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Crónicas do Zé:
Grande tumulto provocado por corsários e almocreves.

Já tive a oportunidade de abordar aqui o desembarque de tropas inglesas na praia de Fão, que tinha por finalidade capturar e aniquilar um corsário espanhol que se refugiara no estuário Cávado, ao sentir-se acossado por uma fragata inglesa, em 14 de Maio de 1805.

Para que não fique a ideia de que se tratou de um caso isolado – o da “visita” de corsários - dou hoje conta de um outro episódio em que eles foram protagonistas, desta vez passado em terra e que pôs a zona ribeirinha de Esposende em polvorosa, cerca de um ano e meio depois .

Tudo começou pelas três da tarde de 27 de Dezembro de 1806, quando entrou na barra, para fazer aguada e mantimento, uma “vasca” armada em corsário comandada por D. Manuel Nicolino, cuja tripulação deu bem que fazer às autoridades locais, ao provocar graves desacatos durante o curto período que aqui permaneceu.

Logo após ter fundeado no rio, o capitão ou comandante do corsário de guerra, foi imediatamente intimado pelo Juiz Vereador mais velho, pelo escrivão da Alfândega e pelo Meirinho do Juízo, para que logo que estivesse aviado de todo o necessário, «despejasse e desse à vela na maré daquela tarde», visto que mais duas vascas não haviam entrado e estavam perto. Foi ainda avisado para não deixar vir a tripulação a terra, «senão dois a dois e sem armas». Todavia e para espanto dos presentes, esta intimação foi contrariada pelo vice-cônsul de Espanha em Esposende, José António Loureiro, que em total desrespeito pela autoridade judicial, afirmou que iria tentar prolongar as 24 horas da Lei, «pelo tempo que lhe parecesse, em razão de o inimigo estar de fora, à vista».

Esta insólita atitude do vice-cônsul, terá sido um incentivo a tudo o que passou a seguir, que segundo as autoridades foi um «alvoroço e motim, por tudo, ferindo a todas e quaisquer pessoas que por diante deles passava » e um verdadeiro insulto o terem entrado em turbilhão pelo quartel dos soldados e roubado duas espingardas que levaram consigo.

Perante estes factos, o Juiz Manuel de Vilas Boas Ribeiro, decidiu mandar instaurar um «auto de devassa». É por esse auto que se sabe o que aconteceu, através do relato das testemunhas, que começaram a ser ouvidas no dia 30, A primeira, foi um ferido que se encontrava de cama , a quem foi feito um exame pelo cirurgião Custódio Caetano Maciel, na presença do tabelião e do meirinho do juízo. Tratava-se de um almocreve, com vários ferimentos provocados uns por faca de ponta, outros por baioneta e ainda um outro com catana.
Em seguida, foram a casa do estalajadeiro José Luís da Costa Terra, para aí ouvirem e examinarem sua mulher, tendo o Cirurgião verificado e declarado que ela tinha no braço esquerdo, excepto no cotovelo, um golpe profundo, feito também com faca, com couro e carne cortados e que o estado em que aquela ferida se achava era de muito perigo».
A estalajadeira , Joana Joaquina ,confirmou que «foram uns galegos espanhóis que no dia 27 haviam entrado na barra» e que além do ferimento, ainda lhe haviam roubado uma cama de roupa e uma candeia nova.

Uma outra testemunha, um vendeiro, que se encontrava no Cais, disse que vira entrar e fundear o corsário espanhol e os seus tripulantes «começarem logo a saltar e a não dar ouvidos ao que se lhes dizia, mas antes bufando e ameaçando que se encontrassem barcos alguns daqui, lhes fariam o pior que pudessem». Pelas sete horas da noite, voltou ao seu estabelecimento e viu os galegos entraram-lhe pela porta dentro «a quererem comer e beber, o que fizeram, saindo logo para fora muito alegres, cantando e fazendo alvoroço pela terra». Entretanto, reparou num almocreve a passar, esvaído em sangue, amparado por um trabalhador das obras , por causa das facadas que os espanhóis lhe tinham dado.

Um outro vendeiro declarou sob juramento, que entraram no seu estabelecimento, «dois galegos com facas compridas nas mãos, mas logo saíram e se dirigiram juntamente com outros a casa do estalajadeiro José Luís da Costa Terra, que ao ver aquele turbilhão de gente entrar de rompante na sua estalagem e «apagar-lhe as candeias esbandalhando o lume e fazendo desatinos de maior, partindo a loiça e todos os mais trastes do ornamento da casa», fugiu, «pasmado» para as estrebarias e só se aproximou de uma porta porque ouviu os gritos de sua mulher «à voz de el-rei», enquanto o seu estabelecimento era apedrejado.
Segundo ele, eram mais de trinta os galegos do corsário de guerra que tinha entrado na barra naquela tarde, armados com facas de algibeira nas mãos, baionetas e pistolas à cinta. Perguntou-lhes o que queriam, mas não obteve qualquer resposta, percebendo de imediato que a intenção deles era matá-lo e só não o fizeram «se acaso não apagasse o lume e se agachasse, fugindo direito para uma loja de vinhos que aí tinha, escapando por este modo, debaixo de umas pipas» onde permaneceu até a turba se ir embora. Só depois é que socorreu sua mulher, Joana Joaquina, ferida com uma facada que lhe deram no braço esquerdo.

O vereador da Câmara, António Caetano Gonçalves Marques, que ia a passar no local, ao ver tamanha desordem, «parou para observar e para acudir, caso fosse necessário, o que não chegou a praticar por se ver só e o número de malfeitores ser grande, escapando à morte com uma formidável pedra que lhe caiu perto dele, com tanta força que se lhe desse, tinha-o matado» .

Por sua vez, José Gomes, o furriel da Companhia Fixa de Soldados, destacado “nesta vila” declarou que logo que ouviu o barulho de mulheres a gritar, mandou um dos soldados que comandava para acudir ao desacato. Quando lá chegou, os galegos atiraram-se a ele, rasgaram-lhe a farda e tiraram-lhe a arma. Mandou então, mais três soldados que conseguiram parlamentar com o objectivo de os conduzir em paz até à sua embarcação. E assim foram com eles à sua frente até à porta de Maria Belinho , na viela «à boca da Ribeira» , onde , de repente se espalharam e fizeram roda, cercando assim os soldados que ficaram no meio e aí foram apedrejados, tendo um sido ferido com gravidade numa perna e o outro ficado sem a arma.
Entretanto, saíram do quartel mais quatro soldados e um cabo de esquadra, para controlar «semelhante desordem nunca imaginada», mas os galegos já tinham desertado, sem terem restituído as duas armas com as respectivas baionetas. Por isso, o Cabo de Esquadra, Veríssimo Gonçalves, acompanhado de outra praça, foi a bordo da vasca para falar com o comandante. Apesar deste temer a sua tripulação por se encontrar «bastantemente embriagado», o Cabo pediu-lhe a restituição das armas; porém o capitão respondeu-lhe que não sabia delas, mas que faria uma busca e que se as achasse, no dia seguinte as entregaria.

Joana Maria, de 28 anos, casada com João Ferreira, declarou na “Devassa” que ao ouvir tanta gritaria, veio à porta para ver o que se passava e viu os galegos a atirar pedras a todas as portas, quando, de repente, lhe «entrou pela porta dentro um homem que devia ser companheiro do que levou as facadas o qual lhe pediu o deixasse entrar que o queriam matar. Que ele e o outro eram de fora da terra e desconhecidos que andavam procurando um pouco de palha para sustento das bestas que traziam».
Ela própria tinha visto os espanhóis a esfaquearem o almocreve, enquanto gritavam “É português!”, voltando depois a querer arrombar a sua porta exigindo que ela «botasse fora o português», que eles tinham visto entrar, enquanto ele fugia pelo quintal, deixando-a aflitíssima e com as portas da rua mal seguras. Os espanhóis foram então a casa do Dr, Manuel Pessoa (de Faria), que ficava em frente, à procura de mais portugueses, e ela, fugiu de casa.
Segundo outra testemunha, as pedras eram atiradas com tanta força, que faziam lume. Maria Rosa Barbosa, mulher de Luís Vieira, vendeira, de 47 anos, afirmou que se o vereador António Caetano Gonçalves Marques não se refugia em casa dela, seria morto pelos mesmos facínoras que escacaram tudo na casa de seu vizinho Terra. Foi ela quem foi da Praça, à porta do Quartel dos Soldados para que estes acudissem, mas como estes eram poucos «foram zombados, porque lhes tiraram duas armas».

Todavia, segundo outras testemunhas ouvidas na” Devassa”, todo este reboliço teve como causa próxima o facto de um almocreve da freguesia das Neves, conhecido pelo nome de “Ferreira”, juntamente com outros da sua comitiva, que incluía «alguns daqui», ter provocado e batido nuns galegos da vasca «em consequência do que o resto da tripulação se levantou em semelhante desordem» , cuja vítima principal foi Francisco António da Cunha, um outro almocreve de Santa Maria da Alheira, do Couto de Pitães, que ficou “às portas da morte”, embora nada tivesse a ver com o assunto.

José António dos Santos, vice-cônsul da Inglaterra “nesta vila”, confirmou a versão anterior ao declarar que a maior parte da tripulação da vasca, armada com paus, facas e pedras, estava tão assanhada que «parecia que iam passar tudo a ferro, menos os que falavam espanhol», mas que os espanhóis «se alteraram pela perseguição a um do seus membros por certos vagabundos que cruzavam as ruas da vila a toques e cantorias, sendo o chefe dessa abominável banda, um almocreve das Neves, conhecido por” Ferreira” e outros da sua comitiva».

A “sentença” sobre tudo o que se passou, obrigava à prisão do «capitão ou comandante» D. Manoel Nicolino e seus tripulantes; porém, como eram delinquentes de outra nação, foi enviada, em 7 de Fevereiro de 1807 uma cópia fiel da Devassa ao Governador das Armas do Minho, para ser presente à Rainha pelo Secretário dos Negócios da Guerra, pois, os espanhóis tinham ido na maré da madrugada do dia 28, sem terem dado cavaco às autoridades nem restituído as duas armas.

Foi no que resultou a tal “cantoria”... que pôs a rua do Cais (actual rua Manuel Viana) e suas imediações em estado de sítio, como se Esposende fosse Port Royal, nas Caraíbas.

Por José Felgueiras

- Obras do Encanamento do Rio Cávado, que decorriam na altura.
- Depoimento de António Caetano Gonçalves Marques, que ao tempo, morava na Rua Nova (actual rua Belemino A. Ribeiro.
- Na confluência da Rua Conde de Agrolongo com a rua Manuel Viana.- A casa ainda hoje existe. É um Hostel, Junto ao Turismo
-Arquivo Histórico Militar / AHM – Digitarq. Cº Rº PT/AHM/DIV/1!13/25/06 -.Correspondência do Tenente General Gonçalo Pereia de Caldas, Governador das Armas do Minho, para António Araújo Azevedo.


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Manuel Vieira
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