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- ALMA FANGUEIRA -
Um Missionário que deu que falar.... há 120 anos

No dia 24, assisti à Missa na Igreja Matriz de Fão. Gostei. E gostei particularmente da Igreja muito bem asseada e arranjada, com lindíssimos altares; um templo muito bem recuperado, airoso, agradável. O sacerdote celebrante, pareceu-me um padre moderno, desempoeirado, que se limitou à palavra do Senhor com serena objectividade, retirando dela a lição respectiva, de modo a que toda a gente percebesse.
Enquanto ouvia o reverendo e os meus olhares deambulavam pelo centro do templo, eis que de repente me salta à memória um episódio que havia lido e apontado há tempos, passado ali, naquela igreja, precisamente há 120 anos!

Tinha sido ali, num daqueles lindíssimos púlpitos! Só não sei em qual deles; mas foi num daqueles, quando aquela Igreja ainda só tinha 6 anos após a reestruturação profunda a que foi submetida.
O que se passou então, em Setembro daquele longínquo ano de 1896?

Não vou sequer mexer nas notícias que chegaram de Fão à redacção do jornal “O Povo Espozendense”, jornal tido como progressista e liberal. Campeavam já as ideias republicanas que cada vez mais abanavam os tremidos alicerces do velho regime. A Igreja, através dos jesuítas e não só, reagia aos movimentos maçónicos e aproveitava os púlpitos para os denunciar e denegrir.
O contraste entre o que ouvia e o que tinha lido era nítido. Por isso me propus a trazer ao conhecimento dos leitores de “O Novo Fangueiro – on line” a violenta reação de um fangueiro anónimo, contra um missionário jesuíta que, ao que parece, levou tudo raso ....
De notar, o estilo panfletário das duas cartas que transcrevo na íntegra, enviadas ao jornal que as publicou. A forma de exposição dos factos; a denúncia e a ironia neles contidas, estão em linha com a tradição que se manteve ao longo dos tempos como uma das facetas mais genuínas da “Alma Fangueira”.


Eis as cartas, tal com foram publicadas:

«CARTA DE FÃO -Manobras jesuíticas. O fanatismo e a hipocrisia em acção.

Snr. Redactor. O aguerrido exército inimigo da Luz acampou dentro dos muros desta povoação laboriosa e civilizada e faz fogo em toda a linha. Os soldados cujo negro fardamento faz lembrar as aves agoureiras da Morte, trazem vasta metralha de eloquência falsa e boçal e de hipocrisia relapsa para iludir as almas ingénuas, para arrebatar em seu redor o enorme batalhão do mulherio, que abandona tudo, o trabalho, os serviços domésticos e a vida feliz do lar conjugal com o único intuito de se entregar a esse misticismo atrofiante, ocioso e por vezes desmoralizador aconselhado em altos e furi bundos berros de estafada retórica pelos padres jesuítas. Isto é extraordinário, ê estupendo, Sr. Redactor, e eu em nome de tudo o que há de mais sublime e grandioso, como é a Civilização, Progresso e até a Santa Religião que professamos, protesto veemente e altamente contra estas inúteis senão prejudiciais missões do jesuitismo desenfreado.

Fão a nossa querida terra, cuja densidade de população a eleva acima de qualquer aldeola sertaneja, Fão, que tem firmado o seu adiantamento quer moral quer material com obras de grande alcance, está convertida em um foco de fanatismo religioso, estupido e nocivo e será mais tarde -parece que o estamos a ver delineado no cérebro dos invasores jesuítas - a praça forte dos missionários, a fortaleza dessa companhia de dominadores odiosos, de propugnadores do terror e das trevas, de onde irradiarão para as povoações circunvizinhas elementos de perniciosa propaganda e ordens expressas de combate.
Isto é impossível!
E muito embora esses negros atletas do fanatismo clamem do alto do púlpito contra nós, contra aqueles que não se deixam embair pelas artimanhas jesuiticas nem contaminar pela refalsada hipocrisia de que eles estão eivados; muilo embora· o anátema colérico d'esses missionárias caia sobre nossa cabeça, nós não deixaremos de protestar contra a invenção dessa grei na educação moral e religiosa do nosso povo.

Não precisamos de missionárias, afirmamo-lo desassombrada e afoitamente. O clero da nossa terra é suficientemente ilustrado, activo e digno para que possa tomar sob sua responsabilidade a direcção espiritual da nossa povoação. Quem afirmar o contrário ou faz um péssimo conceito da educação do nosso povinho, ou nega a competência dos padres d'esta terra.

Até hoje nada tem saído de importante e útil d'esse grémio chamado do Coração de Jesus, a não ser os Tríduos. Estes para mais nada tem servido que para contaminar dum misticismo tolo e prejudicial o mulherio e até alguns homens, que gastam mais de metade da vida em meditações na igreja mas quo não deixam de ser tão ou mais pecadores que aqueles que não pertencem ao grémio jesuítico. Qual será, pois, a influência moral d'estas missões nas consciências do nosso povo? Que beneficio) temos nós recebido destas missões que há quási meia dúzia de anos se fazem na nossa terra? Serão úteis pou prejudiciais estas missões?

E' sobre estes pontos que prometemos tratar largamente este importante assunto local. Por boje fica exarado o nosso protesto contra a actual missão de um sacerdote, que não prima nem cativa pela elevação de linguagem nem pela sublimidade de pensamentos e que, se não bastasse a péssima impressão que no animo de todos nós deixou na pregação de Janeiro, bastaria tão sómente a tradição de que vem rodeado o seu nome, de missionário ríspido e indelicado para não merecer a nossa simpatia. E este jornal, que é o legitimo interprete dos sentimentos dos povos deste concelho, não deixará de firmar mais uma vez as ideias nobres e liberais de quem sabiamente o redige, dando publicidade a este nosso protesto. Um amigo e leitor»
Fão, 11 de Setembro de 96. Um amigo e leitor.

2ª carta
«UM PREGADOR EM FÃO

O fiasco e a insolência de um Missionário

Em face do monumental fiasco com que o ferrenho e ranc0roso jesuíta terminou sua serie de seremonatas, depomos a nossa pena, abdicamos do mandato que a nós mesmos propusemos s de combater a perniciosa influência destas missões na catequização do nosso povo.
Ele mesmo, o falsíssimo apóstolo do Cristianismo, se encarregou de vibrar o último golpe na sua obra de fanatização. O povo desta igreja sente-se hoje vexado e ludibriado nas suas arreigadas crenças religiosas pelo insolente prégador.
Antes, porém, de darmos por terminado o nosso mandato, ousamos fazer uma resenha da prédica de Domingo, último ataque do inimigo que bateu em retirada blasfemando e ameaçando tudo e todos, como se a nossa terra fosse um covil de jacobinos e pedreiros-livres.
A nós não nos move um desenfreado furor anti -jesuítico nem tão pouco a mínima aversão aos princípios religiosos que herdamos de nossos pais.· Não! Temos orgulho na Fé que professamos, na sublime e Santa Religião do Cristo Crucificado e ainda hoje nos curvamos reverentes perante a figura veneranda do sacerdote que nos ministrou os primeiros sacramentos, difundindo na nossa alma em embrião a luz bendita, a luz intensa do Cristianismo.
Somos cristãos e somos católicos! Esta profissão de fé, porém, não nos embaciou ainda os olhos da razão nem abafou a voz da nossa consciência para que aceitemos como sinceros e verdadeiros os padres dessa seita justamente odiada, dessa companhia de engajadores das consciências.
Fiquem, pois, bem cientes os nossos leitores e o beatério maldizente d'esta terra. O obscuro autor d'estas linhas, conquanto seja vitima do soalheiro das beatas, levanta arrogante a sua fronte e desafia todos os jesuítas de sotaina ou de casaca para que o ataquem com os actos indignos da sua vida de suposto jacobino. E posto isto, sr. Redactor, afianço-lhe que o nosso protesto, a que este sincero órgão do liberalismo deu publicidade, foi alvo de variadíssimos comentários, merecendo louvores da parle mais ilustrada e mais digna da nossa terra, com o que muito nos ufanamos e que por nossa parte agradecemos penhoradíssimos.
Vamos á seremonata.
A festa é das mais mesquinhas.

O altar do Orago está pessimamente adornado. A afluência dos fiéis é relativamente diminuta, menor que a de qualquer festividade. Ainda há pouco assistimos na nossa igreja a um sermão de S. Luiz Gonzaga por um estudante que teve igual concorrência senão maior. Muitas famílias das mais distintas da nossa terra recusaram-se propositadamente a ouvir o jesuíta conhecido como um prégador insolente, fastidioso e insuportável. Vimos muitos cavalheiros na igreja ao principiar a prédica que houveram per bem retirar-se aos primeiros ímpetos de fúria oratória, rindo e chasqueando da verborreia jesuítica. Muitas mulherzinhas fizerarn outro tanto. E o que ê certo é que nunca da sagrada tribuna de uma igreja ouvimos proferir tantas e tão vastas imprecações tão flagrantes blasfémias e ameaças tão manifestamente ridículas e solertes.

Nunca! Só o arrojo dum jesuíta insolente poderia proferir em nome da Santa Religião do Divino Mestre tanto dislate e impropério.
Foi um monumental escândalo, una verdadeira profanação! A prédica versou inteiramente em estigmatizar com a violência dum inclemente jesuíta a jacobinagem, a maçonaria e o ateísmo.
Todo o auditório julgou o assunto impróprio para a ocasião, menos nós ...
Desde logo choveu do púlpito uma foribunda saraivada de bombásticas adjetivações, como estas: «brutos, estúpidos, idiotas, caluniadores, carrascos e tartufos».
O padre parecia ter decorado algumas palavras da nossa carta, pois por diversas vezes falou em «aves agoirentas da Morte; relapsa e refalsada hipocrisia», etc .
Uma coisa se notou de anormal. Era tal a excitação do padre que poucas vezes se lembrou de mandar pôr fora da igreja as crianças e as mães d'estas.
A alturas tantas s o prégador diz: «Não é só nus grandes centros que há maçons e jacobinos. Também nesta terra os há! Tenho as provas na mão ... » Talvez o hominho quisesse dizer que o correio lhe havia entregado horas antes o «Povo Espozendense». «Mas eu bem sei por onde o gato vai às filhoses”. Palavras textuais.
Também nós sabemos - probabilissimamente é pelas colunas do jornal... Depois divagou «sabiamente», como todos os jesuítas, pela história: «Deus castigou Napoleão mandando do céu uma tempestade de gelo que decepou as mãos. os pés e os narizes aos soldados franceses na campanha da Rússia!! O velhaco Voltaire era um Tartufo (o que será este jesuíta?!) e o Gambeta que não era tolo, etc ... Tolo de lodo não é ele, o tal Tartufo de sotaina. Também teve frases de estilo lo nobre: «a mulher não ê nenhuma besta de carga» (!!!). Disse mais: que os jacobinos da nossa terra também se confessavam , iam á missa e até o iam ouvir. O homem não nos conhecia , felizmente, senão era capaz de dizer, apontando-nos á multidão - « Lá está um!»
Porém, a parte mais patética, mais emocionante de todo aquele laborioso parto, foi quando o valentão Loyola atroando os ares com a voz quási estrangulada nas fauces, pergunta: QUEM É O TARTUFO?
Abrenúncio! Sentimos efeitos em toda a espinha dorsal. Algumas beatas que dormiam a sono solto, sonhando com a vida paradisíaca dalém túmulo, acordaram assarapantadas com o enorme estampido, julgando-se logo engolfadas pelas labaredas do inferno. E o ministro de Deus, cada vez ma decocado, mais defunto, mas mais iracundo, berrou novamente: QUEM É O TARTUFO?! As beatas começaram então na gemebunda música dos ais, julgando chegado o dia de Juízo e como ignorassem o que vem a ser isto de Tartufo, calcularam que era algum nome moderno que o missionário pusera ao maldito Satanás.
Aquilo foi de tremer o céu e a terra!
Irribus!
E como esta vai demasiadamente longa, pomos ponto, agradecendo-lhe, sr. Redactor, a finesa, que nos dispensou em aturar de boa vontade este nosso jacobinismo.
O seu conceituado jornal prestará um verdadeiro serviço à civilização e emancipação dos povos deste concelho, combatendo a todo o transe e sem tréguas dos tais missionários jesuítas, que, segundo nos consta, têm estabelecido associações em quase todas as freguesias do concelho.
Fão, 18 de Setembro de 1896
Um amigo e leitor» (“O Povo Espozendense” , nº 218 de 20 de Setembro de 1896, págs. 1 e 2)

José Felgueiras


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Manuel Vieira
nevieira@novofangueiro.com

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