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PAULO FONTE
Um "Carioca" fangueiro

Paulo Fonte foi um dos nossos primeiros leitores e é dos mais assíduos viajantes no nosso site, que apesar da distância que um oceano o separa da nossa terra, tenta viver bem perto dela através das novas tecnologias. Encontramos o Paulo Fonte numa das suas visitas a Fão, ainda em plena primavera, acompanhado de sua esposa Anette e rapidamente deu para perceber que estávamos na presença de um verdadeiro fangueiro.

Filho dos fangueiros Alfredo Lopes e Soledade Fonte e irmão da também nossa leitora de longa data Helena e da Fátima (esposa do Manuel Sousa “Penetra”), o Paulo já nasceu em solo brasileiro, mas desde as primeiras visitas á terra dos seus progenitores, desde logo se apaixonou e reviu como verdadeiro fangueiro, vindo cá assiduamente e tentando acompanhar tudo o que por cá se vai passando, desde o contacto estreito com os seus familiares às leituras do antigo Novo Fangueiro, versão em papel e nos últimos anos da sua versão online.




Pais e irmãs junto ao rio em Fão em 1973














Novo Fangueiro- Sabendo que não nasceu em Fão e viveu sempre no Brasil, como sente tanto este apego à terra de seus pais?

. Paulo Fonte- “Era eu menino quando vim a primeira vez a Portugal e logo me apaixonei por Fão, como se tivesse aqui nascido e crescido. O meu pai já não vinha cá há mais de uma dezena de anos e mal me punha a vista em cima, pois eu fugia para a praia de manhã e para o rio de tarde, lugares de uma grande beleza natural. Corria as ruas e vielas típicas da terra e então os casarões antigos fascinaram-me. Um ou outro ainda me mantém relativamente conservados, mas é pena a maioria estarem tão degradados, como a casa na rua Pio Rodrigues (do Morais), muito bonita. Eu gosto muito desses casarões antigos e lá no rio também tem alguns belos exemplares, da época da colonização portuguesa que aprecio, embora lá tem muitos em perfeito estado de conservação. ”





















NF- Sente que as novas tecnologias ajudaram a aproximá-lo mais de Fão?

Paulo Fonte

Sem dúvida! E o aparecimento do Novo Fangueiro Online, foi muito bom com uma actualização muito boa, embora sinta pena de algum abrandamento dos tópicos que surgiam periodicamente. E comecei a sentir uma enorme curiosidade em tudo o que cá ia passando, mesmo sem conhecer muitas coisas e pessoas de quem se falava. Até que agora com a TV via net, pude visualizar muito do que vocês falavam e até ver o rosto de muitas dessas pessoas, como por exemplo os jogos da equipa de futebol.”




Paulo perto do rio na zona do estaleiro em 1962














NF- Que duração vai ter esta sua estadia e que mais aprecia em Fão?
Paulo Fonte- “Viemos por duas semanas, mas apenas e infelizmente estaremos uma em Fão, pois também iremos passar em Lisboa.
O que mais aprecio em Fão é sem dúvida a beleza natural. Eu sempre adorei o rio e em pequeno já gostava de ficar a apreciar a maré a crescer, com a água a invadir lentamente a relva. Mas também gosto muito da praia, da ruas estreitinhas e como já disse as casas antigas, lamentando claro a falta de conservação. (Remata a sua esposa Anette, que no Brasil há uma grande preocupação das autoridades em conservar o património e manter os traços antigos das fachadas. Pena também o estado em que ficou o edifício do antigo Hotel do Pinhal, que era muito bonito e de qualidade. Aqui no centro não houve grandes alterações para além da marginal junto ao rio que está agradável e a construção dos passadiços junto ao rio, que foi uma excelente ideia, sendo mais um belo passeio, que por outro lado ajuda a conservar a natureza. A praia está sofrendo um pouco com a erosão, mas infelizmente isso é um mal que está a acontecer em todo o planeta, como verifico no Brasil.”

Anete- “Tem também o facto de agora a ponte estar renovada e ser interdita aos grandes camiões, que ajuda também a conservar, não só nas questões de poluição, mas pelo mal que faz ás próprias habitações, com a sua passagem e claro o menor congestionamento de trânsito.”





















NF- Casado com uma brasileira e agora reformados, quais são agora as vossas motivações?
Paulo Fonte- ”Minha esposa Anette faz voluntariado num hospital do Rio de Janeiro, com doentes do cãncer e eu colaboro muitas vezes com ela, pois é uma actividade que nos faz sentir bem e úteis à sociedade, mas ela pode explicar melhor isso.”
Anette- ”É o maior hospital de doenças cancerígenas do Brasil, de grandes dimensões e que está ainda em crescimento, pelo que têm vindo a Portugal alguns especialista para verem algumas boas implementações que aqui já foram feitas. Nós trabalhamos com muita gente carenciada de todas as idades, mesmo com crianças que já sofrem desta terrível doença. Eu faço coordenação e organização de eventos, como festas para as crianças, sendo as do natal as mais trabalhosas. É um trabalho que gosto muito, mas por vezes não é fácil, pois custa muito ver crianças tão pequeninas já com cancro e com o afeiçoamento pelo carinho que tentamos dar, o sentimento de perda invade-nos muitas vezes e é doloroso. Mas temos que nos habitual e fazemos o que está ao nosso alcance. Como há muita gente carente, nós tentamos arranjar bolsa de alimentos, transportes, cadeiras de rodas e até para ajudar no aspecto psicológico e social, pois muitas vezes estes doentes são descriminados e nós tentamos também dar-lhes alguma formação nas algumas áreas como o inglês, informática, artesanato, para que muito voltem ao mercado de trabalho. Embora os voluntários não lidem directamente no tratamento do doente, o facto de aparecer, conversar com ele e por exemplo ajudar na alimentação, é um ajuda muito boa. Eu trabalho mais nos bastidores, organizando as equipas e toda uma logística. Eu e o Paulo trabalhámos na nossa vida profissional num banco e essa experiência foi-nos muito útil para estas funções no voluntariado, mas gostamos muito disto e mesmo com oportunidade para regressar à vida activa, eu já estou tão envolvida e afeiçoada a isto que já não pensei mais em largar o que faço agora. A minha grande paixão é a festa de final de Natal, que é muito violenta mas o Paulo me ajuda muito nisso, que é uma altura em que as crianças vivem com enorme expectativas os presentes, que nós conseguimos arranjar através de doações, que nós tentamos angariar por todo o lado. Chegamos a juntar 300 crianças que conseguem ir à festa e alegria delas é imensa, pois conseguimos alguns excelentes presentes, que ajuda a esquecerem o grande mal que sofrem. Depois também por vezes conseguimos alguns artistas de nome para participarem na festa, como por exemplo aconteceu este ano com a vinda de jogadores de futebol do Botafogo e do Vasco da Gama, entre eles o Carlos Alberto que jogou aqui no Porto, eles deliraram com eles. O trabalho que está a ser feito é muito bom e até a parte da educação é resguardada, havendo professores que se deslocam ao hospital. Isto é gratificante, mas é preciso muita coragem para não nos envolvemos demasiado e eu já por duas vezes o fiz e sofri muito com falecimento dessas crianças, como aconteceu em Dezembro passado, ficando arrasada e estou sempre a dizer que isso não vai voltar a acontecer. Mas nisso o Paulo me ajuda muito. “




Com duas das irmãs junto à casa do tio Manuel no Ramalhão em 1962













NF- O Paulo sente-se mais brasileiro ou português?
Paulo Fonte- ”Eu sou com certeza um “carioca”, mas sinto-me muito português e tal como as minhas irmãs há muito que acompanho tudo o que se passa em Portugal, mesmo pelas televisões, agora com muito mais opções como a TV por cabo, que nos trás tudo, até os jogos de futebol. Eu sou adepto do Vasco da Gama, um clube fundado por portugueses e cujos adeptos são anti-Flamengo o grande rival no Rio, como cá entre Benfica e Porto. Em Portugal não tenho grande preferência embora como tenha acompanhado o Mundial de 1966 em Inglaterra e a aquela grande Selecção de Portugal fosse quase toda do Benfica eu durante muito tempo foi fã do clube, mas com os últimos resultados do Porto eu também o aprecio bastante e fico um pouco dividido, mas sei que a rivalidade cá é muito grande tal como no Brasil entre clubes como o Internacional e o Grémio, que chega a ser assustadora. Mas sinceramente, eu sinto bem cá dentro de mim que Fão é a minha terra, onde estão as minhas verdadeiras raízes e sempre terei saudades de cá voltar de novo e o mais breve possível.”





















E foi entre um céu cinzento e a ameaça de chuva a pairar que encontramos, conversamos e despedimos, ali à beira-rio, sentado num banco em frente ao chalé do “Minguinhos”, que lá de cima, deve ter sentido que no seu antigo “domínio” estava alguém com os meus sentimentos de grande bairrismo e imensurável riqueza humana. E nós sentimos também privilegiados por ter conhecido este casal e transmitirmos este depoimento aos nossos leitores, que com certeza apreciarão mais que o testemunho a sua mensagem humana e como longe e tão longe se pode amar tanto esta terra que é Fão.

E porque esta entrevista/conversa, já aconteceu há vários meses, aproveitamos para incluir neste artigo uma mensagem que o Paulo nos enviou pouco depois de regressar ao Brasil e que mais uma vez comprova muito do que dissemos atrás.

"Estou de volta ao Rio de Janeiro e retornando a minha rotina.
O tempo em que estive em Portugal foi curto, porém bastante proveitoso. Revi minha irmã, meu cunhado, sobrinhos e meus primos (Manuel, Cândido, Prazeres, Aida e Célia). Passei, ainda, alguns dias em Lisboa, Fátima, Óbidos, Nazaré, Batalha e Alcobaça. Entretanto, é em Fão que me sinto melhor. Além da alegria em estar com os parentes essa Vila traz-me ótimas recordações.
Logicamente que Fão mudou. Os antigos caminhos que percorria com meus pais e irmãs entre os pinheiros já não existem mais. Hoje, os condomínios cercaram todas aquelas áreas.
Andando por Fão, vi muitas e belas residências no caminho até a capelinha de Santo Antônio. No centro, os antigos e belos casarões que eu tanto admirava ainda existem, porém, a maioria deles encontram-se em mau estado de conservação. É pena. Os primeiros moradores já devem ter falecido e os descendentes, acredito eu, não têm interesse em mantê-los. As famílias hoje são menores e não necessitam de ocupar dependências tão grandes. Além disso, a conservação desses prédios torna-se muito dispendiosa.
No Brasil isso também acontece. De um modo geral essas mansões transformam-se em consultórios médicos, laboratórios, agências bancárias e sede de empresas. As fachadas são mantidas e são realizadas obras internas (elétricas, hidráulicas e de marcenaria) para adaptá-las às novas funções. Assim, pelo menos, os prédios são mantidos.
Por fim, gostaria de agradecer, mais uma vez, ao Novo Fangueiro tudo o que traz até tão longe de Fão.


Esta entrevista será posteriormente colocada no Tópico "Grande Entrevista" por alguns dias e depois transitará para o espaço à esquerda "Entrevista".

Jose Belo
josebelo@novofangueiro.com

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