar; pelas boas vendas das peixeiras nos mercados; pelas melhores notícias vindas do Brasil, entre muitos outros, sempre fervorosos, persistentes; casos pitorescos, eivados de carinhosa devoção, por graças das Alminhas do Cais.

No entanto, diziam muitos devotos que as Alminhas eram muito interesseiras! Primeiro a esmola, depois o pedido e depois o agradecimento devido.

Mas o Povo continua fiel à sua crença, nutrindo especial devoção pelas Almas do Purgatório.

Autor: ARTUR LOPES DA COSTA

Manuel Vieira
nevieira@novofangueiro.com

Nº de Visitas.: 0002773849
free log





Crónicas do Zé:
"Requisição da capela da Senhora da Bonança para posto da Guarda Fiscal"







"O Novo Fangueiro"
Email de contacto: geral@novofangueiro.com