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SÉRGIO ALBERTO CARDOSO DE SOUSA

Nascido na pobreza e dormindo num gavetão

NF- Fala-nos das tuas origens e algumas lembranças de pequeno
Sérgio- ”Nasci há 61 anos (17 de Maio de 1948), ali junto ao cais, filho da Berta Celeste Cardoso e do Francisco Costa (“Chico Glória”), mas praticamente não tive pai nem mãe e fiquei entregue a minha avó Adélia “Mata” e meu tio “Neca Mata”, que também vivia com ela nessa casa, que pertencia à D. Aninhas “Saragoça".
Era uma casa pobre em que proliferavam os animais, desde galinhas, coelhos, pombas, entre outras aves e repartíamos o mesmo espaço. Eu tinha o “luxo” de dormir num gavetão que a minha avó abria á noite, num tempo de muita pobreza e privações.”


NF- Em pequeno era teu vizinho e conheci-te como o “Sérgio dos Patos”, que te acompanhavam muitas vezes. Eram também da tua avó?
Sérgio- ”Não. Foi o Vilar Soares, um homem que me via sempre pelo cais e pelo rio e de certa forma me achava piada, que certo dia me deu uns gansos. Bem, o desgraçado do Sérgio, acabou por ser o “pastor” dos gansos e assim ter a responsabilidade de os alimentar, tomar conta deles e guardá-los diariamente.
Eu era um rapaz como se diz agora hiper-activo e não passava nunca despercebido. O rio era o meu local preferido e muito pequeno já andava a “barguear” com o Antonino Borda, que berrava muito comigo, mas sabia que eu era mais destemido que nenhum e no fundo admirava-me. Na escola evidenciava algumas qualidades, como por exemplo na declamação e fui seleccionado algumas vezes para o fazer na Festa de Natal. A D. Helena Amaro Correia, que foi minha professora e filha do azeiteiro de Esposende, chegou a dedicar-me algumas palavras, num livro que escreveu chamado “Maria Mãe”. De resto era um rapaz como os outros que me envolvia nas brincadeiras típicas do nosso tempo, a maior parte das vezes no largo do Cais, a jogar à bola com o teu irmão Carlos, que era o meu principal amigo da infância.”


Entre a pesca e a madeira

NF- Começaste então a trabalhar muito cedo e também sei que gostavas de pintar ainda em jovem...
Sérgio- ”Bem pescar comecei muito pequeno, fosse a “barguear”, a apanhar “eirões” ou solhas no rio, mas também fui ao mar com o “Zé Bêbado”. A pintura, foi algo que sempre gostei de fazer, quase sempre em pedaços de madeira, como ainda podes ver muita coisa aqui no Fojo. No entanto foi em Timor, quando lá estive na tropa que mais pintei, tendo feito uma exposição no quartel com 75 trabalhos meus.
No entanto, fui também muito jovem para a Fábrica do Felgueiras, onde fazia de tudo um pouco, desde encastelar tabuinha, a carregar e arrumar madeira, que era um trabalho bastante árduo. Depois que a fábrica fechou ainda trabalhei na Fábrica do Albino Torres. ”


Serviço militar na longínqua Timor, onde deixou marcas

NF- Depois veio a tropa e logo na colónia mais distante…
Sérgio- ”Pois foi. Até é engraçado, porque eu poderia se quisesse ter ficado no continente, ao abrigo do chamado “abrigo de mãe”, mas eu quis mesmo abalar. Até há uma história engraçada…A minha mãe que como se sabe bebia demais naquele tempo, chegou a atirar pedras ao quartel na Póvoa, gritando: -Quero o meu filho! Ora isto chegou ao comando a Timor e voltaram a falar-me, mas eu não queria voltar e sei que depois fizeram chegar algum dinheiro à minha mãe, que recebeu um subsídio durante muito tempo, não sei bem porquê e como. Sei também que no quartel tinha regalias distintas, não fazendo serviços e sem horários estipulados para cumprir.
Parti no dia 26 de Dezembro de 1969 e nesse dia sonhei que estava já de regresso, saltando do autocarro junto ao hospital, onde estava a “Micas Ventosa” a “Tina Vinte e nove” e a “Landa Panca”, que me saudaram. Pois quando regressei lá estavam as três.
Estive em Timor cerca de 2 anos e meio. Lá ganhei muitos amigos, entre os militares e os indígenas locais. Com as minhas pinturas, que ficaram todas lá, decorei todos os compartimentos do quartel, na maioria sobre temas marítimos, para alegrar aquilo. Nós tínhamos o quartel na montanha, mas muito perto do mar, onde havia muito peixe, mas quase ninguém o pescava e só o faziam á linha. Então eu revolucionei aquilo e consegui que viessem 50 redes do continente. Enchiam-se os barcos com peixe que dava para alimentar o quartel e todas as aldeias em redor. Há algum tempo esteve aqui no Fojo a filha do Xanana, falamos muito de Timor e ela convidou-me a voltar para lá.”


Da Fábrica do Albino a barman no Hotel Ofir

NF- Após o regresso em que te ocupaste?
Sérgio- ”Voltei para a Fábrica do Albino, mas acabei por me fartar desse trabalho e depois fui falar com o Carlos Maia, pedindo-lhe trabalho no Hotel de Ofir. Fui chamado para trabalhar no bar, onde estive durante 2 anos. Por esta altura apareceu-me a minha mãe à frente e eu disse-lhe que não a queria ver mais, enquanto ela bebesse daquela forma. A partir dessa data ela deixou a bebida e finalmente tivemos uma relação familiar, que foi muito boa e durou até à sua morte. Talvez influenciado por essa actividade, pensei em abrir um bar e claro tinha que ser perto do rio, curiosamente e segundo a minha mãe, perto de um torrão carregado de juncos, o local onde eu havia sido concebido. ”

Na zona dos antigos estaleiros nasce o Fojo

NF- Quais os contornos para construíres o Fojo e como foi o seu funcionamento?
Sérgio- ”Olha, primeiro fui juntando umas tábuas e com alguns pescadores meus amigos começamos a edificar. Só depois é que fui falar com o Dr. Torres, que era na altura o presidente da Câmara de Esposende, que me mandou avançar. O António Sá Pereira fez-me o projecto, que depois foi ajustado ao meu pormenor.
Não demoramos muito a abrir ao público com muitos pescadores como clientes. Claro que não vivia só disso, pois continuava a pescar e depois comecei a comercializar enguia e outro pescado. A minha actividade foi sempre um mundo de indefinições, eu nunca fui homem de fronteiras e quotidianos.
Mas claro que o Fojo, foi uma casa diferente, que tinha animação, feita quase sempre por nós e pelos próprios clientes, aberta até mais tarde que os outros. Por ser um bar aberto à noite apareciam clientes de todos os meios, nacionalidades e alguns até bem complicados, mas com a minha forma de ser, sempre tive segurança sem ter seguranças e nunca tive grandes complicações. Uma coisa posso garantir-vos, eu nunca me meti em coisas ilegais e isso não me arrependo.”


O Fojo, um bar que granjeou fama além fronteiras

NF- Confessas que em determinada altura o Fojo era um sítio muito procurado e um bom negócio
Sérgio- ”Realmente foi, pois as pessoas sentiam-se bem cá e os estrangeiros durante vários anos iam enchendo os nossos hotéis e o Fojo era um “santuário” que muito apreciavam. Quanto ao negócio, agora é ver por exemplo os próprios bares dos hotéis vazios, por isso embora esteja sempre por aqui, praticamente só abro com frequência no verão e aos fins-de-semana. Mas eu nunca trabalhei para ganhar muito dinheiro, as festas fazia-as e às vezes até me esquecia de cobrar ou só me pagavam os custos. A minha forma de vida sempre foi assim, nunca pensando em lucros e luxos, mas viver com o imprescindível e como eu quero. Sei que sou por um pouco “criança” na forma de ser e pensar, mas é assim que quero morrer, sentir-me mentalmente infantil, pois isso dá-me uma certa alegria.”

Um homem controverso e envolvido em várias lutas e iniciativas

NF- Foram muitas as tuas iniciativas, algumas muito polémicas, queres falar disso?
Sérgio- “Já organizei algumas coisas, algumas com alguns colegas, mas muitas praticamente sozinho. Sabes uma coisa? Dá mais prejuízo fazer alguma coisa com alguém do que só. É trabalhoso? É por vezes violento? É verdade que sim, mas eu não desfaleço! Assim só dependo de mim e não estou á espera que um me dê esta ou aquela desculpa para se escusar. Eu decidindo, vou até ao fim nem que me custe “os olhos da cara”. Fizemos aqui algumas festas e homenagens, como foram as “Nortadas” e agora vai ser a “Festa das Alminhas do Cais”, que vai acontecer no dia 13 de Novembro, uma sexta-feira. Mas com isto não quero dizer que em Fão não haja gente com muito mérito e empreendedor! Que melhor exemplo temos como o “Tino” Cubelo, que pegou num pequeno hospital e meia dúzia de irmãzinhas e fez um obra fantástica e de grande orgulho para Fão?!
Uma outra festa que tenho em mente organizar e acho que não vou morrer sem o conseguir, será juntar um dia os três irmãos “Bom Jesus”, de Fão Senhor da Cruz de Barcelos e Senhor de Matosinhos. Hei-de conseguir que eles venham a Fão, embora saiba que o de Barcelos, nunca saiu à rua.”


Mil patos para o nosso rio

NF E problemas com as autoridades? Por exemplo os patos também dividiu muita gente.
Sérgio- ”Tive uma chatice com a Junta, por causa de uns “mecos” que foram colocados, para impedir a passagem para o rio na rampa do cais. Um banhista que queria levar o barco para o rio veio-me perguntar onde o podia fazer e eu fiquei incrédulo. Então temos um cais e não podemos usar? Vai daí e de noite fui lá e arrebentei com eles. Tive de responder em tribunal e quando o juiz me perguntou se tinha destruído os “mecos” eu respondi-lhe que não destruí, mas desobstrui a passagem para o rio. Senhor doutor juiz eu vivi toda a vida junto ao rio e criar ali um obstáculo é ir contra a nossa própria natureza, então quem quer colocar um barco no rio ou mesmo para uma emergência, como o barco dos bombeiros para socorrer alguém! Bem, mas o juiz retorquiu, que aquilo era um bem público e eu tinha de pagar por isso e a sentença ditou-me 3 anos de cadeia com pena suspensa. Isto só em filmes acontece, môr, mas foi verdade e sei que depois o próprio juiz esteve em Fão para inteirar da situação. Olha só sei que nunca paguei nada à justiça por isso.
Os patos, foi em 1992 que comprei 350, mas roubaram-nos todos e depois comprei 1000. A política e os jornais meteram-se com os patos e houve algumas controvérsias, mas as autoridades nunca incomodaram. Os patos foram adaptando-se ao rio, que não era o seu “habitat” natural, pois por aqui só aparecia um ou outro pato bravo e resistindo à hostilidade das gaivotas. O certo é que foram alegrando as crianças, centro de atenção de todos, alvo de milhares de fotografias, fazendo que o nosso rio e a própria terra fosse ainda mais visitada.”


A Senhora da Bonança

NF- Sei que tens uma particular devoção pela Senhora da Bonança, porquê?
Sérgio- ”Como eu muitos da nossa geração e até antes em que havia uma grande comunidade piscatória, dedicavamos as nossas preces à Senhora da Bonança, para que nos ajudasse na vida dura do mar. Em pequenito ficaram-me marcadas nas minhas recordações mais distantes os dias em que ia com a minha avó e a “Sãozinha Setenta”, apanhar faúlha naquela zona envolvente à capela. Hoje, temos apenas um barco no mar e por isso a romaria foi perdendo aderência e sofrendo da discriminação de ser organizada apenas por mulheres. Esqueceu-se as nossas origens, em que o mar nos deu tudo e fez desenvolver esta terra, que nasceu de uma comunidade piscatória e as diversas actividades paralelas, como as varinas e até a própria construção de barcos. Aliás estou mesmo convencido que ainda irei organizar uma festa para assinalar o último barco no mar de Fão, embora eu tenha consciência de que não há culpados por isso.”

Mensagens, poesia e dedicatórias decoram o Fojo

NF- Neste teu Fojo proliferam as mensagens e nomes nas paredes e tectos, queres falar-me disso?
Sérgio- Olha, aqui na zona do balcão, tenho no tecto o nome de figuras, a maior parte já desaparecidas, que marcaram a vida de Fão, especialmente ligadas à faina da pesca. Depois tenho também frases cujos temas são a Lua, o mar e a Pesca. Depois pelos vários espaços tenho algumas frases minhas, a maior parte delas como forma de homenagear os pescadores e mensagens de paz e amizade.

Filosofia de um homem só

NFIsso também por alguma veia poética e filosofia muito própria…

Sérgio- ”Môre, eu como te vou mostrar numa caixa onde tenho centenas de “naperons”, tenho escritos e poesias que davam para ler durante meses e posso dizer que a minha vida só por si teria relatos infindáveis. Eu sou uma pessoa independente, sem amigos talvez, mas não tento imitar ninguém, quero ser apenas EU, fazendo apenas o que me apetece, andando como me apetece. Olha aqui esta frase, escrita num simples guardanapo de papel: - Só mudo de roupa, quando as vestes se começam a cansar!
Vou ler-te apenas algumas frases de um tema apenas e que há pouco foi motivo de uma festa organizada por mim – As Nortadas:

SENTI-AS PASSAR, MAS NUNCA AS VI
OUÇO O BARULHO DOS BARCOS A BATER CONTRA O CAIS
PROVOCANDO ONDAS DE LOUCURA
QUE SÓ PARAM DE VENTAR AO ANOITECER
MEU DEUS COMO GOSTO DAS NORTADAS!...
COMO SINTO O PODER DA SUA FORÇA!
E O CORREDOR DO RIO MESMO A MEU LADO
PASSAM À TARDE COMO QUEM COM PRESSA DE CHEGAR
NÃO SEI ATÉ ONDE?
JÁ FUI PARA AS VER CHEGAR E… DESAPARECIAM,
ESCONDENDO-SE TALVEZ NO MAR AMANSADAS
COMEÇAM COM SINTOMAS DAS MARÉS
E SÓ AO FIM DA TARDE, JÁ CANSADAS DESAPARECEM.
E NÃO SE PODEM VER NOS ESPAÇOS ONDE SE OCULTAM
QUE SENSAÇÃO MAIS NATURAL DE LIBERDADE
SÓ QUERIA IR ATÉ ONDE ELAS VÃO
E DISFARÇAR-ME NO ESPAÇO INCONFUNDIDO
SEM QUE NINGUÉM ME PUDESSE VER
AS NORTADAS…ÀS VEZES INDEFINIDAS AS NORTADAS
COMO QUEM NÃO SABE PARA ONDE IR OU SE FICAR
SENTE-SE NO AR A SUA TEIMOSIA DE QUERER PASSAR
MAS, O TEMPO NÃO LHES É FAVORÁVEL
GOSTO DAS NORTADAS!
VESTEM-SE COM ROUPAS TRANSPARENTES
QUANDO REVOLTADAS E SUJAS
AS ÁGUAS EXPLODEM ENERGETICAMENTE,
QUE FAZ TURVAR AS ÁGUAS
E EM GRUPOS OU MASSA COMPACTA
AS NORTADAS PASSAM ÀS VEZES
LEVANDO TUDO À SUA FRENTE
E ATÉ OS TORRÕES E AS AREIAS QUE VIVEM NO RÉS-DO-CHÃO
SÃO VÍTIMAS, PROVOCANDO EROSÕES ATÉ AO ENTENDIMENTO
AMO AS NORTADAS! SOMOS OS VIZINHOS MAIS PRÓXIMOS
E QUANDO A CALMARIA TEIMA EM ESTAR COMIGO
SÃO ELAS QUE ME DEFENDEM E PROVOCAM CORRENTES DE AR MARÍTIMO
COMPOSTO DE OXIGENAÇÃO NATURAL E GRATUITA
AS NORTADAS SÃO SEMPRE JOVENS…
VEM DE NOROESTE, ENTRAM NA BARRA, MAS NÃO SEI EXACTAMENTE ONDE
SÃO DIFÍCEIS DE ENTENDER
E AS SUAS REACÇÕES ÁS VEZES PARECEM NORMAIS
E QUANDO ENTRAM NA AMPLITUDE DO CORREDOR DA BARRA DE ESPOSENDE
A ÁGUA DO RIO PROVOCA ARREBENTAÇÃO DAS ONDAS
QUE ESPUMAM EM FRAGMENTAÇÃO ENERGÉTICA
NUMA DEMONSTRAÇÃO DE RAIVA E DE PODER
GOSTO DAS NORTADAS!
AS SUAS REACÇÕES PARECEM MINHAS E TAL COMO ELAS
QUERO PASSAR E MORRER AO VIRAR DA CURVA DA BARCA DO LAGO
E DESAPARECER DESPERCEBIDO NA PASSADEIRA DO IRREVERSÍVEL
AMO AS NORTADAS!
E PORQUE SEI QUE TAMBÉM MORREM AO CHEGAR Á NOITE
E PORQUE GOSTO DELAS, SUBSTITUO-AS Á NOITE, VIVENDO
ENTRAM NO RIO EM FORMA DE TEMPESTADE
COMO QUEM FORÇA O CAMINHO PARA PASSAR EM BUSCA DA NASCENTE
SOPRAM LOUCAS! LEVANDO ÀS VEZES TUDO À SUA FRENTE
FUSTIGANDO A MARGEM ESQUERDA COM VIOLÊNCIA
PERDENDO A FORÇA QUANDO PASSAM PARA FÃO
E NA SUA VIOLÊNCIA À PASSAGEM TRAZEM FRESCURA E AR PURO DE ALIMENTO
COMO SUSTENTO OU DESINFECÇÃO ABENÇOADOS
E TÃO VELHAS COMO O UNIVERSO, SEMPRE JOVENS
VESTEM TUDO DE AZUL LIMPANDO OS SEUS EXTRACTOS QUE ESTÃO NO AR
MEU DEUS COMO AMO AS NORTADAS!
E NEM CONSIGO PENSAR EM AR ARTIFICIAL
AO SABER QUE TANTA GENTE FOGE DELAS
E ACUSANDO-AS DE NOS TRAZER GRATUITAMENTE
O AR MAIS PURO, PRODUZIDO PELO MAR
MEU DEUS COMO AMO AS NORTADAS!
SÓ QUERIA TOCAR-LHES E AS LEVAR COMIGO
E MOSTRAR A TODO O MUNDO, PORQUE AMO A SUA ESSÊNCIA
APAIXONEI-ME POR ELAS QUANDO E CONFORME CRESCI
E O IODO DO MAR ME TROUXE EM MIM
COM VALORES DE ENERGIAS ALTERNADAS
MAS SENTINDO A PUREZA DO VENTO FORTE
QUE CASTIGAVA O FENO E AS DUNAS
JUREI PRAGAS E PROTESTEI CONTRA ELAS
MAS DEPOIS DE AS CONHECER CHORO POR ELAS SE ELAS NÃO VEM
E MESMO COM O BARCO BATENDO CONTRA O CAIS EM RISCO DE PARTIR
E AS GAIVOTAS VOANDO CONTRA ELAS
SOUBE E APRENDI MAIS TARDE QUE ELAS NÃO SE CANSAVAM
E PELO CONTRÁRIO USAVAM O VENTO PARA VOAR
MEU DEUS COMO ADMIRO O VALOR E A FORÇA DAS NORTADAS
JÁ NÃO POSSO VIVER SEM ELAS
SE ACALMAM SOFRO SENTINDO QUE NÃO VÊM E SINTO FALTA DE AR
E SAUDADE DO SEU SOPRO QUE ME ALIMENTA A VONTADE DE VIVER
GOSTO MAIS DELAS PORQUE SEI QUE TAL COMO EU
ACABAM PELA TERRA ADENTRO…

Isto continua muito mais, mas não é para chegar ao fim.”


Fão é uma terra de gente boa, às vezes adormecida

NF-Como vês Fão, os fangueiros e a actual sociedade em geral? E na política onde te situas
Sérgio- ”Fão e a nossa sociedade é muito boa, gente querida mesmo. Às vezes estamos adormecidos, mas quando acordamos é muito bonito e não faltam provas disso nos vários sectores desta mesma sociedade. Fão não morreu, como dizem alguns, embora algum desinteresse de muitoS, o deixar a responsabilidade para os outros na verdade, ajuda a que morra um pouco de cada de um de nós.
Eu quero fazer a diferença, embora incompreendido. E digo eu, depois vão me perceber quando eu já cá não estiver? Por isso não gosto de adiar as minhas decisões e convicções. Não tenho que me levar pela opinião dos outros e andar aqui a enganar-me a mim próprio para mostrar que sou boa pessoa. Sei que sou selvagem e vivo a vida á minha maneira, fugindo da sociedade, com o meu próprio conceito.
Sou de direita, mas não pelo poder económico, mas sim pelos estragos que as ditaduras causaram, principalmente nos países de leste, onde a tristeza, a miséria e a morte andaram de mão dada por muitas décadas. Sabes môre, eu li o Arquipélago de Gulag, que é um relato verídico e assustador dos crimes que a ditadura pode causar, daí que nunca poderíamos ser comunistas.
Internamente, poderei dizer que esta mudança em Fão poderá ser benéfica, pois estávamos a ficar um pouco “estrangulados”, havendo um certo elitismo e falta de diálogo, o que penso terá penalizado os derrotados nas últimas autárquicas. Não que o Zé Artur e os que lá estavam não sejam boa pessoas, que são e independentemente de quem venha a seguir.”


NF- Para ti qual é a principal carência da nossa terra?
Sérgio- ”O rio, môre! Antes tínhamos peixe junto ao cais onde lavavam as lavadeiras, onde apanhávamos “eirões” que envelheciam e engordavam no meio e por baixo das pedras do cais e o peixe vinha até à margem, ode havia rio. Agora é só lixo e lama, está tudo enterrado e o rio já não passa junto ao cais e os barcos que antes ancoravam aí agora têm de ficar no meio dele. Só com as maré altas ele passa aqui perto. Bastava uma máquina perder um dia de vez em quando para limpar aqui junto à margem.”


Uma bela foto de Né Vieira, que retrata melhor que ninguém o Sérgio Cardoso, ele que mereceu deste nosso colega a dedicatória de um blog, que poderá encontrar nos nossos links

Recordar com…o Sérgio, foi para mim, que vivi tanto tempo tão perto e tão longe dele, um privilégio, pois é realmente diferente e isso já o sabia eu e todos nós, mas a sua capacidade de lembrar e abordar os temas, as histórias surgem de uma forma quase que poética e filosófica. Uma filosofia muito própria e inimitável de um homem, de convicções inabaláveis, que qual D. Quixote de Cervantes, continua a enfrentar “os moinhos” num sonho, em que ele se integra entre as águas e o vento. O vento, que lhe fustiga um rosto já enrugado, mas lhe traz uma invejável tranquilidade e uma contínua inspiração e motivação surpreendentes.


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Jose Belo
josebelo2000@sapo.pt

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Entrevista: Raquel Vale- 1 ano à frente da Santa Casa da Misericórdia de Fão







"O Novo Fangueiro"